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 SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL

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Alucinações

Oliver Sacks

I was blind but now I see - Susan Verbrugge
 

índice
  1. Multidões Silenciosas: a síndrome de Charles Bonnet
  2. Bissectado: Alucinações em metade do Campo Visual

 

MULTIDÕES SILENCIOSAS: A SÍNDROME DE CHARLES BONNET

Em fins de novembro de 2006, recebi um chamado de emergência de uma instituição para idosos onde trabalho. Uma das residentes, a nonagenária Rosalie, de repente começara a ver coisas, a ter alucinações esquisitas que lhe pareciam poderosamente reais. As enfermeiras chamaram o psiquiatra, mas pensaram, além disso, que poderia ser algum problema neurológico — Alzheimer, talvez, ou um derrame.

Quando cheguei e a cumprimentei, percebi, surpreso, que Rosalie era cega. As enfermeiras não haviam mencionado isso. Embora ela não enxergasse fazia muitos anos, agora estava “vendo” coisas à sua frente.

“Que tipo de coisa?”, perguntei.

“Gente com trajes orientais!”, ela exclamou. “De roupas drapejadas, subindo e descendo escada… um homem que se vira para mim e sorri, mas ele tem dentes enormes de um lado da boca. Animais também. Vejo uma cena com um prédio branco, e está nevando — uma neve macia, em redemoinhos. Vejo um cavalo (não um cavalo bonito, um cavalo de carga), com arreios, levando embora a neve… mas está sempre mudando… vejo muitas crianças, subindo e descendo escadas. Usam cores vivas — rosa, azul — como roupas orientais.” Ela andava vendo cenas assim fazia vários dias.

Observei, no caso de Rosalie (e no de muitos outros pacientes), que, enquanto ela sofria as alucinações, seus olhos estavam abertos, e, apesar de ela não enxergar, se moviam, como se ela estivesse olhando para uma cena real. Isso foi o que chamou a atenção das enfermeiras logo de início. Esse tipo de direcionamento e escaneamento com os olhos não ocorre com cenas imaginadas; a maioria das pessoas, quando visualiza ou se concentra em suas imagens internas, tende a fechar os olhos ou a fixar abstratamente o olhar, sem dirigi-lo para alguma coisa específica. Como salienta Colin McGinn em seu livro Mindsight, não esperamos descobrir nada de surpreendente ou novo em nossas próprias imagens mentais, ao passo que as alucinações podem ser cheias de surpresas. Frequentemente elas são muito mais detalhadas do que as imagens mentais, e pedem para ser inspecionadas e estudadas.

Rosalie disse que suas alucinações eram mais “como um filme” do que como um sonho; e, como um filme, às vezes a fascinavam, às vezes a entediavam (“é muito sobe-desce, muito traje oriental”). Iam e vinham, e não pareciam ter relação alguma com ela. As imagens eram silenciosas, e as pessoas vistas pareciam não tomar conhecimento dela. Com exceção do seu silêncio estranho, as figuras pareciam muito sólidas e reais, embora às vezes bidimensionais. Mas nunca antes acontecera nada parecido com Rosalie, por isso ela só podia se perguntar: estaria enlouquecendo?

Fiz perguntas minuciosas a Rosalie, mas nada encontrei que sugerisse confusão ou delírio. Examinei seus olhos com o oftalmoscópio, vi a devastação em suas retinas, mas, fora isso, nada de errado. Neurologicamente, ela estava 100% normal — uma idosa decidida e muito vigorosa para sua idade. Tranquilizei-a com respeito a seu cérebro e sua mente; ela parecia perfeitamente sã. Expliquei que, curiosamente, alucinações não são coisa rara nas pessoas cegas ou com deficiência visual, e que essas visões não são “psiquiátricas”, e sim uma reação do cérebro à perda da visão. Rosalie tinha um transtorno chamado síndrome de Charles Bonnet.

Ela digeriu isso e se declarou intrigada pelo fato de só agora ter começado a sofrer alucinações, já que sua cegueira era de vários anos. Mesmo assim, ficou satisfeita e sossegada por saber que suas alucinações representavam uma doença reconhecida, que até nome tinha. Empertigou-se toda e me pediu: “Diga às enfermeiras que eu tenho síndrome de Charles Bonnet”. Depois perguntou: “Quem foi esse Charles Bonnet?”.

Charles Bonnet foi um naturalista suíço do século xviii cujos estudos englobaram várias áreas, desde a entomologia até a reprodução e regeneração de pólipos e outros animálculos. Quando uma doença nos olhos vetou-lhe o amado microscópio, ele se voltou para a botânica — fez experimentos pioneiros sobre a fotossíntese —, depois para a psicologia e finalmente para a filosofia. Ao saber que seu avô, Charles Lullin, começara a ter “visões” depois de sua visão se deteriorar, Bonnet pediu-lhe que ditasse o relato completo.

John Locke, em seu Ensaio acerca do entendimento humano, de 1690, introduziu a ideia de que a mente é uma tábula rasa até receber informações dos sentidos. Esse “sensacionalismo”, como era chamado, foi muito popular entre os filósofos e racionalistas do século xviii, inclusive Bonnet. Este também concebia o cérebro como “um órgão de intricada composição, ou, melhor dizendo, um conjunto de diversos órgãos”. Esses diversos “órgãos” tinham, cada qual, suas funções dedicadas. (Esse tipo de visão modular do cérebro era radical para a época, pois ainda se pensava que o cérebro fosse indiferenciado e uniforme em sua estrutura e funcionamento.) Por isso, Bonnet atribuiu as alucinações de seu avô à continuação de atividade naquilo que ele postulou como as partes visuais do cérebro: uma atividade que agora se valia da memória, já que não podia mais se valer de sensações.

Bonnet — que mais tarde, ao deteriorar-se também a sua visão, viria a sofrer alucinações semelhantes — publicou um breve relato sobre o caso de Lullin em seu ensaio de 1760 intitulado Essai analytique sur les facultés de l’âme, um livro dedicado à investigação das bases fisiológicas de vários sentidos e estados mentais; mas o relato original de Lullin, registrado em dezoito páginas de caderno, ficou depois perdido por 150 anos, e só veio à luz no início do século xx. Douwe Draaisma traduziu recentemente o relato de Lullin e incluiu uma pormenorizada história da síndrome de Charles Bonnet em seu livro Disturbances of the mind. (a)

Ao contrário de Rosalie, Lullin ainda conseguia enxergar alguma coisa, e suas alucinações sobrepunham-se ao que ele via no mundo real. Draaisma resumiu o relato de Lullin:

Em fevereiro de 1758, estranhos objetos haviam começado a flutuar para dentro do seu campo de visão. De início era algo que lembrava um lenço azul com um pequeno círculo amarelo em cada canto. […] O lenço acompanhava os movimentos de seus olhos; quer ele olhasse para uma parede, para sua cama ou uma tapeçaria, o lenço bloqueava todos os objetos comuns em seu quarto. Lullin estava perfeitamente lúcido e em nenhum momento acreditou que realmente havia um lenço azul flutuando. […]

Um dia, em agosto, duas netas vieram visitá-lo. Lullin estava sentado numa poltrona defronte à lareira, e suas visitantes estavam à direita. Da esquerda apareceram dois moços. Usavam magníficos mantos vermelhos e cinza e chapéus com debruns prateados. “Que garbosos cavalheiros vocês trouxeram! Por que não me avisaram que eles viriam?” Mas as moças juraram não ver ninguém. Assim como o lenço, as imagens dos dois homens dissolveram-se em momentos. Foram seguidas por muitos outros visitantes imaginários nas semanas seguintes, apenas mulheres; traziam belos penteados, e várias delas tinham uma pequena caixa sobre a cabeça. […]

Algum tempo depois, Lullin estava à janela quando viu uma carruagem aproximar-se. A carruagem parou defronte à casa de seu vizinho e, enquanto ele assistia estarrecido, foi se tornando cada vez maior até ficar da altura do beiral do telhado, a uns dez metros do chão, com tudo em perfeita proporção. […] Lullin assombrou-se com a variedade das imagens que via: numa ocasião, foi um enxame de pontinhos que subitamente se transformou em uma revoada de pombos; noutra vez, foi um grupo de borboletas a dançar. Certa feita, viu uma roda girando no ar, como aquelas dos guindastes nas docas. Durante um passeio pela cidade, ele parou para admirar um andaime enorme, e ao voltar para casa viu o mesmo andaime no meio da sala de estar, só que em miniatura, com menos de trinta centímetros de altura.

Lullin constatou que as alucinações da síndrome de Charles Bonnet (scb) iam e vinham; as dele duraram alguns meses e então desapareceram para sempre.

No caso de Rosalie, as alucinações amainaram depois de poucos dias, tão misteriosamente quanto haviam surgido. Quase um ano depois, porém, recebi outro telefonema das enfermeiras, avisando que ela estava “muito nervosa”. As primeiras palavras de Rosalie quando cheguei foram “De repente, do nada, o Charles Bonnet voltou muito pior”. Ela contou que, alguns dias antes, “figuras começaram a andar por aí, o quarto parecia lotado. As paredes transformaram-se em grandes portões, centenas de pessoas começaram a entrar. As mulheres, embonecadas, usavam lindos chapéus verdes, peles com debruns dourados, mas os homens eram medonhos: ameaçadores, mal-encarados, andrajosos, e seus lábios se moviam como se eles estivessem falando”.

Naquele momento as visões pareciam absolutamente reais para Rosalie. Ela praticamente se esquecera de que tinha a síndrome de Charles Bonnet. Ela me disse: “Fiquei tão apavorada que gritei, gritei ‘tirem essa gente do meu quarto, abram esses portões! Tirem essa gente! E depois fechem os portões’”. Ouviu uma enfermeira comentar: “Ela não está bem da cabeça”.

Três dias depois, Rosalie me disse: “Acho que sei o que fez essa coisa começar de novo”. E contou que passara por momentos muito estressantes e cansativos no começo da semana: uma longa e quente jornada até o consultório de um gastroenterologista em Long Island e um tombo de costas no caminho. Retornou muitas horas depois, chocada, desidratada, quase em colapso. Foi posta na cama e caiu num sono profundo. Na manhã seguinte, acordou com as terríveis visões de pessoas irrompendo através das paredes do seu quarto, que duraram 36 horas. Depois ela começou a se sentir um pouco melhor e a recuperar a noção do que estava acontecendo. Pediu então a uma jovem voluntária que pesquisasse na internet informações sobre a síndrome de Charles Bonnet e desse cópias ao pessoal da casa de saúde, para que soubessem o que estava acontecendo.

Com o passar dos dias, suas visões atenuaram-se bastante e até desapareciam quando ela estava conversando com alguém ou ouvindo música. Suas alucinações tornaram-se “mais tímidas”, ela disse, e agora só ocorriam durante a noite, se ela se sentasse em silêncio. Pensei na passagem de Em busca do tempo perdido em que Proust fala sobre o som dos sinos da igreja de Combray, que parecia abafado durante o dia e só era ouvido quando a agitação e o barulho se aplacavam ao anoitecer.

A síndrome de Charles Bonnet antes de 1990 era considerada rara, e na literatura médica havia apenas um punhado de casos descritos. (b)Estranhei isso, pois, ao longo de trinta anos trabalhando em instituições e clínicas para idosos, eu vira diversos pacientes cegos ou semicegos com alucinações visuais complexas do tipo Charles Bonnet (assim como vira diversos pacientes surdos ou quase surdos com alucinações auditivas, mais frequentemente musicais). Eu duvidava que a scb fosse de fato tão rara quanto a literatura parecia indicar. Estudos recentes confirmaram meu palpite, embora a scb ainda seja pouco reconhecida, mesmo por médicos, e haja bons indícios de que muitos casos ou a maioria deles passam despercebidos ou são mal diagnosticados. Robert Teunisse e seus colegas, estudando uma população de quase seiscentos pacientes idosos com problemas visuais na Holanda, descobriram que quase 15% deles sofriam de alucinações complexas — com pessoas, animais ou cenas — e nada menos que 80% tinham alucinações simples — formas e cores, às vezes padrões, mas sem formar imagens ou cenas.

A maioria dos casos de scb provavelmente permanece nesse nível elementar de padrões ou cores simples. Os pacientes que têm essas alucinações simples (e talvez transitórias ou ocasionais) podem não prestar muita atenção ou não se lembrar de relatá-las ao médico. Mas as alucinações geométricas de algumas pessoas são mais persistentes. Uma idosa com degeneração macular, ao saber do meu interesse por esses casos, contou que, nos dois primeiros anos de sua deficiência visual, ela via um grande globo de luz que circulava e depois sumia, seguido por uma bandeira colorida de foco bem nítido. […] Muito parecida com a bandeira britânica. Não sei de onde vinha. […] Nestes últimos meses andei vendo hexágonos, quase sempre hexágonos cor-de-rosa. De início havia também linhas emaranhadas dentro dos hexágonos, e outras bolinhas coloridas, amarelas, cor-de-rosa, lavanda e azul. Agora são apenas hexágonos pretos que lembram bem os azulejos de banheiro. (c)

Embora a maioria das pessoas com scb saiba que está tendo alucinações (na maior parte das vezes graças à própria incongruência das sensações alucinatórias), algumas alucinações podem ser plausíveis e pertinentes ao contexto, como no caso dos “garbosos cavalheiros” que acompanhavam as netas de Lullin, e essas podem, inicialmente, levar a pessoa a pensar que são reais. (d)

Em alucinações mais complexas é típico ver rostos, embora quase nunca sejam de pessoas conhecidas. David Stewart, em um relato biográfico não publicado, descreveu:

Tive outra alucinação. […] Desta vez foi com rostos, dos quais o mais destacado era o de um homem que poderia ser um robusto capitão de navio. Não era o Popeye, mas fazia o tipo. O boné que ele usava era azul com uma viseira preta brilhante. Tinha um rosto cinzento, as maçãs bem rechonchudas, olhos brilhantes e um nariz decididamente bulboso. Não era ninguém que eu já tivesse visto. Não era uma caricatura, e ele parecia bem vivo, alguém que eu sentia que poderia gostar de conhecer. Ele me fitou sem piscar, com uma expressão benigna e totalmente indiferente.

O robusto capitão de navio, registrou Stewart, apareceu enquanto ele ouvia um audiolivro da biografia de George Washington, que incluía uma referência a marinheiros. Ele mencionou também que tivera uma alucinação “que quase replicava um quadro de Brueghel” que ele vira uma vez — a única vez — em Bruxelas, e outra de uma carruagem que ele achava que poderia ter pertencido a Samuel Pepys, pouco depois de ter lido uma biografia dele.

Embora alguns rostos alucinatórios, como o do capitão de navio de Stewart, pareçam coerentes e plausíveis, outros podem ser grotescamente distorcidos ou, em alguns casos, compostos de fragmentos — um nariz, parte de uma boca, um olho, uma cabeleira enorme, tudo justaposto de um modo aparentemente aleatório.

Algumas pessoas com scb podem ter alucinações com letras, linhas impressas, notas musicais, números, símbolos matemáticos ou outros tipos de notação. O termo geral “alucinações textuais” é usado para denotar esses tipos de visão, embora na maioria das vezes o que é visto não se preste à leitura nem à execução musical e possa não ter sentido algum. Minha correspondente Dorothy S. mencionou esse aspecto ao descrever uma de suas muitas alucinações de scb:

E há também as palavras. Não são de língua conhecida, algumas não têm vogais, algumas as têm em excesso: “skeeeekkseegsky”. Tenho dificuldade para capturá-las enquanto se movem velozmente de um lado para outro, e avançam e recuam. […] Às vezes vislumbro parte do meu nome ou uma versão dele: “Doro” ou “Dorthoy”.

Às vezes o texto da alucinação tem uma associação óbvia com alguma vivência, como no caso de um homem que me escreveu contando que todo ano via letras hebraicas nas paredes durante umas seis semanas depois do Yom Kippur. Outro homem, quase cego pelo glaucoma, relatou que frequentemente via linhas impressas em balões, “como nas histórias em quadrinhos”, mas não conseguia decifrar as palavras. As alucinações com texto não são incomuns: Dominic ffytche, que atendeu centenas de pessoas com scb, estima que cerca de um quarto delas tenha algum tipo de alucinação com texto.

Marjorie J. me escreveu em 1995 sobre o que ela chama de seus “olhos musicais”:

Sou uma mulher de 77 anos com a visão danificada pelo glaucoma principalmente na metade inferior. Há uns dois meses comecei a ver música, linhas, espaços, notas, claves — de fato, música escrita onde quer que eu olhasse, mas só onde eu tenho a cegueira. Não fiz caso por algum tempo, mas um dia, em visita ao Museu de Arte de Seattle, vi as linhas das notas explicativas como música e soube que estava realmente tendo algum tipo de alucinação.

[…] Antes das alucinações musicais eu vinha tocando piano e me concentrando bastante em música […] foi logo antes de minha catarata ser removida, e eu precisava me concentrar muito para enxergar as notas. Ocasionalmente eu vejo quadrados de palavras cruzadas […] mas a música não vai embora. Disseram-me que o cérebro se recusa a aceitar o fato de que existe perda visual e preenche a lacuna — no meu caso, com música.

Arthur S., um cirurgião que também é um hábil pianista amador, está perdendo a visão por degeneração macular. Em 2007, começou a “ver” notação musical. A aparência era extremamente realista, as pautas e claves impressas em negrito num fundo branco, “igualzinho a uma partitura musical verdadeira” — e Arthur, por um momento, pensou na possibilidade de alguma parte do seu cérebro estar agora gerando sua própria música original. Mas quando examinou com mais atenção, percebeu que a partitura era ilegível e não podia ser tocada. Era incomumente complicada, com quatro ou cinco pautas, acordes impossivelmente complexos com seis ou mais notas em uma mesma haste, e fileiras horizontais com muitos bemóis e sustenidos. Era, segundo ele, “um pot-pourri de notação musical sem significado algum”. Ele via uma página dessa pseudomúsica por alguns segundos, depois ela desaparecia gradualmente e era substituída por outra página também sem sentido. Essas alucinações eram às vezes intrusivas, e podiam cobrir uma página que ele estava tentando ler ou uma carta que ele estivesse escrevendo.

Embora Arthur esteja incapacitado para ler partituras musicais reais há alguns anos, ele supõe, como Marjorie, que talvez uma vida inteira de imersão em música e partituras musicais possa ter determinado a forma de suas alucinações. (e)

Ele também se pergunta se as suas alucinações podem progredir. Por aproximadamente um ano antes de começar a ver notação musical, Arthur viu algo muito mais simples: um padrão xadrez. Sua notação musical será seguida por alucinações ainda mais complexas, como pessoas, rostos ou paisagens, à medida que sua visão declinar?

Existe claramente um vasto conjunto, todo um espectro de transtornos visuais que podem ocorrer quando a visão é perdida ou comprometida, e de início o termo “síndrome de Charles Bonnet” era reservado àqueles cujas alucinações se relacionavam a doenças oculares ou outros problemas dos olhos. Mas um conjunto essencialmente semelhante de perturbações também pode ocorrer quando o dano não é no olho, e sim em partes superiores do sistema visual, especialmente as áreas corticais envolvidas na percepção visual — os lobos occipitais e suas projeções nos lobos temporais e parietais do cérebro. Esse parece ser o caso de Zelda.

Zelda, que é historiadora, procurou-me em 2008. Contou que seu mundo de estranhos fenômenos visuais começara em um teatro seis anos antes, quando a cortina bege na frente do palco subitamente lhe pareceu coberta de rosas vermelhas. As rosas eram tridimensionais e se salientavam na cortina. Quando Zelda fechou os olhos, continuou vendo as rosas. Essa alucinação durou alguns minutos, depois sumiu. Ela ficou perplexa e atemorizada, foi consultar seu oftalmologista, mas ele não encontrou nenhuma deficiência visual nem alterações patológicas nos olhos. Zelda procurou seu clínico geral e seu cardiologista, mas nenhum deles conseguiu dar uma explicação plausível para esse episódio — nem para os incontáveis outros que se seguiram. Por fim, ela fez uma tomografia computadorizada do cérebro, que mostrou uma redução no fluxo sanguíneo em seus lobos occipitais e parietais, presumivelmente a causa de suas alucinações, ou pelo menos uma causa possível.

Zelda tinha alucinações simples e complexas. As simples podiam aparecer quando ela lia, escrevia ou via televisão. Um de seus médicos pediu-lhe que registrasse em um diário as suas visões durante três semanas, e nesse diário Zelda descreveu: “Enquanto escrevo esta página, ela vai se tornando cada vez mais coberta por uma treliça verde-clara e rosa. […] As paredes da garagem, revestidas de blocos brancos, mudam continuamente […] ora parecem tijolos, ora ripas de madeira, ora são cobertas de damasco ou flores de cores variadas. […] No corredor, no alto das paredes, formas de animais. São feitas de pontinhos azuis”.

Alucinações mais complexas — ameias, pontes, viadutos, prédios de apartamento — são especialmente comuns quando ela anda de carro (ela desistiu de dirigir depois de seu primeiro ataque, cinco anos atrás). Numa ocasião em que ela e o marido viajavam por uma estrada coberta de neve, Zelda se espantou com os arbustos de folhas verdes brilhantes que cintilavam com pingentes de gelo, dos dois lados da rua. Noutra ocasião, viu uma cena chocante:

Quando estávamos indo embora do salão de beleza, no carro, vi no capô o que me pareceu um adolescente apoiado nos braços, com os pés no ar. Ele permaneceu ali por uns cinco minutos. Mesmo quando fizemos uma curva, ele continuou ali em cima do capô. Paramos o carro no estacionamento de um restaurante e o rapaz subiu nos ares, encostado no prédio, e ali ficou até que saí do carro.

Doutra feita, ela “viu” uma de suas bisnetas, que se ergueu, foi subindo até o teto e desapareceu. Zelda viu três figuras “parecidas com bruxas”, imóveis, hediondas, de narigão curvo, queixo pontudo e olhos ameaçadores, e essas também desapareceram após alguns segundos. Zelda disse não ter ideia de que sofria tantas alucinações até começar a registrá-las no diário; ela acha que muitas delas teriam sido esquecidas sem as anotações.

Zelda também falou sobre muitas experiências visuais estranhas, que não eram bem como alucinações no sentido de serem totalmente inventadas ou geradas; pareciam ser persistências, repetições, distorções ou elaborações de percepções visuais. (Charles Lullin teve alguns desses distúrbios perceptuais, e eles não são raros em pessoas com scb.) Algumas eram relativamente simples; por exemplo, certa vez em que ela olhou para mim, minha barba pareceu espalhar-se até cobrir todo o meu rosto e cabeça, depois recobrou sua aparência normal. Ocasionalmente, ao olhar-se no espelho, ela podia ver seu cabelo erguendo-se quase meio metro acima da cabeça, e precisava verificar com as mãos se ele estava em seu lugar de costume.

Às vezes suas mudanças perceptuais eram mais inquietantes, como quando ela encontrou a entregadora de correspondência no saguão de seu prédio de apartamentos: “Quando olhei para ela, seu nariz cresceu até se tornar uma figura grotesca em seu rosto. Após alguns minutos, enquanto conversávamos, o rosto dela voltou ao normal”.

Zelda frequentemente via objetos duplicados ou multiplicados, e isso podia criar-lhe estranhas dificuldades. “Fazer o jantar e comer era bem difícil”, ela disse. “Eu continuava a ver muitas réplicas dos pedaços de comida quando elas não existiam. Isso durava a maior parte do jantar.” (f) Esse tipo de multiplicação visual — poliopia — pode assumir uma forma ainda mais drástica. Certa vez, num restaurante, Zelda observou um homem de camisa listrada pagando sua conta no caixa. Enquanto ela olhava, o homem se dividiu em seis ou sete cópias idênticas, todas de camisa listrada, todas fazendo os mesmos gestos — e depois as formas voltaram como uma sanfona à pessoa única. Em outras ocasiões, sua poliopia pode ser atemorizante ou perigosa, como quando ela estava num carro como passageira e viu a estrada à sua frente abrir-se em quatro estradas idênticas. O carro pareceu-lhe seguir pelas quatro estradas simultaneamente. (g)

Ver figuras em movimento até na televisão pode levar a perseveranças alucinatórias. Certa vez, quando assistia a um programa de televisão que mostrava pessoas descendo de um avião, Zelda começou a ter alucinações com diminutas réplicas das figuras, que continuaram sua descida, saíram da tela e prosseguiram pelo gabinete de madeira que sustentava a televisão.

Zelda tem dezenas dessas alucinações ou erros de percepção por dia, e isso vem ocorrendo, quase sem interrupção, nos últimos seis anos. Ainda assim, ela consegue manter uma vida bem movimentada, no lar e no trabalho: cuida da casa, recebe amigos, sai com o marido e está concluindo um novo livro.

Em 2009, um dos médicos de Zelda sugeriu que ela tomasse uma medicação chamada quetiapina, que às vezes pode diminuir a intensidade das alucinações. Para nosso espanto, em especial da parte dela, Zelda ficou totalmente livre de alucinações por mais de dois anos.

Em 2011, porém, ela passou por uma cirurgia cardíaca, e logo em seguida fraturou uma patela numa queda. Seja por causa da ansiedade e do estresse causados por esses problemas de saúde, seja devido à imprevisível natureza da scb ou a uma tolerância que ela tenha adquirido à medicação, Zelda voltou a ter alucinações. Estas, porém, assumiram uma forma mais tolerável. Quando está no carro, ela diz, “vejo coisas, mas não pessoas. Vejo campos cultivados, floridos, e muitas formas de construções medievais. Frequentemente vejo prédios modernos transformarem-se em construções mais históricas. Cada experiência traz algo diferente”.

Uma de suas novas alucinações, ela contou, “é muito difícil de descrever. É um show! A cortina sobe e os ‘atores’ dançam no palco — mas não são pessoas. Vejo letras hebraicas pretas com trajes brancos de balé. Dançam ao som de uma linda música, que não sei de onde vem. Movem as partes superiores das letras como braços e dançam sobre as partes inferiores com imensa graça. Entram no palco da direita para a esquerda”.

Embora as alucinações da scb geralmente sejam descritas como agradáveis, simpáticas, divertidas e até inspiradoras, de vez em quando podem ter qualidades bem diferentes. Isso aconteceu com Rosalie, na ocasião em que morreu Spike, um vizinho seu na residência para idosos. Ele era um irlandês imprevisível, risonho, e ele e Rosalie, ambos nonagenários, haviam sido grandes amigos durante anos. “Ele conhecia todas as músicas antigas”, Rosalie comentou; cantavam juntos, gracejavam e batiam papo por horas. Quando ele morreu, subitamente, Rosalie ficou arrasada. Perdeu o apetite, recusou-se a participar das atividades sociais, começou a passar mais tempo sozinha no quarto. Suas alucinações voltaram, mas, em vez das figuras com trajes alegres que ela antes via, agora eram cinco ou seis homens altos em volta da cama, calados e imóveis. Estavam sempre de terno marrom e chapéu escuro, que lhes sombreava o rosto. Ela não podia “ver” seus olhos, mas sentia que a estavam fitando de um jeito enigmático, solene. Sentia que sua cama se tornara um leito de morte e que aquelas figuras ominosas eram os arautos de sua própria extinção. Pareciam-lhe terrivelmente reais, embora ela soubesse que sua mão passaria através delas se a estendesse. Ela não tinha coragem de fazer isso.

Rosalie continuou a ter essas visões durante três semanas, e por fim começou a emergir de sua melancolia. Os homens sombrios e silenciosos de marrom desapareceram, e as alucinações de Rosalie começaram a acontecer principalmente na sala de convivência, um lugar cheio de música e conversas. Começavam com a visão de padrões — quadriláteros cor-de-rosa e azuis que pareciam cobrir o piso, subir pelas paredes e por fim se espalhar pelo teto. As cores desses “azulejos”, ela disse, faziam-na pensar em um quarto de criança. Condizentemente, ela agora via pessoinhas de alguns centímetros de altura, como elfos ou fadas, com chapéu verde, a subir pelos lados de sua cadeira de rodas. Havia também crianças, “pegando pedaços de papel no chão” ou subindo escadas alucinatórias no canto da sala. Rosalie achava as crianças “adoráveis”, embora suas atividades lhe parecessem sem sentido e, nas palavras dela, “bobas”.

As crianças e as pessoas minúsculas duraram duas semanas e também desapareceram, do modo misterioso como tendem a sumir tais alucinações. Embora Rosalie tenha saudade de Spike, fez outros amigos na casa de repouso e está de volta às suas rotinas de bater papo, ouvir audiolivros e óperas italianas. Hoje é raro ela ficar sozinha, e — coincidentemente ou não — suas alucinações desapareceram por ora.

Quando parte da visão está preservada, como nos casos de Charles Lullin e Zelda, podem ocorrer não só alucinações visuais, mas vários distúrbios da percepção visual: pessoas ou objetos podem parecer grandes ou pequenos demais, próximos ou distantes demais, pode haver cor ou profundidade em excesso, desalinhamentos, distorções ou inversões da imagem, ou ainda problemas com a percepção do movimento.

Obviamente, quando a pessoa tem cegueira total, como Rosalie, só podem ocorrer alucinações, mas elas podem apresentar também anomalias de cor, profundidade, transparência, movimento, escala e detalhes. Muitos descrevem as alucinações da scb como dotadas de cores intensas e deslumbrantes ou de um refinamento e riqueza de detalhes muito além de qualquer coisa que os olhos podem ver. Há fortes tendências a repetição e multiplicação, e podem ser vistas filas ou falanges de pessoas, todas vestidas de modo parecido e fazendo movimentos semelhantes (alguns observadores antigos referiam-se a essa característica como “numerosidade”). E há uma acentuada propensão a elaborar: muitas figuras alucinatórias parecem usar “trajes exóticos”, túnicas ricas e estranhos adornos de cabeça. Incongruências bizarras aparecem com frequência, por exemplo, uma flor que se projeta não do chapéu, mas do rosto de alguém. As figuras alucinatórias podem parecer caricaturas. Rostos, em especial, podem ter grotescas distorções dos dentes ou olhos. Algumas pessoas têm alucinações com texto ou música. No entanto, muito mais comuns são as geométricas: quadrados, padrões axadrezados, romboides, quadriláteros, hexágonos, tijolos, paredes, azulejos, treliças, colmeias, mosaicos. Os mais simples de todos, e talvez os mais comuns, são os fosfenos, globos ou nuvens brilhantes ou coloridas, que podem ou não diferenciar-se em algo mais complexo. Nenhum indivíduo isoladamente tem todos esses fenômenos perceptuais e alucinatórios, embora alguns possam ter um conjunto bem diversificado, como Zelda, enquanto outros tendem a sofrer apenas uma forma específica de alucinação, como Marjorie com seus “olhos musicais”.

Há uma ou duas décadas, Dominic ffytche e seus colegas em Londres dedicam-se a pesquisas pioneiras sobre a base neural das alucinações visuais. Servindo-se dos minuciosos relatos de dezenas de sujeitos, eles elaboraram uma taxonomia das alucinações que inclui categorias como figuras de chapéu, crianças ou pessoas em miniatura, paisagens, veículos, rostos grotescos, texto e rostos caricaturescos. (Essa taxonomia é descrita em um artigo de Santhouse et al. de 2000.)

Com essa classificação nas mãos, ffytche fez detalhados estudos de imageamento cerebral nos quais pediu a pacientes selecionados que tinham diferentes categorias de alucinações visuais que sinalizassem o começo e o fim de suas alucinações enquanto o aparelho fazia a varredura de seu cérebro.

Houve uma “notável correspondência”, escreveram ffytche et al. em um artigo de 1998, entre as experiências alucinatórias específicas de cada paciente e as porções específicas do trajeto visual ventral no córtex visual que foram ativadas. Alucinações com rostos, cores, texturas e objetos, por exemplo, ativaram cada qual áreas específicas que sabidamente participam de funções visuais específicas. Quando houve alucinações com cores, ocorreu a ativação de áreas no córtex visual associadas à construção das cores; quando houve alucinações faciais com qualidades caricaturescas ou esboçadas, ocorreu a ativação do giro fusiforme. Visões de rostos deformados, desmembrados ou grotescos com olhos ou dentes exagerados vieram associadas a intensificação de atividade no sulco temporal superior, uma área especializada na representação de olhos, dentes e outras partes do rosto. Alucinações com texto ocorreram associadas a ativação anormal na área de formação visual das palavras, uma área altamente especializada no hemisfério esquerdo.

Ffytche et al. observaram, além disso, uma clara distinção entre a imaginação visual normal e as verdadeiras alucinações — por exemplo, imaginar um objeto colorido não ativava a área V4, ao passo que uma alucinação colorida, sim. Essas descobertas confirmam que, não apenas subjetivamente, mas também fisiologicamente, as alucinações não são semelhantes à imaginação, e se parecem muito mais com percepções. Bonnet, escrevendo em 1760 sobre alucinações, disse: “A mente não seria capaz de fazer a distinção entre visão e realidade”. O trabalho de ffytche e seus colegas mostra que o cérebro também não distingue entre as duas.

Nunca antes houvera evidências diretas dessa correlação entre os conteúdos de uma alucinação e as áreas específicas de córtex ativadas. Sabemos há muito tempo, por observação de pessoas com lesões ou acidentes vasculares específicos, que diferentes aspectos da percepção visual (a percepção das cores, o reconhecimento de rostos, a percepção do movimento etc.) dependem de áreas do cérebro altamente especializadas. Por exemplo, uma lesão em uma minúscula área do córtex visual chamada V4 pode aniquilar a percepção das cores, mas nada além disso. O trabalho de ffytche é o primeiro a confirmar que as alucinações fazem uso das mesmas áreas e trajetos visuais que a própria percepção. (ffytche ressaltou mais recentemente, em artigos sobre a “hodologia” das alucinações, que atribuir alucinações, ou qualquer função cerebral, a regiões específicas do cérebro tem suas limitações, e que devemos dar a mesma atenção às conexões entre essas áreas.) (h)

Apesar de haver categorias neurologicamente determinadas de alucinação visual, pode haver também determinantes pessoais e culturais. Ninguém pode ter alucinações com notação musical, números ou letras, por exemplo, se nunca os viu na realidade em algum momento da vida. Portanto, experiência e memória podem influenciar tanto a imaginação como as alucinações — mas, na scb, as memórias não figuram de forma completa ou literal nas alucinações. Quando portadores de scb sofrem alucinações com pessoas ou lugares, quase nunca são pessoas ou lugares reconhecíveis; são apenas plausíveis ou inventados. As alucinações da scb dão a impressão de que, em algum nível inferior, nas partes iniciais do sistema visual, existe um dicionário categórico de imagens ou partes de imagens — por exemplo, de “narizes”, “arranjos de cabeça” ou “pássaros” genéricos, e não de narizes, arranjos de cabeça ou pássaros específicos. Esses são, digamos assim, os ingredientes visuais evocados e usados no reconhecimento e representação de cenas complexas — elementos ou unidades constitutivas que são puramente visuais, sem contexto ou correlação com outros sentidos, sem emoções ou associações específicas com lugares ou momentos. (Alguns pesquisadores chamam-nos de “proto-objetos” ou “protoimagens”.) Desse modo, as imagens da scb podem parecer mais brutas, mais obviamente neurológicas, e não pessoais como as da imaginação ou recordação.

As alucinações com texto ou partituras musicais são curiosas nesse aspecto, pois, embora inicialmente se pareçam com música ou texto reais, logo se revelam ilegíveis, destituídas de forma, tom, sintaxe ou gramática. Embora a princípio Arthur S. pensasse que talvez fosse capaz de tocar as partituras que apareciam em suas alucinações, logo se deu conta de que estava vendo um “pot-pourri de notação musical sem significado algum”. Analogamente, as alucinações com texto não têm significado; quando examinadas com mais atenção, podem nem sequer ser letras de verdade, e sim uns caracteres parecidos com runas.

Sabemos (pelos estudos de ffytche e colegas) que as alucinações textuais correlacionam-se com hiperatividade na área de formação visual das palavras; provavelmente ocorrem ativações análogas (apesar de mais disseminadas) nas alucinações com notação musical, embora essas ainda não tenham sido “captadas” em exames de ressonância magnética funcional (fmri, na sigla em inglês). No processo normal de leitura de textos ou partituras, o que é decifrado primeiro na parte inicial do sistema visual vai para níveis superiores e ali adquire estrutura e significado sintático. Mas nas alucinações com textos ou partituras, causadas por atividade anárquica na parte inicial do sistema visual, as letras, protoletras ou notações musicais aparecem sem as restrições normais de sintaxe e significado — o que nos dá um vislumbre dos poderes e limitações do sistema visual inicial.

Arthur S. via notação musical fantasticamente elaborada, muito mais rebuscada do que qualquer partitura real. As alucinações da scb são com frequência mais extravagantes ou fantásticas. Por que Rosalie, uma idosa cega do Bronx, veria figuras em “trajes orientais”? Essa forte inclinação para o exótico, por razões que ainda não compreendemos, é característica da scb, e seria fascinante saber se isso varia entre as diferentes culturas. Essas imagens estranhas, por vezes surreais, de caixas ou pássaros em cima da cabeça das pessoas, ou de flores saindo-lhes do queixo, levam-nos a pensar se não estaria ocorrendo alguma espécie de engano neurológico, uma ativação simultânea de diferentes áreas cerebrais, produzindo uma colisão ou fusão involuntária e incongruente.

As imagens da scb são mais estereotipadas que as dos sonhos, e ao mesmo tempo menos inteligíveis, dotadas de menos significados. Quando o caderno de Lullin, perdido por um século e meio, reapareceu e foi publicado em uma revista de psicologia em 1901 (apenas um ano após A interpretação dos sonhos de Freud), alguns cogitaram na possibilidade de as alucinações da scb criarem, como os sonhos segundo Freud, uma “estrada régia” para o inconsciente. Mas as tentativas de “interpretar” as alucinações da scb nesse sentido foram infrutíferas. As pessoas com scb tinham sua própria psicodinâmica, é claro, como todo mundo; mas evidenciou-se que pouco além do óbvio era ganho com a análise de suas alucinações. Uma pessoa religiosa podia ter alucinações com mãos postas em oração, entre outras coisas, ou um músico podia ter alucinação com notação musical, mas essas imagens raramente permitiam vislumbres de desejos, necessidades ou conflitos inconscientes da pessoa.

Os sonhos são fenômenos neurológicos além de psicológicos, porém diferem muito das alucinações da scb. O sonhador está totalmente envolvido em seu sonho, e em geral participa dele ativamente, ao passo que as pessoas com scb conservam a consciência crítica normal da vigília. As alucinações da scb, embora sejam projetadas no espaço externo, são marcadas pela ausência de interação; são sempre silenciosas e neutras, e raramente transmitem ou evocam qualquer emoção. Restringem-se ao visual; não têm sons, nem odores, nem sensações táteis. São remotas, como imagens na tela de um cinema em que se entrou por acaso. O cinema está na nossa mente, mas as alucinações não parecem ter relação com a pessoa em nenhum sentido profundamente pessoal.

Uma das características que definem as alucinações de Charles Bonnet é a preservação do discernimento, a percepção de que uma alucinação não é real. As pessoas com scb ocasionalmente são enganadas por uma alucinação, em especial se ela for plausível ou apropriada ao contexto. Mas logo percebem que se trata de um erro e recobram o discernimento. As alucinações da scb quase nunca levam a falsas ideias ou ilusões persistentes.

A capacidade de uma pessoa para avaliar suas próprias percepções ou alucinações, porém, pode ser comprometida se existirem outros problemas básicos no cérebro, em especial aqueles que danificam os lobos frontais, pois estes são a sede do julgamento e da autoavaliação. Isso pode ocorrer transitoriamente, por exemplo, com um derrame ou trauma craniano, na febre ou delírio, com várias medicações, toxinas ou desequilíbrios metabólicos, com desidratação ou privação de sono. Em tais casos, o discernimento retornará assim que o funcionamento cerebral retomar a normalidade. Mas na presença de demência progressiva, como na doença de Alzheimer ou na demência com corpos de Lewy, a capacidade de reconhecer que se está tendo uma alucinação pode diminuir gradativamente, e isso, por sua vez, pode levar a aterradores delírios ou psicoses.

Marlon S, quase octogenário, tem glaucoma progressivo e demência leve. Há vinte anos é incapaz de ler, e está praticamente cego há cinco anos. Ele é cristão devoto, e ainda trabalha como ministro leigo em prisões, uma atividade que exerce há trinta anos. Mora sozinho em um apartamento, mas tem uma vida social muito ativa. Sai todos os dias, com um de seus filhos ou com um cuidador, vai a reuniões de família ou ao centro de convivência de idosos, onde participa de jogos, danças, idas a restaurantes e outras atividades.

Apesar de cego, Marlon parece habitar um mundo acentuadamente visual e às vezes muito estranho. Ele me disse que “vê” com frequência os arredores — Marlon morou no Bronx a maior parte da vida, mas o que vê é uma versão feia e desoladora do Bronx (que ele descreve como “decrépito, velho, muito mais velho do que eu”), e isso pode provocar nele alguma desorientação. Ele “vê” seu apartamento, mas se perde ou se confunde com facilidade. Às vezes, diz, o apartamento “fica enorme como um terminal rodoviário”, e outras vezes se contrai, tornando-se “tão estreito quanto uma cabine de trem”. Em geral, o apartamento das alucinações parece-lhe dilapidado e caótico: “Minha casa inteira está em ruínas, parece o Terceiro Mundo… depois parece normal”. (A única vez em que seu apartamento fica realmente deplorável, sua filha me disse, é quando Marlon, pensando que está “sitiado” pela mobília, começa a rearranjá-la, empurrando os móveis de um lado para outro.)

Suas alucinações começaram há cerca de cinco anos, e de início eram benignas. “No começo”, ele me contou, “eu via uma porção de animais.” Seguiram-se alucinações com crianças — multidões delas, como antes houvera multidões de animais. “De repente”, Marlon recordou, “eu via uma criançada entrando e andando por toda parte; eu pensava que fossem crianças normais.” As crianças eram caladas, mas “falavam com as mãos”; pareciam não ter noção da presença dele e “faziam as coisas delas” — andavam, brincavam. Ele se espantou quando descobriu que ninguém mais as via. Só então percebeu que seus olhos “estavam pregando peças” nele.

Marlon gosta de ouvir programas de entrevista, gospel e jazz no rádio, e quando faz isso às vezes sua sala de visita se enche de pessoas alucinatórias que também estão ouvindo. Ocasionalmente movem a boca como se estivessem falando ou cantando junto com o rádio. Essas visões não são desagradáveis, e parecem dar-lhe uma espécie de conforto alucinatório. É uma cena social, que ele aprecia. (i)

Nos dois últimos anos, Marlon também começou a ver um homem misterioso que está sempre de casaco de couro marrom, calça verde e chapéu de aba larga. Marlon não tem ideia de quem ele seja, mas acha que o homem tem alguma mensagem ou significado especial, embora não saiba dizer o quê. Ele vê essa figura à distância, nunca de perto. O homem parece flutuar no ar em vez de andar, e sua figura pode tornar-se enorme, “alta como uma casa”. Marlon também viu um sinistro trio de homenzinhos, “como o fbi, bem longe. […] Eles parecem reais, muito feios e maus”. Marlon me disse que acredita em anjos e demônios, e acha que esses homens são perversos. Começou a desconfiar que está sendo vigiado por eles.

Muitas pessoas com deficiência cognitiva leve podem mostrar-se organizadas e orientadas durante o dia — é o caso de Marlon, em especial quando ele está no centro de convivência ou em missões da igreja, interagindo ativamente com outras pessoas. Mas, ao chegar a noite, pode ocorrer uma “síndrome do pôr do sol”, e o medo e a confusão começam a proliferar.

Em geral, durante o dia as figuras alucinatórias de Marlon o enganam brevemente, por um ou dois minutos, depois ele percebe que são irreais. Mas no fim do dia seu discernimento falha, e ele sente que seus ameaçadores visitantes são reais. À noite, quando encontra “intrusos” em seu apartamento, fica aterrorizado, apesar de eles parecerem não se interessar por ele. Muitos têm jeito de “criminosos” e usam roupas de prisioneiro; às vezes estão “fumando Pall Mall”. Numa noite, um desses intrusos portava uma faca manchada de sangue, e Marlon gritou “Saia daqui, em nome do sangue de Jesus!”. Noutra ocasião, uma das aparições saiu “por debaixo da porta”, esvaindo-se como líquido ou vapor. Marlon verificou que essas figuras são “como fantasmas, não sólidas”, e que seu braço passa através delas. Ainda assim, elas lhe parecem muito reais. Ele consegue rir disso quando fala, mas está claro que pode ficar aterrorizado e delirante quando se vê sozinho com seus intrusos no meio da noite.

Os que têm scb perderam, ao menos parcialmente, o mundo visual primário, o mundo da percepção. Mas ganharam, ainda que de um modo incipiente e intermitente, um mundo de alucinações, um mundo visual secundário. O papel que a scb pode ter na vida de um indivíduo varia enormemente, dependendo do tipo de alucinações que ele sofre, de sua frequência e de se elas são ou não apropriadas ao contexto, assustadoras, confortadoras ou até inspiradoras. Em um extremo, há os que podem ter uma única experiência alucinatória na vida; outros podem ter alucinações intermitentes durante anos. Algumas alucinações podem ser perturbadoras — ver padrões ou teias de aranha por cima de tudo, não saber se a comida no prato é real ou alucinatória. Algumas alucinações são manifestamente desagradáveis, em especial as que envolvem rostos deformados ou desmembrados. Algumas são perigosas: Zelda, por exemplo, não ousa dirigir veículos, pois de repente pode ver a rua bifurcar-se ou pessoas pulando no capô de seu carro.

O mais das vezes, porém, as alucinações da scb não são ameaçadoras e, depois que a pessoa se acostuma com elas, podem ser até divertidas. David Stewart diz que suas alucinações são “totalmente amigáveis”, e imagina seus olhos lhe dizendo “Desculpe termos deixado você na mão. Sabemos que a cegueira não tem graça nenhuma, por isso organizamos essa pequena síndrome, uma espécie de coda para a sua vida visual. Não é grande coisa, mas é o melhor que conseguimos fazer”.

Charles Lullin também gostava de suas alucinações, e às vezes ia para um cômodo tranquilo em busca de um breve descanso alucinatório. “A mente dele se alegra com as imagens”, escreveu Bonnet sobre seu avô. “Seu cérebro é um teatro no qual a maquinaria do palco faz apresentações que são mais admiráveis porque são inesperadas.”

Às vezes as alucinações da síndrome de Charles Bonnet podem inspirar. Virginia Hamilton Adair escrevia poesia quando jovem e as publicava nas revistas Atlantic Monthly e New Republic. Ela continuou a escrever poemas durante sua carreira como acadêmica e professora de inglês na Califórnia, mas a maioria desses não foi publicada. Só quando estava com 83 anos e totalmente cega por glaucoma ela publicou seu primeiro livro de poesia, o aclamado Ants on the melon. Seguiram-se outras duas coletâneas, e nesses novos poemas ela fez frequentes referências às alucinações de Charles Bonnet que agora a acometiam regularmente, as visões que, em suas palavras, lhe eram dadas pelo “anjo das alucinações”.

Adair e, mais tarde, seu editor enviaram-me excertos do diário que ela escreveu nos últimos cinco anos de vida. Eram repletos de descrições de suas alucinações, que ela ditava enquanto ocorriam, e incluíam a seguinte:

Sou manobrada para uma deliciosa poltrona macia. Afundo, submersa como de costume em sombras noturnas […] o mar de nuvens aos meus pés desaparece, revelando um campo de cereais, e em pé acima dele um pequeno bando de aves, nenhuma igual à outra, de plumagem sombria: um pavão minúsculo, muito esguio, com sua pequenina crista e penas da cauda desfraldadas, alguns espécimes mais rechonchudos, e uma ave praiana com longas pernas etc. Agora parece que várias estão calçando sapatos, e entre elas uma ave de quatro pés. Seria de esperar mais cor num bando de aves, mesmo nas alucinações de cegos. […] As aves se transformaram em homens e mulheres pequeninos, em trajes medievais, todos andando calmamente para longe de mim. Vejo apenas suas costas, túnicas curtas, malhas ou calças justas, xales ou lenços. […] Abrindo os olhos diante da cortina de fumaça do meu quarto recebo deliciada punhaladas de safira, bolsas de rubi espalhadas pela noite, um vaqueiro sem pernas de camisa xadrez colado ao lombo de um bezerrinho aos pinotes, a cabeça laranja aveludada de um urso decapitado, coitado, pelo guarda da lixeira do Hotel Yellowstone. O muito conhecido leiteiro invade a cena em seu carro azul-celeste com o cavalo dourado; ele se juntou a nós alguns dias atrás saído de algum livro de versos infantis esquecido ou do rótulo traseiro da caixa de cereais Depressão. […] Mas o espetáculo de lanterna mágica de singularidades coloridas desapareceu gradualmente, e estou de volta ao país das paredes negras sem forma ou substância […] onde aterrissei quando as luzes se apagaram.

 

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notas

  1. O livro de Draaisma traz não só um vívido relato da vida e obra de Bonnet, mas também fascinantes reconstituições da vida de outras doze grandes figuras da neurologia, lembradas hoje sobretudo pelas síndromes que levam seu nome: Georges Gilles de la Tourette, James Parkinson, Alois Alzheimer, Joseph Capgras e outros.
  2. Pelo menos assim parecia. Recentemente encontrei um maravilhoso relato de 1845 escrito por Truman Abell, médico que começou a perder a visão com 59 anos e ficou totalmente cego em 1842, quatro anos mais tarde. Ele descreveu esse processo em um artigo para o Boston Medical and Surgical Journal. “Nesta situação”, ele escreveu, “frequentemente eu sonhava que recuperava a visão e via as mais lindas paisagens. Com o tempo, essas paisagens começaram a aparecer em miniatura quando eu estava acordado: pequenos campos, de alguns pés quadrados, revestidos de grama verde, e outras plantas, algumas em flor. Isso prosseguiu por dois ou três minutos, depois desapareceu.” As paisagens são seguidas por uma imensa variedade de outras “ilusões” — Abell não usa a palavra “alucinações” — fornecidas por uma “visão interna”. Passaram-se vários meses, e suas visões ganharam complexidade. Seus “visitantes silenciosos, mas atrevidos”, às vezes eram inconvenientes, três ou quatro se sentavam em sua cama ou “se aproximavam da minha cabeceira, se curvavam sobre mim e olhavam diretamente nos meus olhos”. (Com frequência essas pessoas alucinatórias pareciam tomar conhecimento da presença dele, embora tipicamente as alucinações da scb não interajam com quem as sofre.) Uma noite, ele contou, “quase fui atropelado mais ou menos às dez horas por um rebanho de bois; porém, tive presença de espírito, sentei-me quieto, e, muito comprimidos, eles todos passaram sem me tocar”. Às vezes ele via fileiras de milhares de pessoas, esplendidamente vestidas, formando colunas que desapareciam ao longe. Em certo momento ele viu “uma coluna de no mínimo oitocentos metros de largura” de “homens a cavalo seguindo na direção oeste. […] Eles continuaram a passar durante várias horas”. “O que aqui afirmei”, escreveu Abell no fim de seu minucioso relato, “deve parecer inacreditável a quem não tem familiaridade com a história das visões ilusivas. […] Em que medida a minha cegueira contribuiu para produzir tal resultado, não sei dizer. Nunca antes eu fora capaz de apreender a antiga comparação da mente humana com um microcosmo, ou um universo em miniatura […] [contudo] o todo estava confinado dentro do órgão da visão mental, e ocupava, talvez, um espaço menor do que a décima parte de uma polegada quadrada.”
  3. Uma descrição particularmente boa de alucinações causadas por scb (“I see purple flowers everywhere”) encontra-se no excelente livro Macular degeneration, de Lylas e Marja Mogk, escrito para pacientes com essa condição.
  4. O inverso também pode ocorrer. Robert Teunisse contou-me que um de seus pacientes, ao ver um homem pairando do lado de fora do seu apartamento no décimo nono andar, supôs que se tratasse de mais uma das suas alucinações. Quando o homem acenou para ele, ele não respondeu ao aceno. Acontece que a “alucinação” era o lavador de janelas, que ficou amuado pelo descaso para com o seu aceno amigável.
  5. Comuniquei-me com no mínimo doze pessoas que, como Arthur e Marjorie, têm alucinações com notação musical. Algumas delas sofrem da visão, outras de parkinsonismo, algumas veem música quando têm febre ou delírio, outras têm alucinações hipnopômpicas quando estão acordadas. Com exceção de um desses indivíduos, os demais são todos músicos amadores que costumam passar muitas horas diárias estudando partituras. Esse tipo de estudo visual muito especializado e repetitivo é bem típico dos músicos. Uma pessoa pode ler livros durante horas todo dia, mas em geral não estuda os caracteres impressos desse modo tão intensivo (a menos que seja designer de tipos ou revisor de texto, talvez). Uma página de música é visualmente muito mais complexa do que uma página impressa. Na notação musical não temos apenas as notas em si, mas um conjunto muito denso de informações contidas em símbolos para armaduras de clave, claves, grupetos, mordentes, acentos, pausas, fermatas, trilos etc. Parece provável que o estudo e a prática intensivos desse código complexo imprimam-se de algum modo no cérebro e, caso mais tarde se desenvolva alguma tendência a alucinações, essas “impressões neurais” possam predispor às alucinações com notação musical. No entanto, pessoas sem treinamento musical específico, e até sem interesse por música, também podem ter alucinações com notação musical. Dominic ffytche, que estudou centenas de pessoas com scb, acha que “embora a exposição prolongada à música aumente a probabilidade de olhos musicais, ela não é um requisito prévio”.
  6. Lembrei-me, quando ela disse isso, de um caso que me contaram: conforme um paciente comia cerejas de uma tigela, elas iam sendo substituídas por cerejas alucinatórias, uma cornucópia aparentemente interminável de cerejas, até que, subitamente, a tigela ficava vazia. E, em outro caso, um homem com scb estava colhendo amoras-pretas; ele apanhou todas as que viu, e depois, contente, viu outras quatro que haviam passado despercebidas, só que essas quatro eram alucinações.
  7. Algo no movimento visual ou “fluxo óptico” parece ser especialmente provocativo nas alucinações visuais de pessoas com scb ou outros distúrbios. Conheci um psiquiatra idoso com degeneração macular que sofreu um único episódio de alucinações da scb: ele estava como passageiro em um carro e começou a ver, na orla do estacionamento, elaborados jardins setecentistas que lhe lembraram Versalhes. Ele adorou a experiência e a achou muito mais interessante do que a visão comum da rua.
    Ivy L., também com degeneração macular, escreveu: Como passageira em carros, eu começava a viagem de olhos fechados. Agora frequentemente “vejo” uma pequena cena móvel de viagem à minha frente quando estou de olhos cerrados. “Vejo” estradas abertas e céu, casas e jardins. Não “vejo” pessoas nem veículos. A cena muda constantemente, mostrando casas não identificáveis em grandes detalhes passando por mim quando o carro está em movimento. Tais alucinações só me aparecem quando estou num carro em movimento.
    (A sra. L. também relatou alucinações textuais como parte de sua scb: “breves períodos em que eu ‘via’ letras manuscritas enormes em uma grande parede branca, ou os números do imposto de renda impressos na cortina. Essas duraram vários anos, em intervalos”.)
  8. Essas correlações envolvem regiões cerebrais de bom tamanho, do nível macro. Correlações no nível micro, ou ao menos no caso das alucinações geométricas elementares, foram propostas por William Burke, um neurofisiologista que sofreu esse tipo de alucinação devido a “buracos” maculares nos dois olhos. Ele conseguiu estimar os ângulos visuais subtendidos por alucinações específicas e extrapolá-los para distâncias corticais. Concluiu que a separação de suas alucinações com tijolos corresponde à separação das “tiras” na parte V2 do córtex visual, enquanto a separação dos pontinhos de suas alucinações corresponde aos “glóbulos” no córtex visual primário. Burke supõe que, com a diminuição da entrada de sinais de suas máculas danificadas, existe diminuição de atividade no córtex macular, o que libera espontaneamente a atividade nas tiras e glóbulos corticais que ensejam as alucinações.
  9. Ouvi descrições semelhantes de outras pessoas com scb e demência. Janet B. gosta de ouvir audiolivros, e às vezes se vê junto com um grupo alucinatório de outros ouvintes. Eles escutam atentamente, mas nunca falam, não respondem às perguntas que ela faz e parecem não se dar conta de sua presença. De início, Janet percebia que eram alucinatórios, mas, conforme sua demência progrediu, ela passou a garantir que eram reais. Numa ocasião, sua filha, que viera visitá-la, disse: “Mãe, não há ninguém aqui”; Janet se zangou e expulsou a filha. Um incremento delirante mais complexo ocorreu quando ela estava ouvindo seu programa favorito na televisão. Janet teve a impressão de que a equipe da televisão decidiu usar seu apartamento, que foi munido de cabos e câmeras, e que o programa estava sendo filmado naquele momento na presença dela. Sua filha telefonou durante o programa, e Janet sussurrou: “Preciso fazer silêncio, eles estão filmando”. Quando a filha chegou, uma hora depois, Janet garantiu que ainda havia cabos pelo chão, e acrescentou “Você não viu aquela mulher?”. Embora Janet estivesse convicta da realidade dessas alucinações, elas eram inteiramente visuais. As pessoas apontavam, gesticulavam, moviam a boca, mas não emitiam som. Janet não tinha nenhuma sensação de envolvimento pessoal; via-se no meio de acontecimentos estranhos, mas eles não pareciam ter nenhuma relação com ela. Desse modo, conservavam as características típicas das alucinações da scb, embora Janet insistisse em que eram reais.

 

BISSECTADO: ALUCINAÇÕES EM METADE DO CAMPO VISUAL

Não vemos com os olhos; vemos com o cérebro, que possui dezenas de sistemas para analisar as informações que entram pelos olhos. No córtex visual primário, localizado nos lobos occipitais, na parte posterior do cérebro, existem mapeamentos ponto a ponto da retina no córtex, e é ali que a luz, a forma, a orientação e a localização são representadas no campo visual. Impulsos provenientes dos olhos percorrem uma rota tortuosa até o córtex cerebral; alguns viajam até o lado oposto do cérebro durante o percurso, de modo que a metade esquerda do campo visual de cada olho vai até o córtex occipital direito, e vice-versa. Assim, se um lobo occipital sofrer lesão (por um derrame, por exemplo), haverá cegueira ou deficiência visual na metade oposta do campo visual: hemianopsia.

Além da deficiência ou perda da visão em um lado, pode haver também sintomas positivos: alucinações na área cega ou de visão limitada. Cerca de 10% dos pacientes com hemianopsia súbita têm esse tipo de alucinação e reconhecem de imediato que estão tendo uma alucinação.

Em contraste com as alucinações relativamente breves e estereotipadas da enxaqueca ou epilepsia, as alucinações da hemianopsia podem continuar por dias ou semanas ininterruptos; e, longe de terem um formato fixo ou uniforme, elas tendem a mudar sempre. Podemos imaginar nesse caso não um pequeno nó de células irritáveis sofrendo descargas paroxísmicas, como em um ataque de enxaqueca ou epilepsia, e sim uma grande área do cérebro — campos inteiros de neurônios — em um estado de hiperatividade crônica, fora de controle e se comportando irregularmente devido a um afrouxamento de forças que em condições normais os controlariam ou organizariam. Aqui o mecanismo se assemelha ao da síndrome de Charles Bonnet.

Essas ideias estão implícitas na visão de Hughlings Jackson, para quem o sistema nervoso possui níveis hierarquicamente organizados (os níveis superiores controlam os inferiores, e estes começam a se comportar independentemente, ou até anarquicamente, quando liberados do controle por alguma lesão nos níveis superiores). Quem, no entanto, explicitou a ideia de alucinações por “liberação” foi L. Jolyon West em seu livro Hallucinations, de 1962. Uma década depois, David G. Cogan, um oftalmologista, publicou um influente artigo que incluía histórias breves e vívidas de quinze pacientes. Alguns deles tinham lesão nos olhos, outros nos nervos ou tratos ópticos, ou no lobo occipital, no lobo temporal ou ainda no tálamo ou no mesencéfalo. Aparentemente, lesões em qualquer desses locais podiam interromper a rede normal de controles e levar à liberação de alucinações visuais complexas.

A jovem Ellen O. veio consultar-se comigo em 2006, mais ou menos um ano depois de ter sido submetida a uma cirurgia por malformação vascular no lobo occipital direito. O procedimento foi relativamente simples, consistiu em selar os vasos inchados da malformação. Os médicos alertaram-na de que ela teria alguns problemas visuais depois do procedimento: um embaçamento da visão do lado esquerdo, além de agnosia e alexia — dificuldade para reconhecer pessoas e palavras impressas (palavras em inglês pareciam “holandês”, ela disse). Essas dificuldades impediram-na de dirigir por seis semanas e a atrapalharam para ler e ver televisão, mas foram transitórias. Ela também teve convulsões visuais nas primeiras semanas após a cirurgia, na forma de alucinações visuais simples, clarões e lampejos coloridos à esquerda que duravam alguns segundos. No começo as convulsões ocorreram várias vezes por dia, mas haviam praticamente cessado na época em que ela voltou ao trabalho. Ela não se preocupou muito com essas ocorrências, já que os médicos tinham avisado sobre os possíveis efeitos pós-operatórios.

O que eles não avisaram foi que ela poderia passar a sofrer alucinações complexas futuramente. A primeira delas, cerca de seis semanas após a cirurgia, foi de uma flor imensa que ocupava mais que a metade esquerda de sua visão. Ellen pensou que essa imagem fora estimulada por uma flor real que ela vira à luz forte e ofuscante do sol. A flor pareceu-lhe ficar gravada em brasa no cérebro, e sua imagem persistiu na metade esquerda de seu campo visual, “como uma pós-imagem” — mas uma pós-imagem que, em vez de durar apenas alguns segundos, permaneceu por toda uma semana. No fim de semana seguinte, depois de uma visita de seu irmão, ela viu o rosto dele — ou melhor, parte de seu perfil, apenas um olho e uma das faces — por vários dias. (a)

Depois ela passou das anormalidades de percepção — ver coisas que realmente estavam ali, mas com perseveração ou distorção — a alucinações, ou seja, a ver coisas que não estavam ali. Visões de rostos de pessoas (incluindo às vezes o dela própria) tornaram-se um tipo frequente de alucinação. Mas os rostos que Ellen via eram “anormais, grotescos, exagerados”, frequentemente apenas um perfil com dentes ou talvez um olho muito magnificados, fora de escala com o resto dos traços. Em outros momentos ela via figuras com rostos, expressões ou posturas “simplificados”, “como esboços ou caricaturas”. Algum tempo depois, Ellen começou a ter alucinações com o sapo Kermit, de Vila Sésamo, muitas vezes por dia. “Por que o Kermit?”, ela se perguntava. “Ele não significa nada para mim.”

As alucinações de Ellen eram na maioria planas e imóveis, como fotografias ou caricaturas, embora de vez em quando uma expressão mudasse. O sapo Kermit ora parecia triste, ora feliz, às vezes zangado, mas ela não conseguia relacionar essas expressões com seus próprios estados de humor. Silenciosas, paradas, sempre mutáveis, essas alucinações eram quase contínuas nas horas em que ela estava acordada (“Aconteciam sem parar”, ela disse). Não obstruíam sua visão, mas sobrepunham-se como transparências na metade esquerda de seu campo visual. “Ultimamente elas vêm ficando menores”, ela me disse. “O sapo Kermit é minúsculo. Antes ele ocupava a maior parte da metade esquerda, mas agora se reduziu a uma pequena fração dela.” Ellen perguntou se teria aquelas alucinações pelo resto da vida. Respondi que achava que o fato de terem diminuído era um ótimo sinal; talvez um dia Kermit ficasse tão pequeno que nem fosse visto.

Ellen perguntou o que estava acontecendo em seu cérebro. Por que, principalmente, ela estava tendo aquelas alucinações esquisitas e às vezes assustadoras com rostos grotescos? De que profundezas eles vinham? Sem dúvida, não era normal imaginar coisas assim. Será que ela estava ficando psicótica, enlouquecendo?

Expliquei que a deficiência na visão em um dos lados depois de sua cirurgia provavelmente acarretara uma intensificação da atividade em partes do cérebro mais acima no trajeto visual, nos lobos temporais, onde figuras e rostos são reconhecidos, e talvez também nos lobos parietais; e que essa atividade intensificada, e às vezes descontrolada, estava causando suas alucinações complexas e também a palinopsia, a extraordinária persistência de visão que ela estava tendo. As alucinações específicas que tanto a horrorizavam, de rostos deformados e desmembrados ou rostos com olhos ou dentes monstruosamente exagerados, eram, na verdade, típicas de uma atividade anormal na área dos lobos temporais chamada sulco temporal superior. Eram rostos neurológicos, não psicóticos.

Ellen escreveu-me periodicamente atualizando informações, e seis anos depois da consulta inicial ela comentou: “Eu não diria que estou totalmente recuperada dos meus problemas visuais; diria, isso sim, que estou vivendo mais harmoniosamente com eles. Minhas alucinações são muito menores, mas continuam. Vejo principalmente o orbe colorido o tempo todo, mas ele já não me incomoda tanto”.

Ellen continua a ter certa dificuldade para ler, especialmente quando está cansada. Recentemente, ao ler um livro, ela contou, eu perdia uma ou duas palavras no meu ponto colorido (depois da cirurgia fiquei com um ponto preto/cego, mas ele se transformou num ponto colorido algumas semanas depois, e eu ainda o tenho. Minhas alucinações acontecem ao redor desse ponto). […] Agora que estou digitando, depois de um dia de trabalho bem longo, há um tênue Mickey Mouse preto e branco dos anos 30 bem perto do centro, do lado esquerdo. Ele é transparente, por isso posso enxergar a tela do computador enquanto digito. No entanto, cometo muitos erros de digitação, pois nem sempre consigo ver a tecla de que preciso.

O ponto cego de Ellen não a impediu de fazer cursos de pós-graduação, nem de correr a maratona, como ela contou com seu característico bom humor:

Corri a Maratona de Nova York em novembro e tropecei em uma argola de metal, um refugo, na ponte Verrazano, pouco antes da segunda milha. Estava do meu lado esquerdo, eu nem a vi, pois olhava para a direita. Levantei-me e terminei a corrida, mesmo tendo fraturado um ossinho da mão — e acho que isso me renderá uma bela história de machucado em corrida. Na sala de espera da ortopedia, todos os que haviam terminado a maratona tinham lesão no joelho ou no tendão do jarrete.

Enquanto as alucinações complexas de Ellen começaram várias semanas depois de sua operação, alucinações “de liberação” semelhantes podem aparecer quase imediatamente com um dano súbito no córtex occipital. Foi o que aconteceu com Marlene H., uma senhora na casa dos cinquenta que me procurou em 1989. Ela contou que acordou numa sexta-feira em dezembro de 1988 com dor de cabeça e sintomas visuais. Sofria de enxaqueca fazia anos, e de início pensou que fosse apenas mais uma enxaqueca visual. Mas desta vez os sintomas visuais eram diferentes: “luzes piscando por toda parte […] luzes bruxuleantes […] arcos lampejantes […] coisa de Frankenstein”. E isso não desapareceu após alguns minutos, como seus costumeiros zigue-zagues de enxaqueca; continuou por todo o fim de semana. Na noite de domingo, as perturbações visuais ganharam complexidade. Na parte superior direita do campo visual ela viu uma forma que se contorcia, “como uma lagarta da borboleta-monarca, preta e amarela, de pelos brilhantes”, juntamente com “luzes amarelas incandescentes, como um show da Broadway, subindo e descendo, acendendo e apagando, sem parar”. Embora o médico lhe assegurasse que se tratava apenas de “uma enxaqueca atípica”, as coisas foram de mal a pior. Na quarta-feira, “a banheira parecia fervilhar de formigas […] teias de aranha cobriam as paredes e o teto […] as pessoas pareciam ter treliças no rosto”. Dois dias depois ela começou a sofrer distúrbios perceptuais gritantes: “As pernas do meu marido pareciam curtíssimas, distorcidas, como em um espelho de parque de diversões. Era cômico”. Mas foi menos cômico, e muito assustador, no supermercado na tarde seguinte: “Todos pareciam feios, partes do rosto desapareciam, e os olhos pareciam ter um negrume — todo mundo era grotesco”. Carros pareciam surgir subitamente à direita. Marlene testou seus campos visuais agitando os dedos de um lado e do outro, e constatou que não podia vê-los do lado direito antes que eles cruzassem a linha média; ela perdera totalmente a visão do lado direito.

Só a essa altura, dias depois de seus sintomas iniciais, ela finalmente foi submetida a uma avaliação médica. Uma tomografia computadorizada de seu cérebro revelou uma grande hemorragia no lobo occipital esquerdo. Terapeuticamente havia pouco a fazer nesse estágio; só se podia torcer para que houvesse alguma resolução dos sintomas, alguma cura ou adaptação com o passar do tempo.

Depois de algumas semanas, as alucinações e distorções perceptuais, que em grande medida se haviam confinado ao lado direito, começaram a reduzir-se, mas Marlene ficou com diversos déficits visuais. Podia enxergar, ao menos de um lado, mas o que via a deixava desnorteada: “Eu preferiria ser cega”, ela me disse, “a não ser capaz de entender o que via. […] Eu tinha de montar as coisas devagar, deliberadamente. Via o meu sofá, uma poltrona — mas não conseguia juntar as coisas. De início, aquilo não compunha uma ‘cena’. […] Antes eu lia muito rápido. Agora, só muito devagar. As letras pareciam diferentes”.

“Quando ela olha o relógio”, acrescentou seu marido, “de início não consegue entendê-lo.”

Além desses fenômenos de agnosia visual e alexia visual, Marlene estava tendo imagens mentais visuais descontroladas. Numa ocasião, ela viu uma mulher de vestido vermelho na rua. E então, ela disse, “fechei os olhos. A mulher, quase como uma marionete, se movia, assumira vida própria. […] Percebi que eu fora ‘tomada’ pela imagem”.

Mantive contato com Marlene a intervalos, e a vi mais recentemente em 2008, vinte anos depois de seu derrame. Ela não tinha mais alucinações, distorções perceptuais ou imagens mentais visuais descontroladas. Continuava hemianópica, mas a visão que lhe restava ainda lhe permitia viajar independentemente e trabalhar (o que envolvia ler e escrever, mesmo no seu ritmo lento).

Marlene sofreu prolongadas mudanças perceptuais e alucinações depois de uma grande hemorragia no lobo occipital, mas até mesmo um “pequeno” acidente vascular no lobo occipital pode evocar alucinações visuais notáveis, embora transitórias. Foi o que ocorreu com uma idosa vivaz e muito religiosa, cujas alucinações apareceram, “evoluíram” e desapareceram no decorrer de poucos dias em julho de 2008. Recebi um telefonema de uma enfermeira de um lar para idosos onde atendo pacientes. Havíamos trabalhado juntos por muitos anos, e ela sabia que eu me interessava especialmente por problemas visuais. Ela perguntou se podia levar sua tia-avó Dot para uma consulta comigo, e as duas contaram-me a história. Tia Dot me disse que sua visão pareceu “embaçada” em 21 de julho, e no dia seguinte, disse ela, “era como olhar por um caleidoscópio […] uma multidão de cores girando”, com súbitas “faixas de luz” à esquerda. Ela procurou o médico, e este, constatando que ela tinha hemianopsia à esquerda, mandou-a para o pronto-socorro. Ali se descobriu que ela tinha fibrilação atrial, e uma tomografia computadorizada e um exame de ressonância magnética mostraram uma pequena área com lesão no lobo occipital direito, provavelmente resultante de um coágulo sanguíneo desalojado pela fibrilação.

No dia seguinte, Tia Dot viu “octógonos com centros vermelhos […] passando diante de mim como uma fita de cinema, e os octógonos móveis transformaram-se em flocos de neve octogonais”. Em 24 de julho, viu “uma bandeira americana, desfraldada, como se voasse”.

Em 26 de julho ela viu “pontinhos vermelhos, como bolinhas, flutuando à esquerda, e eles se transformaram em folhas prateadas alongadas”. Quando sua sobrinha comentou que o outono estava chegando cedo no Canadá e as folhas já estavam mudando de cor, imediatamente as folhas prateadas da alucinação tornaram-se marrom-avermelhadas. Essas imagens introduziram um dia repleto de alucinações visuais complexas que incluíam “narcisos em buquês” e “campos de vara-de-ouro”. Foram seguidas por uma imagem muito particular, que se multiplicou. Quando a sobrinha visitou-a no dia seguinte, Tia Dot disse: “Estou vendo meninos marinheiros […] um em seguida do outro, como uma fita de filme”. Eram coloridos, mas planos, imóveis e pequenos, “como adesivos”. Ela não reconheceu a origem dessas imagens antes que a sobrinha lembrasse que costumava usar um adesivo de menino marinheiro nas cartas que mandava à tia — portanto, nesse caso o menino marinheiro não era uma invenção completa, e sim uma reprodução, agora multiplicada, dos adesivos que Tia Dot já vira.

Os meninos marinheiros foram substituídos por “campos de cogumelo” e depois por uma estrela de davi. Um neurologista no hospital estava usando uma estrela dessas bem visível quando foi examiná-la, e ela continuou a “ver” a estrela por horas, embora não multiplicada como os meninos marinheiros. A estrela de davi foi suplantada por “luzes de sinal de trânsito, vermelhas e verdes, acendendo e apagando”, e depois por inúmeros sinos de Natal dourados. Os sinos de Natal foram substituídos por uma alucinação de mãos postas em oração. Em seguida, ela viu “gaivotas, areia, ondas, uma cena de praia”, na qual as gaivotas batiam as asas. (Até essa altura, aparentemente, não houvera movimento dentro de uma imagem; ela vira apenas imagens estáticas passando à sua frente.) As gaivotas voando foram substituídas por “um corredor grego de toga […] parecia um atleta olímpico”. As pernas dele moviam-se, como as asas da gaivota também se haviam movido. No dia seguinte, ela viu cabides empilhados e compactados — essa foi a última de suas alucinações complexas. No dia seguinte a esse, ela viu apenas faixas luminosas à esquerda, como havia visto seis dias antes. E esse foi o fim do que ela chamou de sua “odisseia visual”.

Tia Dot não era enfermeira como sua sobrinha-neta, mas trabalhara muitos anos como voluntária no lar de idosos. Ela sabia que tivera um pequeno acidente vascular em um lado da parte visual do cérebro. Percebeu que as alucinações eram causadas por isso, e que provavelmente seriam transitórias; não receou estar perdendo o juízo. Nem por um momento ela pensou que suas alucinações fossem “reais”, embora observasse que eram muito diferentes de suas imagens mentais visuais normais — eram muito mais detalhadas, de cores muito mais vivas e, em sua maioria, independentes do que ela pensava ou sentia. Ela estava curiosa e fascinada, por isso fez anotações meticulosas sobre as alucinações à medida que iam ocorrendo, e tentou desenhá-las. Tanto ela como a sobrinha se perguntaram por que determinadas imagens apareciam em suas alucinações, em que grau elas refletiam as experiências de vida de Tia Dot e poderiam ter sido impelidas pelo ambiente imediato.

Ela se surpreendeu com a sequência de suas alucinações — com o fato de passarem das mais simples e informes às mais complexas e depois voltarem às mais simples antes de desaparecer. “É como se subissem pelo cérebro, depois tornassem a descer”, comentou. Achou curioso que as coisas que vira mudassem para formas semelhantes: octógonos transformados em flocos de neve, bolhas em folhas e talvez gaivotas em atletas olímpicos. Observou que, em duas ocasiões, teve alucinação com algo que vira brevemente antes: a estrela de davi do neurologista e os adesivos dos meninos marinheiros. Notou uma tendência à “multiplicação” — ramalhetes de narcisos, campos de flores, octógonos em profusão, flocos de neve, folhas, gaivotas, inúmeros sinos de Natal e múltiplas cópias dos adesivos de meninos marinheiros. Ela se perguntou se o fato de ser uma católica devota que rezava várias vezes por dia tivera algum papel em sua alucinação das mãos postas em oração. Assombrou-se com o modo como as folhas prateadas que ela estava vendo tornaram-se marrom-avermelhadas instantaneamente quando sua sobrinha comentou “as folhas estão mudando”. Achava que o corredor olímpico poderia ter sido provocado pelo fato de os Jogos Olímpicos de 2008 estarem se aproximando e a televisão mostrar constantemente as transmissões de Atenas. Fiquei impressionado e comovido com o fato de essa idosa, curiosa e inteligente, mas não intelectual, ter observado as próprias alucinações com tanta calma e reflexão e, sem ter sido orientada, feito praticamente todas as perguntas que um neurologista poderia fazer a respeito delas.

Quando alguém perde metade do campo visual em decorrência de um derrame ou outra lesão, pode ter consciência dessa perda ou não. Monroe Cole, um neurologista, inteirou-se de sua própria perda de campo visual fazendo um autoexame neurológico depois de ter sido submetido a uma cirurgia de by-pass coronariano. Ficou tão surpreso por não ter percebido sua deficiência que publicou um artigo sobre o assunto. “Até pacientes de grande inteligência”, ele escreveu, “também se surpreendem quando uma hemianopsia lhes é demonstrada, apesar de ela ter sido demonstrada em numerosos exames.”

No dia seguinte à cirurgia, Cole começou a ter alucinações na metade cega de seu campo visual, com pessoas (a maioria das quais ele reconhecia), cães e cavalos. Essas aparições não o assustaram; elas “se moviam, dançavam e rodopiavam, mas seu propósito era ignorado”. Ele teve frequentes alucinações com “um pônei que deitava a cabeça no meu braço direito”; reconheceu-o como o pônei de sua neta, mas, como ocorreu com muitas de suas alucinações, “não era da cor certa”. Ele sempre percebia que essas visões eram irreais.

Em um artigo de 1976, o neurologista James Lance fez minuciosas descrições de treze pacientes hemianópicos, e ressaltou que suas alucinações sempre eram reconhecidas como tais, no mínimo por serem absurdas ou irrelevantes: girafas e hipopótamos sentados de um lado do travesseiro, visões de astronautas ou soldados romanos de um lado etc. Outros médicos fizeram relatos semelhantes; nenhum dos pacientes confunde essas alucinações com a realidade.

Fiquei, por isso, surpreso e intrigado quando recebi uma carta de um médico da Inglaterra falando sobre seu pai, Gordon H., de 86 anos, que de longa data sofria de glaucoma e degeneração macular. Ele nunca tivera alucinações, mas recentemente sofrera um pequeno derrame que afetara seu lobo occipital direito. Ele era “bastante lúcido, e praticamente não apresentava diminuição intelectual”, seu filho escreveu, mas não recuperou a visão e ainda tem hemianopsia à esquerda. Entretanto, ele não tem muita noção de sua perda visual, e seu cérebro parece preencher as partes faltantes. É interessante, porém, que suas alucinações/preenchimentos visuais sempre parecem ser sensíveis ao contexto ou coerentes. Em outras palavras, se ele estiver acordado em um ambiente rural, pode perceber arbustos e árvores ou construções distantes no campo visual esquerdo, mas, quando recorre ao lado direto, ele constata que aquelas coisas não estão realmente lá. No entanto, as alucinações parecem fundir-se sem emendas com sua visão normal. Se estiver na bancada da cozinha, ele “vê” a bancada inteira, até no detalhe de perceber uma determinada tigela ou prato no lado esquerdo de sua visão — no entanto, desaparecem quando ele se vira, pois não estavam realmente lá. Mas ele sem dúvida vê a bancada inteira, sem nenhuma separação clara entre as partes componentes da alucinação e as da percepção real.

Poderíamos pensar que, por ser normal e detalhada, a percepção visual do lado direito mostraria imediatamente a Gordon H. a relativa pobreza do constructo mental, a alucinação à sua esquerda. Entretanto, diz seu filho, ele não sabe diferenciar entre as duas; não existe a noção de uma fronteira, e as duas metades parecem contínuas. O caso de Gordon H. é único, pelo que eu saiba. (b) Ele não tem nada parecido com as alucinações esquisitas, obviamente fora do contexto, comumente relatadas na hemianopsia. Suas alucinações misturam-se perfeitamente ao seu ambiente e parecem “completar” a percepção que lhe falta.

Em 1899, Gabriel Anton descreveu uma síndrome singular na qual pacientes totalmente cegos em razão de um dano cortical (a maioria em decorrência de acidente vascular que afetou os lobos occipitais de ambos os lados) pareciam não se aperceber de sua cegueira. Esses pacientes podiam ser mentalmente sãos e intactos em todos os outros aspectos, mas garantiam que sua visão estava perfeita. Eles até se comportavam como se enxergassem, andando sem medo em lugares desconhecidos. Se, ao fazer isso, colidissem com um móvel, diziam que ele fora movido, que a sala estava mal iluminada e coisas do gênero. Um paciente com a síndrome de Anton descreve um estranho na sala, se lhe pedirem, com fluência e confiança, embora sem acertar coisa alguma. Nenhum argumento, nenhuma evidência, nenhum apelo à razão ou ao bom senso os convence do contrário.

Não se sabe por que a síndrome de Anton produz essas crenças errôneas mas inabaláveis. Encontramos convicções irrefutáveis análogas em pacientes que perdem a percepção de seu lado esquerdo e do lado esquerdo no espaço, mas afirmam que não está faltando nada, muito embora possamos demonstrar-lhes convincentemente que eles vivem em um hemiuniverso. Essas síndromes — conhecidas como anosognosias — ocorrem apenas quando há dano na metade direita do cérebro, a metade que parece especialmente ligada ao senso da identidade corporal.

Uma característica ainda mais estranha dessa síndrome foi descrita em 1984 num artigo de Barbara E. Swartz e John C. M. Brust. O paciente deles era um homem inteligente que perdera a visão de ambos os olhos por lesões retinianas. Normalmente ele reconhecia que era cego e se comportava como tal. No entanto, ele era alcoólatra, e em duas ocasiões, tendo bebido muito, acreditou que sua visão retornara. Swartz e Brust escreveram:

Durante esses episódios, ele acreditou que enxergava; por exemplo, andou para todo lado sem pedir ajuda, viu televisão e disse que podia falar sobre o programa com os amigos […] [Ele] não era capaz de ver a linha 20/800 em uma tabela de acuidade visual, nem de detectar uma luz brilhante ou movimentos de mão diante de seu olho esquerdo. Ainda assim, garantiu que podia ver, e em resposta a perguntas ele apresentou confabulações plausíveis — por exemplo, descreveu a sala de exame e a aparência de dois médicos com quem ele estava falando. Em muitos detalhes suas descrições estavam erradas, mas ele não reconheceu os erros. No entanto, admitiu que também via coisas que não estavam realmente ali. Por exemplo, disse que a sala de exame estava cheia de crianças, todas usando roupas parecidas, algumas entrando e saindo da sala através das paredes. Ele também descreveu um cão num canto roendo um osso, depois comentou que as paredes e o chão da sala eram de cor laranja. As crianças, o cão e as cores das paredes ele reconheceu como alucinações, mas insistiu em que suas outras experiências visuais eram reais.

Voltando a Gordon H., meu palpite é que o dano em seu lobo occipital direito produziu uma síndrome de Anton unilateral (embora eu não saiba se uma síndrome assim já foi descrita). Suas alucinações (em contraste com as dos pacientes de Lance) são baseadas e moldadas no que ele percebe com a parte intacta de seu campo visual e se fundem perfeitamente com sua percepção intacta à direita.

O sr. H. só precisa virar a cabeça para descobrir que está enganado, mas isso não abala sua convicção de que ele pode enxergar igualmente dos dois lados. Se insistirem, ele pode aceitar o termo “alucinação”, mas, se o fizer ele deve sentir que, em seu caso, a alucinação é verídica, que ele está tendo alucinação com a realidade.


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notas

  1. Antes de conhecer Ellen O. eu nunca tinha ouvido falar em perseveração visual com essa duração. A perseveração visual de alguns minutos pode estar associada a tumores cerebrais dos lobos parietais ou temporais, ou ocorrer na epilepsia do lobo temporal. A literatura médica contém alguns relatos desse tipo, entre eles o de Michael Swash, que descreveu dois pacientes com epilepsia do lobo temporal. Um deles tinha crises nas quais “sua visão parecia tornar-se fixa, de modo que uma imagem ficava retida por vários minutos. Durante esses episódios, o mundo real era visto através da imagem retida, que de início era nítida, mas depois desvanecia gradualmente”. Perseveração semelhante pode ocorrer com dano ou cirurgia em um olho. Meu correspondente H. S. ficou cego aos quinze anos devido a uma explosão química, mas conseguiu recuperar parte da visão com uma cirurgia na córnea vinte anos depois. Em seguida à operação, quando seu cirurgião perguntou se ele agora conseguia ver sua mão, H. S. respondeu “Sim” — mas logo se espantou ao ver que a mão, ou sua imagem, mantinha a forma e a posição exatas por vários minutos.
  2. Recebi uma carta de James Lance na qual ele comenta: “Nunca encontrei alucinação que abranja informações do ambiente próximo como as do sr. H.”.

 

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Oliver Sacks nasceu em 1933, em Londres, onde se formou em medicina no Queen's College. Em 1960 emigrou para os Estados Unidos e prosseguiu os estudos médicos. Com a publicação de Enxaqueca, em 1970, iniciou uma brilhante carreira de escritor, com uma série de livros que logo se tornaram best-sellers, tais como Tempo de despertar, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Um antropólogo em Marte, A ilha dos daltônicos, Com uma perna só, Vendo vozes, Tio Tungstênio e Alucinações musicais, todos editados no Brasil pela Companhia das Letras.
 

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ф MULTIDÕES SILENCIOSAS: A SÍNDROME DE CHARLES BONNET &
ф BISSECTADO: ALUCINAÇÕES EM METADE DO CAMPO VISUAL
são respectivamente o cap. 1 e o cap. 9 da obra

'A Mente Assombrada'
Oliver Sacks
título original: Hallucinations, 2012
tradução: Laura Teixeira Moita
Companhia das Letras
 



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10.Fev.2018
publicado por MJA