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SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL


A Vida no Céu

José Eduardo Agualusa

- excerto -

Study-of-the-Head-of-a-Blind-Man - Gustav Klimt
imagem: Estudo da Cabeça de um Homem Cego - Gustav Klimt (1896)


Navegar às escuras, isto é,sem recurso à Internet, implica grandes riscos, em especial de noite, durante um temporal ou em condições de nevoeiro denso. O maior risco é o da colisão com outros aeróstatos. Numa manhã de sábado, afundámo-nos numa bruma tão espessa que foi como se tivéssemos caído num boião de iogurte. Uma voz que parecia vir de toda a parte à nossa volta quebrou, de súbito, o largo silêncio:

— Quem são vocês?!

Corri para o convés, assustado, tentando ver alguma coisa para além da infinda brancura. Nada. A voz voltou a gritar:

— Identifiquem-se!

A Nova Esperança seguia alguns metros atrás de nós, presa por um cabo.

Também não a conseguia ver. Apenas via o cabo desaparecendo na bruma.

Aimée veio ter comigo:

— Serão piratas?

— Não vejo nada. Quem quer que seja, está onde?

— Sim, e como nos descobriu?

A voz voltou a fazer-se ouvir:

— Por favor, identifiquem-se!

Mang gritou:

— Identifique-se você primeiro!

Fez-se um breve silêncio, logo seguido por uma gargalhada feliz:

— Certo, amigo. Chamo-me Patrick Maciel e sou o capitão da balsa francesa Montparnasse. Quem são vocês?

Levantei o megafone:

— Carlos Tucano, capitão da balsa angolana Maianga. O senhor é o Patrick Maciel, autor de 'Voando na Noite'?

— Leu o meu livro?

— Li esse e todos os outros. Trago-os sempre comigo. Podia autografá-los?

Minutos mais tarde tinha Patrick Maciel na minha biblioteca, sentado, a beber chá. Era um homem já idoso, de cabelo branco, cortado rente, e rosto seco e anguloso. Trazia uns óculos escuros, de aros redondos, que pareciam solidamente aparafusados ao crânio. Ficou admirado ao escutar a voz de Aimée:

— Aimée, és mesmo tu?! Fugiste do Paris?

— Mais ou menos...

Patrick sorriu, divertido:

— Fizeste bem. Todos os parisienses deviam fugir, de vez em quando.

Voltariam mais ricos e, ao mesmo tempo, mais humildes. E os teus pais?

— Você sabe o que aconteceu com o Paris?

— Sim, claro. Sou cego, mas ouço as notícias. Por isso pergunto pelos teus pais...

Aimée não sabia nada. Temia pelo pai e pelo irmão. Sobretudo pelo irmão. Contámos a Patrick o que sucedera connosco (omitindo a parte da Ilha Verde). O navegador solitário escutou-nos, espantado, mas sem nos interromper. Terminou de beber o chá, pensativo:

— Eu segui-o...

— Como?

— Eu vinha seguindo o Paris. Perdi-o há dois dias...

Patrick regressava a casa, após uma longa viagem, durante a qual visitara diversas cidades e aldeias brasileiras. Existem no céu quatro grandes cidades brasileiras — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre — e uma dúzia de aldeias. As cidades e aldeias brasileiras movem-se em arquipélago, ou seja, nunca se afastam muito umas das outras. Protegem-se e auxiliam-se.

Quando os piratas tomaram o controlo do dirigível, Patrick visitava o Recife, uma aldeia com perto de cinco mil pessoas.

— Ainda falei com o teu pai. Depois os bandidos cortaram as comunicações.

— Como os conseguiste seguir? Aliás, como deste por nós, no meio deste nevoeiro, sem comunicações?

Patrick riu-se:

— Ah! Esse é o meu segredo. Aprendi a escutar o vento.

Pensei que estivesse a brincar:

— Foste capaz de nos localizar no meio do nevoeiro, apenas escutando o vento?

— Sim, vocês, que veem, tendem a desvalorizar outros sentidos, como o olfato e a audição. Nasci cego, mas, é claro, também me sirvo de instrumentos de navegação e uso a Internet. Contudo, aprendi a ouvir o vento. Um grande dirigível avançando à minha frente, numa noite calma, produz um rasto sonoro bastante fácil de seguir. Assim, fui atrás dele e, enquanto o fazia, informei Washington e outras grandes cidades. Fiz isso, claro, antes de eles mergulharem neste céu sem Deus. A seguir, para piorar tudo, deixei-me vencer pelo sono. Adormeci durante alguns minutos e quando despertei tinha-os perdido.

— Acha que ainda podemos encontrar o Paris?

Patrick teve um gesto de desânimo:

— Talvez. Mas teremos de nos guiar pelos sonhos.

Sibongile, que, entretanto, se juntara a nós, riu-se:

— Sonhos? Isso é comigo.

Expliquei a Patrick que sonhar faz parte importante do ofício de Sibongile. O francês não se mostrou muito impressionado. Intrigou-o, isso sim, a história de Vera Regina e do balão-fantasma. Acariciou o cabelo da menina. Prestou atenção, enquanto ela conversava com os papagaios naquela língua de sombras. Vi-o franzir o sobrolho, perplexo:

— Eu conheço essa língua!

— Como?!

Aimée duvidou:

— Não é língua nenhuma. São os papagaios imitando o linguajar dos bebés.

— Não, não! — irritou-se Patrick. — Estou a reconhecer algumas palavras.

Parece-me hebraico!

— Hebraico?

— O hebraico é uma língua muito antiga, afro-asiática, que foi desaparecendo, pouco a pouco, ao longo dos séculos, até renascer, nos finais do século XIX, ganhando estatuto oficial com a criação do Estado de Israel, em 1948. A Bíblia foi escrita no antigo hebraico, e também em aramaico e em grego.

Aimée escutava-o, perplexa:

— E agora, no céu, ainda há quem fale hebraico?

— Sim. Há pelo menos duas aldeias, Tel-Aviv e Jerusalém, onde ainda se fala hebraico. Eu estive em Jerusalém, há alguns anos, tenho amigos lá.

Lamentei a falta de rede. Se tivéssemos Internet, poderia procurar de novo na Skypedia. Presumindo que a Nova Esperança fosse israelita, seria fácil identificá-la. Patrick concordou. Depois, inclinou-se para mim e perguntou-me:— De que é que vocês estão à procura?

Assustei-me:

— Como?!

— Ninguém abandona a Estrada das Luzes se não for por um motivo muito forte. Vocês não estão aqui, como eu, porque iam atrás do Paris.

Então, porque estão aqui?

Olhei para Sibongile. Ela levou o dedo indicador aos lábios. Não valeu de nada. Eu já tinha decidido contar tudo. O navegador solitário não mostrou o menor sinal de ceticismo. Quando terminei deu-me uma pequena pancada no ombro, como para me animar:

— Ah! Agora sei o que os piratas querem...

— Acha que também eles estão à procura da Ilha Verde?

— Tenho a certeza.

— E você acredita nisso — na Ilha Verde?

— Claro. Acho que todos nós, que nascemos na terra, continuamos a acreditar que um dia regressaremos.

Nessa noite jantámos juntos na Maianga. Decidimos organizar turnos, no convés, para o acaso de tropeçarmos no Paris.

Sibongile tomou um chá de camomila e foi trabalhar.

Ou seja: deitou-se e adormeceu.

Acordou, na manhã seguinte, muito agitada. Tivera (ela dizia «vivera») um sonho intenso e um tanto estranho.
 

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capa de 'A Vida no Céu'

Após o Dilúvio causado pelo aquecimento global os sobreviventes construíram sociedades flutuantes. Entre as maiores cidades estão os dirigíveis São Paulo, Tóquio e Nova York. As cidades menores e mais pobres organizaram-se em balões, formando aldeias. Quem nos conduz na história é Carlos, um adolescente angolano de 16 anos. Ele vive em Luanda, um conjunto de balsas que escolheu como negócio os livros, tornando-se uma aldeia biblioteca. Sua mãe é a bibliotecária-chefe da aldeia. O pai, após cair da balsa em uma tempestade, está desaparecido. Carlos resolve então partir para procurá-lo e segue uma pista que o leva a pousar no mais belo dos zepelins, o Paris, onde encontra Aimée, uma garota de 14 anos que se torna sua companheira de aventuras. É duplo o problema que os habitantes das nuvens precisam enfrentar; como viver em harmonia e, ao mesmo tempo reencontrar a terra, de cujo cheiro e estabilidade só os mais velhos se lembram.

 

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excerto de:

A Vida no Céu
de José Eduardo Agualusa
edição: Quetzal Editores
Junho de 2013

 


 

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18.Nov.2018
Maria José Alegre