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SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL


A Toupeira Que Queria ver o Cometa

Rubem Alves

imagem de uma toupeira com óculos

 

Era uma vez uma toupeira.

As toupeiras são míopes: só enxergam coisas que estão bem pertinho, encostadas na ponta do focinho.

É que elas moram em túneis. Este é o seu mundo: debaixo da terra. Quem mora em túneis não precisa ver. Lá dentro é tudo escuro. Não há quase nada para ser visto.

Eu não sei por que é que elas resolveram viver assim, se aqui fora é tão bonito. Acho que foi medo. Por medo dos bichos que eram mais fortes resolveram se enterrar. A pena é que, lá no fundo, se não vão os bichos perigosos, também não vão nem os pássaros e nem as borboletas, e não se vê nem o luar e nem o arco-íris.

As toupeiras são muito ruins de ver, mas muito boas para cavar. Passam assim sua vida inteira: cavando túneis e se escondendo dentro deles. Como certas pessoas...

A toupeira de nossa estória tinha um apelido: Ceguinha.

Os outros bichos riam dela, porque ela nunca via nada.

No jogo de cabra-cega nem precisavam pôr venda nos seus olhos. Ela não via nada, mesmo com seus olhos abertos.

E ficava sempre de fora das conversas, porque ela não sabia sobre o que falar. Só falava sobre o seu túnel.Como certas pessoas...

Enquanto a bicharada falava de frutas que cresciam no alto das árvores, ou de nuvens que ameaçavam chuva, ou da beleza do arco-íris, ou da brancura do luar, ela perguntava:

– O que é isso? Eu nunca vi...

E piscava os olhinhos míopes.

Certo dia ela percebeu algo incomum. Um alvoroço entre os animais. Falavam de uma coisa nova, sobre o que nunca haviam conversado antes.

– É – disse Dona Coruja, professora, que se especializara nas coisas que acontecem durante a noite. – Dizem que o brilho dele é maior que o de muitas luas cheias. Na última vez que apareceu, o rabo era tão grande que ia do horizonte até o umbigo do céu, bem em cima de nossas cabeças.

Todo mundo olhou para cima, pra ver onde ficava o umbigo do céu. Ceguinha também. Só que ela não viu nada.

Ele vem de muito longe, de muito longe mesmo. Só passa por aqui de 76 em 76 anos...

Mas vem de onde? – perguntou um esquilinho espantado.

– Das lonjuras do céu. Dizem que ele é um brinquedinho do sol. Uma espécie de iô iô. Ás vezes está bem pertinho e depois vai para muito longe. Nós, aqui na terra, somos brinquedos também. Só que diferentes. Não somos iô iôs. Somos um grande carrossel, girando, girando, sem nunca chegar perto, sem nunca chegar longe, sempre no mesmo caminho...

E os bichos paravam assombrados com Dona Coruja, que sabia tanto.

Ceguinha criou coragem. Ela não sabia o que era aquilo sobre o que falavam.

– Vocês estão falando sobre o que? – perguntou acanhada.

– Falamos do cometa que vai chegar – disse o castor, que sempre morria de dó da toupeira.

– Cometa? Onde? – e Ceguinha começou a dar voltas, procurando, como se um cometa fosse coisa que estivesse por ali. Assim era o mundinho dela. Nele não havia coisas longes, nem coisas diferentes... Eram só aquelas, a que ela já estava acostumada desde criança, coisas que se encontram próximas do seus olhinhos míopes. Como acontece com certas pessoas também...

A bicharada riu. E explicaram que um cometa é coisa brilhante que aparece no céu, parecia estrela, mas não era, porque as estrelas estavam sempre lá, no mesmo lugar, mas um cometa fazia uma visita e desaparecia, por muito e muitos anos. Imagina só: a última vez que este por aqui foi em 1910... Mas era tudo inútil. As explicações não adiantavam nada, porque a toupeira nunca havia visto coisa alguma nos céus, nem o azul, nem as nuvens, nem as estrelas. E se a coisa estava tão longe assim, que diferença iria fazer em sua vida e em seu túnel? E já se preparava para voltar para casa, pois a conversa não lhe interessava.

Mas aí Dona Coruja disse uma coisa que a fez parar.

– O cometa tem poderes mágicos. Ele tem o poder de realizar os desejos de quem o vir. Se alguém, ao olhar para ele, de todo o coração desejar alguma coisa, acontece mesmo...

E foi aquele reboliço. Cada qual dizendo daquilo que iria desejar quando visse o cometa.

Ceguinha se virou, tristemente, e duas lágrimas caíram de seus olhos.

– Tudo o que eu desejo é ver, para poder brincar, para ser companheira, para poder dizer das coisas que vi e os outros não. Quero ser igual aos outros... Ah! Se isto acontecesse, se eu pudesse ver, então eles parariam para me ouvir e gostariam das minhas estórias. E eu seria feliz. Mas o milagre só acontece para aqueles que vêem o cometa. Meus olhinhos míopes nunca o verão. Por isto meu desejo nunca se realizará.

O falatório era muito grande e ninguém notou Ceguinha, em silêncio, voltando para sua toca escura. E foi pensando. A verdade é que ela nunca quisera ver, pois estava sempre preocupada em fugir. Não fora para isto que ela construíra o seu túnel, para se esconder? Quem vive no escuro não precisa ver. Ver é coisa que se desaprende, se não se deseja. E foi assim que seus olhinhos foram ficando míopes: não serviam para nada... Pois é, ela construíra o seu túnel como uma proteção. Mas agora sentia que ele se transformara em prisão. É que agora ela estava diferente por dentro: queria ver as coisas bonitas do mundo. Não havia nada que ela desejasse mais do que isto. E com este desejo imenso ela adormeceu. E sonhou. Sonhou com o que mais desejava.

É sempre assim: nos sonhos os nossos desejos se transformam em realidade.

Sonhou com o milagre: o cometa que ela nunca veria.

Ele aparecia no céu, cauda imensa, multicolorida como se fosse um arco-íris, e era um grande olho que refletia, como se fosse um espelho, as coisas que ela sempre desejava ver e outras que nunca imaginara. Ao seu redor tudo ficava luminoso. Que bom se ela tivesse um olho assim...

Foi então que ela notou uma coisa curiosa: aquele olho que tinha tanta luz e refletia tanto, lhe parecia por demais familiar, conhecido, como se ela já o tivesse visto em algum lugar. Ah! Era o olho que ela vira vezes sem conta refletido na água da fonte, quando ela ia beber água.

Era seu próprio olho que ela via agora como nunca vira, porque via dentro as coisas que sempre estiveram lá, escondidas, guardadas, mas que ela nunca parara para ver...

Primeiro ela viu, lá no fundo, uma gota de orvalho, que uma folha havia recolhido durante a noite e guardado. Nunca prestara atenção, pois coisa tão pequena não podia ter muita importância. Ela brilhava, e os raios de sol que passavam por dentro dela se partiam em sete cores. Também as folhas gostam de jóias... E ela se admirou que pudesse haver tanta beleza em uma gota de orvalho e uma folhinha, tão escondidas. Seus companheiros nunca haviam notado esta coisa mágica, tão próxima, tão bela. Se viram, não falaram. E se não falaram, é porque não amaram. E, no entanto era mais mágica que o cometa. Porque o cometa vai e volta . Mas esta gota de orvalho acontece uma única vez, para nunca mais...

Depois foi uma poça de água barrenta. Ceguinha não podia entender por que tal coisa deveria estar lá dentro do cometa. Mas resolveu prestar atenção. Para se ver bem é preciso ficar parado, namorando a coisa. É só então que ela mostra as coisas bonitas que ela tem escondidas. E então percebeu. Não, não era uma poça de água suja. A superfície da água se transformava num espelho e lá, dentro dele, apareciam refletidos pinheiros verdes, o azul do céu, o brilho do sol. Dentro de uma poça de água barrenta, um mundo de coisas bonitas. E Ceguinha se perguntou, espantada:

– Como é possível isto, que coisas tão grandes e belas se mostrem em coisas tão pequenas e feias?

E sorriu, percebendo que estava vendo coisas que nunca vira. Não, não é que nunca tivesse visto. Seus olhos as haviam notado, mas o seu coração não as havia acolhido. E ela compreendeu que o olho só vê aquilo que o coração deseja. Quando o desejo é belo, o mundo fica cheio de luz, mas quando o desejo é ruim, o mundo se entristece...

Seus olhinhos passaram então para a superfície da lagoa, sua velha conhecida que ela via agora como nunca vira antes. Havia os reflexos das coisas de fora, árvores invertidas, cabeça para baixo, como se morassem no fundo das águas. Depois, coisas do lado de fora que brincavam com a lagoa, folhas que flutuavam na superfície deslizavam leves, barquinhos. E peixes sonolentos, grandes olhos abertos, habitantes das funduras.Três mundos: o das coisas de dentro, o das coisas de fora, e o dos reflexos.

Não, a mágica não era de ver mais longe. O maravilhoso não estava escondido nas funduras do céu. A mágica era ver diferente aquilo que os olhos haviam visto sempre, sem ver. Ah! De que adiantavam olhos de ver longe se eles não tinham o desejo de ver o maravilhoso que morava perto? E Ceguinha entendeu que o cometa só faz milagres para quem deseja muito...

Ela acordou num sobressalto e saiu correndo do túnel, esquecida do medo, rindo à toa, e enquanto andava via gotas de orvalho guardadas em folhas, mundos coloridos refletidos em poças de lama, espelhos mágicos na superfície de lagoas... Sim, ela estava vendo, como nunca antes, que este mundo é encantado, lindo, bastante que, no fundo dos olhos, haja desejos de bondade e de beleza. Para ela o milagre acontecera...

Com o coração a galope, ela chegou onde estavam reunidos os seus amigos, que ainda falavam sobre o que iriam pedir ao cometa. O macaco queria uma floresta de bananeiras só para ele. O tamanduá passava a língua comprida no focinho e falava de apetitosos formigueiros. Os gambás e as raposas conversavam sobre ovos e galinhas. Finalmente surgira a chance de acertar na quina.

Ceguinha tentou contar o seu sonho. Mas ninguém lhe deu atenção. O macaco continuou a falar de bananas, o tamanduá continuou a falar de formigas, os gambás e as raposas continuaram a falar de ovos e galinhas. E assim com todos os outros... Todos sonhavam com as mesmas coisas de antes: só que maiores, em maior número. Todos queriam ficar do mesmo jeito, como sempre haviam sido.

Ninguém sonhava em ficar diferente, em ver coisas nunca vistas.

E Ceguinha percebeu então que cada bicho vivia também dentro de um túnel, que os seus olhos só podiam ver aquilo que estavam acostumados a ver, que eram cegos para as coisas novas, diferentes, nunca vistas, mesmo que elas estivessem bem debaixo de seus focinhos. É fácil sair de túneis que existem por fora. O difícil é sair dos túneis que existem por dentro, porque ninguém os vê.

E ela se sentiu muito solitária.

Antes, a sua solidão era porque os outros viam o que ela não via. Agora ela estava só porque via aquilo que os outros não viam. Isto era triste, mas ela nada podia fazer. Seria preciso que a mágica acontecesse também com eles. Mas, para isto, um cometa com a aparência de um olho deveria aparecer nos seus sonhos, vindo das profundezas do desejo... E continuou o seu velho caminho, agora novo e encantado, vendo as coisas que sempre nunca vira, brilhando magicamente ao leve toque do seu desejo...

FIM

 

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Rubem Azevedo Alves (1933-2014)
Psicanalista, educador, teólogo, escritor e pastor presbiteriano brasileiro. Foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis.
 

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A TOUPEIRA QUE QUERIA VER O COMETA
autor: Rubem Alves
data da primeira publicação: 1991
 


 

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5.Dez.2018
Maria José Alegre