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SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL


A Noiva de Lammermoor

Walter Scott

-excerto-


Lucy Ashton and Ravenswood Visiting Blind Alice (circa 1843) - by Károly Brocky (1807–1855)


- Quem é essa velha Alix? Tenho a impressão de que conheces todas as velhas da região.

- É certo que conheço as pobres criaturas. Tenho-lhes valido nos seus dias de infortúnio. A velha Alix é verdadeiramente a rainha das velhas e conhece tudo que se trate de lendas. Quantas vezes, diante dela. escondo a cara, pois tenho a impressão de que me viu mudar de cor, apesar das suas pálpebras se terem fechado há mais de vinte anos. Devias ir visitá-la comigo. As suas falas e as suas maneiras parecem as de uma condessa. Vem comigo a casa de Alix. Encontramo-nos apenas a um quarto de milha da sua choupana.

- Tudo isso não responde à minha pergunta - disse sir William - Que relação tem ela com a família do antigo castelão?

- Creio que foi a sua ama; ficou aqui por causa dos dois netos que estão ao teu serviço. Mas penso que vive contrariada, pois lamenta sempre os velhos tempos e os antigos amos.

- Fico-lhe muito grato - retorquiu sir William. Alix e os seus comem o meu pão, bebem a minha cerveja e, apesar disso, não deixam de lamentar-se por não estarem sob a tutela de uma família que nunca fez bem a si mesma nem a qualquer outra pessoa.

- Isso é uma injúria para a pobre Alix - replicou Lucy - Como toda a gente da sua idade, não se esquece do tempo da juventude, mas tenho a certeza, meu pai, que está grata pela protecção que lhe tens dispensado e que teria prazer em falar contigo, mais do que com qualquer outra pessoa. Vem ver a velha Alix.

E com a liberdade de uma criança mimada, levou, sir William Ashton para o ponto a que desejava conduzi-lo...

Por cima das árvores mais altas avistou um penacho de fumo que subia até às nuvens, indício agradável que naquelas paragens lhe provou que existia ali um ser vivo. Lucy guiava o pai, que, ocupado quase sempre com assuntos políticos e deveres de sociedade, mal conhecia os seus domínios, pois vivia habitualmente em Edimburgo. Lucy, pelo contrário, passava o Verão com sua mãe em Ravenswood e, por desfastio ou à falta de outras distracções, aventurava-se frequentemente naqueles passeios. Não havia atalho, alameda, encruzilhada, vale frondoso, que os seus passos não tivessem percorrido.

Sir William Ashton não era insensível aos encantos da Natureza, que, para ele, tinham ainda mais beleza quando ia de braço dado com a filha e esta lhos indicava.

Acabavam de parar no cimo de um monte que dominava toda a paisagem, quando Lucy anunciou que estavam prestes a chegar à choupana da sua protegida. Efectivamente, um carreiro contornava a colina e não tardou que os dois passeantes descobrissem a humilde morada da velha cega, que se avistava sob um rochedo prestes a desmoronar-se. Era um casebre de pedra e barro, toscamente coberto de colmo. Saía dali um rolo de fumo. Num jardinzinho, cercado por um silvado, sentada junto das colmeias que lhe forneciam alimento, estava a mulher dos outros tempos...

Por muitos reveses que tivesse sofrido, por maior que fosse a sua miséria, por muitos anos que lhe tivessem passado por cima, bastava vê-la para adivinhar que aquela mulher não tinha perdido o ânimo.

Era de estatura elevada, curvada pela doença e pela idade. Tinha sido bastante formosa, decerto dessas belezas altivas e másculas que não sobrevivem à frescura da mocidade. Os seus traços deixavam adivinhar um carácter reflectido, um espírito forte e o sen timento de superioridade sobre a sua raça. Custava a crer que um carácter se revelasse com tanta nitidez num rosto a que faltava a expressão do olhar.

- Pelo rumor que fez ao levantar o fecho da cancela do jardim, Lucy chamou a atenção da velha.

- Alix! disse ela - Está aqui o meu pai, que vem vê-la.

- Que seja bem-vindo, e miss Ashton também - respondeu Alix, voltando-se e inclinando a cabeça na direcção dos visitantes.

- Que linda manhã para as suas abelhas! - disse sir William Ashton, impressionado pela aparência de Alix e curioso por saber se a aparência estava de harmonia com a sua conversação.

- Creio que sim, Milorde - respondeu ela - Hoje, o ar parece-me mais suave do que nos últimos dias.

- Sois vós que tratais dos cortiços? Como conseguis fazer isso? - Por delegação, como fazem os reis. Tenho um primeiro-ministro. Vem cá, Babie! Trazia, pendurado ao pescoço, um desses pequenos apitos de prata que se usavam para chamar os criados. Ao som produzido pelo apito, Babie, uma rapariga de quinze anos, saiu da choupana.

- Babie, oferece pão e mel a miss Ashton e a seu pai.

Babie correu para casa, não tardando a aparecer com pão e mel, servidos num prato de barro.

Sir William não saiu do lugar onde, desde que chegara, se tinha sentado: um tronco de árvore. Parecia desejoso de prolongar a entrevista, mas bastante embaraçado por não encontrar assunto. Por fim, quebrou o silêncio:

- Habitais há muito tempo em Ravenswood? - perguntou.

- Há quase sessenta anos que vim para aqui - respondeu Alix num tom respeitoso, mas com visível prudência.

- A julgar pelo vosso sotaque, não sois deste país? - Sou inglesa de nascimento.

- Contudo, pareceis-me ligada a esta terra como se ela fosse a vossa? - É aqui que tenho bebido pela taça da alegria e do sofrimento que o Céu me destinou. Aqui, fui, durante mais de vinte anos, a mulher de um homem bom e recto; aqui, fui mãe de seis filhos; foi daqui que Deus mos levou. É aqui que eles descansam, junto da capela em ruínas. Não tive outra pátria, enquanto eles viveram e não terei outra, agora que morreram.

- Mas a vossa casa encontra-se num estado lamentável - notou sir William, olhando para o casebre.

- Meu querido pai - disse Lucy, timidamente - porque não a mandas reparar?

- Esta casa durará tanto tempo como eu, minha querida miss Lucy! - respondeu a cega - Não quero que milorde se incomode por minha causa.

- Mas tivestes uma casa melhor - disse Lucy - Já fostes rica. E agora, com essa idade, quereis viver em semelhante casebre! - O que tenho chega-me bem, miss Lucy. O meu coração, depois do que tenho sofrido e visto sofrer, não sucumbiu porque é muito resistente; e do meu velho corpo não há o direito de se dizer que seja muito fraco.

- Deveis ter assistido a muitas transformações - observou sir William - Mas a experiência ter-vos-á certamente ensinado a encará-las.

- Ensinou-me a sofrê-las, milorde.

- Sabeis que tudo se transforma com o correr dos anos? - Sim. Eu sei que o tronco onde estais sentado foi uma grande e majestosa árvore e que, necessariamente, teria de ser abatida um dia pelo machado, ao morrer de velhice. Mas sempre esperei que os meus olhos não vissem cair a árvore que me dava sombra.

- Compreendo. Não vos quero mal por estimardes os vossos amos de outros tempos e respeito essa gratidão. Vou mandar reparar a vossa casa. E espero que viveremos como amigos quando nos conhecermos melhor.

- Na minha idade não nos preocupamos com novas amizades - respondeu a velha Alix - Agradeço-vos a bondade, que parte de um sentimento generoso, mas tenho tudo quanto desejo e nada posso aceitar das mãos de Vossa Honra.

- Deixai-me dizer que vos considero uma mulher cuja inteligência e educação desmentem a humildade exterior. Espero que desejeis continuar a viver nesta propriedade a título gracioso.

- Também o espero - respondeu calmamente a velha - Além disso, creio que é uma das cláusulas especiais da venda que vos fez lorde Ravenswood. Talvez tivesse escapado a Vossa Honra um pormenor tão insignificante...

- Recordo-me, de facto - replicou lorde Ashton, um pouco embaraçado - Verifico que sois muito dedicada aos antigos proprietários para aceitar do seu sucessor qualquer benefício.

- Não, milorde. Fico-vos bastante reconhecida pelos favores que recusei. E o que vos quero dizer, prova melhor o meu reconhecimento.

Sir William olhou-a surpreendido. Ela prosseguiu:

- Medi bem as vossas acções, milorde. Encontrais-vos à beira de um abismo! - Que dizeis! - exclamou sir William, pensando nas circunstâncias políticas que o país atravessava - Sabeis de alguma coisa: intriga ou conspiração? - Não, milorde. A minha prevenção é de outra natureza. Levastes muito longe as coisas que dizem respeito aos Ravenswood. É uma família temível e é perigoso tratar com pessoas levadas ao desespero.

- Ora! - respondeu sir William - Nada se fez entre nós que não tivesse sido em nome da lei! Não é da minha maneira de proceder que eles se devem queixar, mas sim da Justiça.

- Eles podem pensar de modo diferente e pretenderem fazer justiça por suas próprias mãos.

- Quer dizer: Ravenswood recorrerá à violência? - Deus me defenda dessa insinuação! Tudo quanto sei desse rapaz é que é honrado e leal. Que digo eu? Terei de acrescentar: generoso e nobre. Mas é um Ravenswood e pode aguardar a sua hora. Lembrai-vos do caso de sir George Lockhart, morto com um tiro de pistola, em Edimburgo, por um processado a quem recusaram fazer justiça.

Lorde Ashton sentiu um calafrio, lembrando-se daquele drama recente. Entretanto, a velha prosseguiu:

- Chiesley, o assassino, era um parente de lorde Ravenswood. Na sala de Ravenswood, diante de mim e na presença de outras pessoas, declarou que ia praticar esse crime. "O que pretende fazer, disse-lhe eu, "é um acto abominável, do qual terá de prestar contas no dia do Julgamento". Nunca poderei esquecer o modo como me respondeu:

"Não serei o único a prestar contas". Tenho, pois, razão para vos dizer: O sangue de Chiesley corre nas veias de Ravenswood e, na situação em que este se encontra, basta uma gota para o inflamar. Repito: tomai cuidado com ele! Intencionalmente, ou por acaso, a velha Alix reforçava os receios de sir William. O recurso final e trágico do assassínio era familiar aos barões escoceses das eras passadas. Sir William Ashton não ignorava que Ravenswood tinha suportado bastantes iniquidades para ser levado àquele género de vingança, efeitos funestos de uma administração parcial da Justiça. Pretendeu ocultar à velha Alix a natureza das suas apreensões, mas não o conseguiu: qualquer pessoa, mesmo dotada de menor penetração, tê-las-ia adivinhado.

A sua voz mudara de inflexão quando lhe respondeu que Ravenswood era um homem honrado e que o castigo aplicado a Chiesley fora uma lição para o audacioso que pretendesse vingar-se nele por prejuízos imaginários. Disse isto precipitadamente e, levantando-se, afastou-se, sem esperar pela resposta.

FIM

 

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A Noiva de Lammermoor

excerto de:
A Noiva de Lammermoor
Walter Scott (1819)
Tradução de José Rosado
Editora: Portugal - Romano Torres
3.a edição, 1966
Colecção "Obras Escolhidas de Autores Escolhidos"

 


 

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22.Nov.2019
Maria José Alegre