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 Sobre a Deficiência Visual

 

A Condessa Cega e a Máquina de Escrever

Carey Wallace

excerto

capa

 

SINOPSE | A jovem condessa Carolina Fantoni está a ficar cega. Ninguém acredita nela, no entanto: nem seus pais, tampouco seu noivo — o solteiro mais cobiçado da cidade. O único que lhe dá ouvidos é seu vizinho, Turri, o excêntrico inventor local. Enquanto a escuridão pouco a pouco apaga o mundo à sua volta, Carolina descobre um lugar no qual ainda consegue enxergar: os sonhos. Sonhando, ela é capaz não só de ver como também de voar e explorar novos mundos. Quando está acordada, a perda da visão faz com que Carolina tenha uma vida solitária. Até mesmo o acto de escrever cartas, com tinta e caneta, se prova impossível. É quando Turri lhe dá de presente uma engenhosa invenção: uma máquina de escrever, a primeira de que se tem notícia no mundo inteiro, e que ela usará para se comunicar com quem quiser, principalmente com ele. Este presente fomenta uma história de amor apaixonada que irá marcar a vida dos dois. Com base na história real da mulher que inspirou a invenção da máquina de escrever, Carey Wallace tece um conto de fadas atemporal que celebra a imaginação, a superação dos limites e o amor, que é a maior das invenções.

 

No dia em que a contessa Carolina Fantoni se casou, apenas uma única pessoa sabia que ela estava ficando cega, e não era seu noivo.

E não foi por falta de aviso.

— Estou ficando cega — ela revelara subitamente à mãe, na oportuna penumbra da carruagem da família, os olhos ainda brilhantes de lágrimas do cáustico sol de inverno. Por esta época, ela já perdera a visão periférica. Carolina pôde sentir a mãe segurar sua mão, mas teve que se virar para ver o seu rosto. Ao fazê-lo, a mãe beijou-a, os próprios olhos cheios de compaixão.

— Eu também já estive apaixonada — ela disse, desviando o olhar.

 

*

— Papai — Carolina dissera.

Seu pai pousou a lente de aumento sobre o mapa desenrolado à sua frente. Um tristonho monstro marinho assomou por baixo da lente.

Embora estivessem no meio do dia, a cegueira velava as estantes que se erguiam atrás de seu pai em uma falsa obscuridade. Somente a ampla janela acima da cabeça dele e a própria escrivaninha ainda podiam ser vistas com clareza.

— Vovó estava cega quando morreu — comentou Carolina. Seu pai balançou a cabeça.

— E por muitos anos antes disso — ele disse. — Mas eu não acreditava inteiramente nisso. Era como se ela tivesse outro par de olhos escondido em uma caixa. Ela sabia de tudo.

— Ela alguma vez lhe contou como isso aconteceu? — perguntou Carolina.

Seu pai meneou a cabeça.

— Eu era muito novo na época.

— Acho que talvez eu esteja ficando cega — disse-lhe Carolina.

Seu pai franziu a testa. Após considerar a informação por um instante, abanou a mão diante do rosto. Quando os olhos dela seguiram seu movimento, ele exibiu um amplo sorriso.

— Ah, mas ainda não ficou!

 

*

Ela contara a Pietro no jardim, quando a mãe os deixou a sós por alguns instantes sob um céu cheio de estrelas, que Carolina podia extinguir ou trazer de volta à existência com um simples movimento da cabeça. Pietro rira sem parar.

— O que você vai me dizer em seguida? — ele lhe perguntara, entre um beijo e outro. — Imagino que também pode voar, não? E se transformar num gato?

— Há coisas que já não consigo ver — ela insistiu. — Nas bordas da visão.

— Agora você vai me dizer que se esqueceu de como beijar — Pietro disse, beijando-a outra vez.

 

*

Naqueles primeiros dias, Carolina media suas perdas pelo tamanho de seu lago. Seu pai represara um trecho do pequeno rio que serpenteava pela propriedade como um presente para sua mãe no quinto aniversário de casamento. Porém, amador nessas coisas, ele conseguira apenas dragar desajeitadamente o pântano ao redor. A massa de água resultante, de trinta passos de comprimento e metade disso de largura, em nenhum ponto era suficientemente funda para uma pessoa ficar de pé inteiramente submersa. Sua jovem esposa, ainda saudosa do mar, andara lealmente pelo terreno encharcado com ele no dia de seu quinto aniversário de casamento, mas jamais retornara ali voluntariamente. Assim, quando Carolina fez sete anos, seu pai espalhou bancos de pedra pelos gramados das margens, encheu a superfície do lago de barcos iluminados com lanternas e transformou-o em um novo presente para a filha.

 

*

Turri, é claro, compreendeu imediatamente. Ele ergueu as mãos nos dois lados do próprio rosto.

— Assim? — ele perguntou.

Carolina balançou a cabeça afirmativamente.

Por um instante, seus olhos azuis arregalaram-se de preocupação.

Então, mudaram. Ele continuou olhando diretamente para ela, mas o foco de seu olhar estava em algo muito além dela, sua mente percorrendo os livros de uma biblioteca invisível. Carolina detestava aquela expressão: às vezes, passava em um instante, mas geralmente significava que ela o perdera para seus pensamentos pelo resto da tarde.

Por agora, entretanto, ele ainda reunia provas.

— Há quanto tempo? — ele quis saber.

— Meio ano — ela respondeu. — Desde antes do Natal.

Além da seda pregada nas janelas da casa do lago, um pássaro de verão entoou algumas notas, em seguida recaiu em silêncio.

— Já li sobre isto — comentou Turri. — A cegueira pode vir dos cantos ou do centro.

— Do centro? — repetiu Carolina.

— Como um eclipse, no centro de sua visão. Mas é permanente. E a escuridão se expande a partir daí.

— Mas no meu caso está vindo de fora — declarou ela.

— É o outro tipo.

Lágrimas assomaram aos olhos de Carolina. Ela deixou que turvassem sua vista, grata por uma cegueira que podia limpar com um movimento do pulso. Quando as lágrimas passaram, Turri permaneceu sentado, fitando-a, como se ela fosse um novo problema de matemática.

— Quanto tempo? — ela perguntou.

— Tenho certeza de que varia em cada caso. Quando ela não desviou os olhos, ele abaixou os seus.

 

*

Carolina nunca soube ao certo quando a cegueira se instalou.

Olhando para trás, através dos armários turvos e apinhados de sua mente, ela encontrou meia dúzia de dias, espalhados ao longo de uma década: na ocasião em que, ainda criança, ela esfregara os olhos com tanta força que o mundo ficara manchado por horas com sombras verdes e vermelhas; a maneira como todas as demais pessoas pareciam se acostumar à escuridão muito antes que seus próprios olhos conseguissem divisar formas; o dia em que bateu a cabeça ao cair de uma árvore e ao acordar encontrou um mundo à deriva, oscilando tão suavemente quanto uma folha na superfície de seu lago. Todas as peças que seus olhos haviam lhe pregado voltaram à sua lembrança: pássaros que provavam ser apenas flores em um galho; flores que de repente acordavam, abriam as asas e provavam ser pássaros.

Mas foi no outono depois do pedido de casamento de Pietro, quando tinha dezoito anos, que a cegueira tornou-se inegável. Mais tarde, Carolina percebeu que devia ter começado pelas bordas de sua visão e que se fechava para o centro como o crepúsculo: tão devagar que nenhuma mudança era perceptível de um momento para o outro, mas tão constante que, quando finalmente ela reconheceu que a tarde caía, a verdadeira noite estava a um átimo de distância. A medida que as árvores soltaram suas folhas, ela se tornou irrequieta. Podia ouvir a ressonante pancada de um mergulhão na água do lago, mas o canto de seu olho não capturava o movimento. Esquilos caçoavam dela de cima das árvores, mas, quando virava a cabeça para vê-los, haviam desaparecido.

Quando as últimas folhas da estação submergiram para o fundo do lago, deixando a floresta nua, Carolina olhou para o outro lado das águas negras, para a fileira de sete árvores que seu pai deixara de pé quando pela primeira vez desmatou a terra: um velho e generoso salgueiro, uma macieira silvestre, uma árvore não identificada com a casca cinzenta e lisa, um carvalho, uma muda de carvalho e um par de esbeltos vidoeiros entrelaçados como gêmeos ou amantes, tão unidos que seus galhos roçavam ruidosamente ao vento. Contar todas elas fora um passatempo favorito para Carolina quando criança, e continuou sendo uma satisfação enquanto crescia. Mas agora seu campo de visão não conseguia abranger todas elas. Podia ver o salgueiro ou as gêmeas: nunca todas no mesmo olhar. Pela primeira vez, ela compreendeu que estava ficando cega.

Essa percepção atingiu-a com toda a força de uma conversão. Como uma nova crente, nunca mais conseguiria ver o mundo da mesma forma outra vez, quer mantivesse ou perdesse sua fé. Mas a forma do novo mundo, o ritmo de sua liturgia, as propriedades de seus anjos e demônios ainda eram um mistério.

Durante a maior parte do inverno, Carolina testou sua cegueira. Por exemplo: com que velocidade avançava? Talvez, tendo levado toda a sua vida para chegar a este ponto, pudesse levar mais vinte anos para se apoderar de outra fração de sua vista. Com uma precisão científica que teria deixado Turri orgulhoso, ela desenhou as árvores na margem oposta e assinalou o que podia ver quando as encarava de frente do degrau mais alto de sua casa. Em novembro, ela podia captar cinco árvores, limitadas pelo salgueiro e a muda de carvalho. No Ano-Novo, a muda de carvalho havia desaparecido.

Quando a escuridão começou a engolir o salgueiro também, ela tentou contar aos pais. Quando o salgueiro se extinguiu, ela contou a Pietro.

A essa altura, Pietro já conhecia bem seus hábitos para reconhecer que ela não era igual às outras jovens de seu círculo, e começou a chamá-la de "minha estranha". Sua declaração pareceu-lhe ser apenas mais um alegre contrassenso, como seu afeto pelo seu mal concebido lago com suas margens lamacentas ou sua inexplicável paciência com as experiências de Turri.

Seus pais há muito haviam esquecido suas tentativas de avisá-los. O pai estava empenhado em uma guerra de atritos com o jardineiro, o qual insistia que, se cortasse todas as flores que seu patrão exigia para o casamento de Carolina, o próprio jardim, onde seria realizada a recepção, teria todo o charme de um deserto — ao que o pai da noiva retrucava que todos os gênios eram ridicularizados pelos seus próprios criados. A mãe de Carolina raramente deixava seus aposentos, mas um fluxo permanente de criados e mensageiros agora ia e vinha, carregando frutas, chocolates, porcelanas, pratarias, sedas, brocados e rendas e um desfile de presentes enviados com antecedência pelas centenas de convidados.

Carolina sempre abria esses presentes na companhia da mãe, de modo que, enquanto perdia a visão, ela pudesse manusear algumas das peças mais lindas que já vira: uma caixa laqueada, azul da cor do ovo do pintarroxo, ondeada como o tafetá chamalote, forrada de veludo rosa-escuro; uma concha espiralada do tamanho de seu punho fechado, com uma tampa de prata, para guardar sal; lençóis bordados com flores de limoeiro e vinhas; uma tigela para doces, de vidro, cor de sangue; uma bandeja de prata moldada no formato de uma enorme folha de parreira, com um cacho em tamanho real de frias uvas de prata, aconchegado sob a curva do cabo, e com um pequeno pássaro empoleirado na borda oposta, fitando ardentemente a fruta de metal.

No começo, Carolina tentou memorizar todos esses objetos. Iniciou um cuidadoso catálogo em sua mente, fechava os olhos e testava a si mesma. Mas rapidamente descobriu que, toda vez que evocava um objeto em sua memória, ele se desfazia ou mudava. O pássaro na bandeja, que parecera tão esperançoso quando o vira pela primeira vez, tornou-se melancólico em sua mente e desenvolveu olhos de contas: às vezes de ônix, às vezes de safira, de modo que, toda vez que olhava novamente para a bandeja real, tinha a sensação de que não era tão bonita quanto parecera ser. A caixa de laca abriu-se em sua lembrança pouco confiável revelando ovos brancos salpicados de marrom, pedras cinzentas, lisas pela ação do rio, diamantes soltos. Por fim, ela desistiu do projeto de memorização, mas continuou tentando absorver o máximo possível do mundo: a luz de velas no quarto de sua mãe, aves aquáticas aterrissando em seu lago, as dobras de seu vestido branco conforme a costureira o ajustava, acrescentava cem metros de renda e o ajustava de novo. O mundo tinha dificuldades em suportar seu olhar inquiridor. A cegueira nos cantos de seu campo de visão e a água escura do seu lago fundiam-se em uma densa sombra que ameaçava engolir o céu e as árvores que ainda conseguia ver. A floresta parecia perder a profundidade e achatar-se, como se fosse apenas pintada no pano de fundo de uma companhia de teatro itinerante. Tudo dava a impressão de estar em perigo de revelar qualquer horror ou maravilha que o mundo visível agora obscurecia.

Mas a cegueira nunca dava trégua. Na semana anterior ao seu casamento, ela perdeu o carvalho, restando apenas a árvore desconhecida e a macieira silvestre, inteiramente florida de um dia para o outro, como uma noiva emocionada, estremecendo de alegria à mais leve brisa.

Foi então que ela contou a Turri.

 

*

Na primavera em que Carolina nasceu, sua mãe mandou plantar fileiras e fileiras de roseiras brancas, em preparação para o dia do casamento da filha. Hoje, seus galhos enfeitavam o arco da porta da igreja, presos no lugar com drapeados de tecido fino, arrematados aqui e ali por nuvens de flores brancas que a criada de Carolina chamava de "luz das estrelas" ou por longos tufos de capim verdejante das margens do rio. Uma infinidade de rosas cobria as mesas que os criados arrumaram na noite anterior no gramado, onde duas ajudantes de cozinha agora montavam guarda contra novas tentativas de um robusto corvo ladrão. Ele já havia habilmente roubado um par de garfos e uma faca reluzente nas primeiras horas da manhã, antes de um cavalariço, defendendo sua própria honra na questão, descobrir o verdadeiro larápio e assustar o pássaro, fazendo-o largar a colher que teria completado seu conjunto de talheres. Havia montanhas de rosas no toucador de Carolina enquanto sua criada a ajudava a entrar no vestido e sua mãe ajeitava seu cabelo. A cegueira havia avançado tanto que ela agora via o mundo como se espreitasse através de uma folha de papel enrolado — algumas frases em uma página, um único rosto.

Isso fazia toda a ideia do casamento com Pietro, que sempre lhe parecera um estranho sonho do qual poderia acordar a qualquer instante, parecer ainda mais irreal.

Na igreja, seus olhos cada vez mais fracos reduziram as flores que se entrelaçavam acima da porta da igreja a uma névoa de branco e verde, e os parentes e vizinhos reunidos a uma neblina sussurrante. Ela desceu a nave da igreja de memória e adivinhação, dando pequenos passos para evitar tropeçar em seus metros e metros de renda e seda, reequiIibrando-se de vez em quando, ao pisar em uma das infelizes rosas que haviam sido espalhadas em sua honra sobre as pedras desgastadas do pavimento. Quase na metade da extensão da nave, ela apreendeu o som de uma voz familiar e voltou-se para ver Turri. Ele devolveu-lhe o olhar como se fosse mais um dia comum e ele estivesse apenas esperando por uma resposta ou seu próximo movimento em um jogo. Ao seu lado, Sophia ergueu os olhos para ela com a astúcia desarrazoada, mas infalível de um gato, absorvendo cada detalhe de seu vestido com avidez e desconfiança.

Carolina, então, voltou os olhos novamente para o altar, onde cem velas bruxuleavam pálidas na forte luz da tarde, gotejando cera quente sobre as faces das conformadas ásteres e flores azuis amontoadas a seus pés. Pietro aguardava ao lado do padre, a luz defletindo ao seu redor: bonito, confiante, sorridente.

 

*

— Você parece um pássaro — queixou-se Pietro. — Fique quieta. O oceano não vai fugir.

Carolina, que andara girando a cabeça rapidamente de um lado para o outro na vã esperança de capturar a linha da costa inteira em um único olhar, fez o que lhe foi pedido. A vasta expansão de areia branca e a fita azul do oceano que se estendia além dela até o céu desapareceram, substituídas pelo mar em camafeu, um fragmento oval reluzente, pequeno o suficiente para ser pendurado no pescoço de uma mulher, cercado de trevas.

Pietro virou seu rosto para ela e beijou-a.

— Você é tão linda — murmurou. — Acho que nunca poderei amá-la mais do que agora.

Carolina nunca temera a escuridão, mas, durante os ofuscantes dias de sua lua de mel à beira-mar, ela se tornou uma amiga. O oceano cintilante era um verdadeiro tormento para ela, com toda a luz de mil ondas fluindo para dentro de seus olhos limitados, mas, quando a noite vinha, ela se sentia em igualdade de condições novamente: o mundo inteiro também ficava cego. Na realidade, ela assumia uma posição vantajosa. A cegueira a curara de superstições a respeito das qualidades secretas da escuridão, o medo de que as coisas se transformassem e se tornassem estranhas quando não governadas por um olho humano. Através de uma longa associação, ela aprendera que a escuridão não tinha nenhum poder de alterar o que escondia. Sua escova de cabelo ou caneta podia ficar obscurecida pela cegueira, mas, quando estendia a mão para pegá-las, eram as mesmas de sempre. Em consequência, as sombras já não possuíam nenhuma magia para ela. Sua confiança permanecia a mesma à medida que o céu do crepúsculo passava de azul a negro. À noite, movimentava-se com mais confiança até mesmo do que Pietro, cuja dependência da luz do sol o tornava desajeitado no escuro. Assim, era ela quem o conduzia pelos cantos não iluminados da cidade litorânea depois que as lojas já haviam se fechado e os restaurantes haviam se esvaziado, enquanto os garçons jogavam baldes de água nas pedras do calçamento para apagar as provas das festas daquela noite e a música cigana começava a fluir de algumas janelas abertas.

 

*

A propriedade de seu marido fazia fronteira com a de seu pai. Na realidade, o rio que alimentava o lago de Carolina vinha das terras de Pietro. Uma de suas curvas era visível da casa de Pietro, ao pé de uma suave colina que descia até uma área de atracação onde dois barcos velhos cochilavam ao sol.

Na primeira manhã depois de sua volta do oceano, Carolina acordou e viu-se sozinha. Os lençóis de Pietro estavam afastados, já frios. Ligeiramente zonza com a repentina liberdade de sua constante companhia, ela vestiu-se, encontrou seu caminho até as escadas e saiu pela porta da frente, andando na direção de seu lago com a compulsão de um pássaro migratório que segue um mapa profundamente gravado mais fundo em sua mente do que seus próprios pensamentos. Ela passou o dia fitando as águas escuras.

Sua visão havia diminuído ao ponto de seu campo de visão ficar quase completamente dominado pelas sombras, com dois minúsculos pontos luminosos através dos quais ela ainda podia ver o mundo, como se o fizesse através de janelas no lado oposto de um aposento. Através deles, ela observou a névoa se evaporar e o lago espelhar o céu branco. Nuvens refletidas vagavam pela superfície e desapareciam nos juncos. Aves aquáticas aterrissavam com uma revoada rítmica de asas, lançando o mundo inteiro no caos.

A medida que as folhas se tornaram luminosas e caíram no lago, a cegueira se intensificou. Agora, olhando para a superfície plácida do lago, não conseguia ver nenhuma das margens, apenas um oval cada vez mais fechado, contendo as faces brancas das últimas ninfeias entre os centros avermelhados das folhas largas e planas, fechando-se nas bordas por causa do frio. Mesmo em plena luz do dia, ela agora se movia em perpétua escuridão. Ainda conseguia ver ao longe em seu minguante campo de visão, mas de perto era como se carregasse somente uma pequena lanterna, capaz apenas de revelar o que estivesse diretamente à sua frente.

Quase cega, ela se tornou desajeitada, causando manchas roxas nas pernas brancas ao bater na mobília pouco familiar de Pietro.

 

— Vão pensar que estou espancando você! — Pietro brincou, quando descobriu uma nova mancha roxa. — Mas você é bonita demais para isso.

Para não perder seu lago para a escuridão, Carolina pegou estacas de plantar com o jardineiro para marcar o caminho mais seguro.

Durante vários dias, ela entrelaçou e prendeu grossos cordões de trepadeiras entre elas para guiá-la ao longo do caminho, até suas mãos macias ficarem cortadas e arranhadas.

— Até parece que você andou trabalhando na lavoura — Pietro disse.

Então, certa noite, Carolina derrubou um relógio de seu lugar quando Pietro a conduzia da sala de jantar para as escadas.

O relógio estava em uma prateleira logo acima da altura de seu cotovelo. O corredor era bastante largo para ela ter facilmente evitado o acidente. Mas sua visão havia se contraído tanto que se tornara impossível para ela ver todos os objetos de decoração dispostos no corredor e ainda encontrar seu próprio caminho.

O relógio caiu com uma estridente clangor de carrilhões. Molas e mecanismos espalharam-se por toda parte. O belo mostrador de cerâmica branca com suas margaridas pintadas à mão parecia estar inteiro até ela se ajoelhar para pegá-lo, quando se desfez em cacos em suas mãos.

— Carolina! — Pietro exclamou. — Isso pertenceu à minha avó! Não havia nenhuma raiva em sua voz, apenas surpresa e mágoa.

Quando ele se ajoelhou ao lado dela e começou a tatear desamparadamente entre os estilhaços, evitou seus olhos. Ela percebeu com uma dor aguda que ele acreditava que ela quebrara a peça deliberadamente.

— Não, não! — ela disse, agarrando seu braço. Quase a contragosto, seu corpo vigoroso cedeu e voltou-se para ela. Ambos agachados, equilibrados nas pontas dos pés, impossibilitados de se ajoelhar em meio aos fragmentos de vidro e metal. — Eu não consegui vê-lo, Pietro — ela acrescentou, os olhos repentinamente cheios de lágrimas. — Eu não consigo ver! Esta era a primeira vez que ele a via chorar. O rio incontrolável de seus pensamentos desviou-se por um instante deste novo galho caído em seu caminho. Ele se levantou, erguendo-a com ele.

— Mas estava bem ali — ele disse, argumentando devagar. Carolina ergueu as mãos ao lado do rosto.

— Não consigo ver minhas mãos. Não consigo enxergar além delas. Está pior a cada semana.

— Você não consegue enxergar — repetiu Pietro.

— Eu lhe contei — disse ela, suplicante. — Eu lhe contei antes de nos casarmos.

Após um instante, a verdade assomou aos seus olhos.

— Mas você estava brincando! — ele exclamou.

Quando ela se calou, ele envolveu-a nos braços, cobrindo seus olhos com uma das mãos e pressionando seu rosto contra o peito.

 

*

Na manhã seguinte, ela acordou com ele debruçado sobre ela, protegendo seus olhos da claridade do sol com a mão. Na noite seguinte, ele pegou-a de sua cadeira e carregou-a no colo até o andar de cima.

— Mas não há nada errado com meus pés! — ela insistia.

Por alguma razão, sua cegueira reacendeu nele um desejo que começara a estremecer depois de sua volta do balneário. Ao invés de se retirar para seus próprios aposentos toda noite, como vinha fazendo, ele ficava com ela ou a carregava para o quarto dele.

— Quem é? — ele sussurrava, cobrindo os olhos dela com suas mãos, como se ela tivesse que adivinhar. — Oh, mas eu sou cego! — ele protestava, enrolado em suas roupas enquanto buscava sua carne.

Isso durou uma semana. Ao redor do lago, as árvores renunciaram às suas últimas folhas. Quando seus galhos já estavam negros e despidos, o ardor de Pietro começou a definhar. Ele ainda a acompanhava quando se encontravam por acaso, mas raramente a procurava.

Carolina, de sua parte, não sentia sua falta. Servir de plateia para um homem criado por centenas de admiradores a deixava exausta.

Acalmar o desespero dele por causa de sua cegueira, enquanto a escuridão avançava inexoravelmente em seus próprios olhos, estava além de suas forças. O pensamento não declarado de que ele pudesse estar encontrando consolo em outra parte era quase um conforto para ela.

A própria noite se tornara sua companheira favorita, a única que parecia compreender o que a cegueira significava. Ela já não acendia lampiões ou velas para afastá-la: toda noite, abria seus botões e presilhas em completa escuridão. Especialmente depois de quebrar o relógio, ela não ousava vagar pela casa pouco familiar de Pietro, mas nada a impedia de andar a esmo pelos limites de seu próprio quarto, buscando novos mistérios: a renda de louça no vestido de uma estatueta, as curvas lisas de uma tigela de conchas, os contornos longos e escorregadios de seus armários gêmeos.

Quando, por fim, dirigia-se à sua cama, geralmente tirava os lençóis e cobertores e os invertia, com os travesseiros nos pés da cama. Se levantasse o queixo desta posição, o que lhe restava do céu noturno enchia sua visão, as estrelas tão brilhantes quanto podia se lembrar, as bordas da lua ainda intocadas por sua inexorável cegueira.

 

*

Ao se aproximar o dia da festa de Natal de seu pai, só restava a Carolina fragmentos duvidosos do mundo. A escuridão havia dominado inteiramente as bordas de sua visão. Agora, ela mal conseguia divisar um rosto inteiro com um único olhar. Se olhasse para seus olhos, perdia as tranças e pérolas nos cabelos das moças, e, mesmo quando elas falavam, uma sombra passava por suas feições, obscurecendo o nariz ou a boca. De vez em quando, um olhar podia ser dolorosamente nítido: o reflexo de um pássaro, voando acima do lago; o lampejo de uma esmeralda na mão de uma senhora. Porém, mais frequentemente, as sombras se adensavam em cenários até mais luminosos, de modo que agora Carolina vivia em um permanente lusco-fusco que escurecia mais a cada dia.

Desde antes do nascimento de Carolina, a família de seu pai realizava uma festa na semana entre o Natal e o Ano-Novo. Este ano, como sempre, a casa estava apinhada de ramos de azevim, pontilhados de limões e de flores vermelhas da estufa de sua mãe.

 

*

Como Turri dissera, o Ano-Novo lhe trouxe a escuridão completa.

Os poucos resquícios que fora capaz de ver — os olhos dos criados, um pedacinho do horizonte além da janela — tudo definhou a pontos de luz indiscerníveis. Então, em certa manhã, acordou e descobriu que até aquelas luzes haviam se apagado.

No começo, achou que simplesmente havia acordado muito cedo e teria que esperar o sol se levantar. Mas depois percebeu que a casa estava animada com os sons diurnos: passos nas escadas e sons de pés no telhado acima, talvez alguém removendo o produto de uma forte nevasca, de modo que o telhado não cedesse sob o peso. Lá fora, crianças riam e gritavam.

Onde estou?, ela pensou, repentinamente inundada de terror.

Imediatamente, suas mãos se fecharam em torno das cobertas familiares de sua cama, dos travesseiros sob sua cabeça e, tateando mais longe, da quina de sua mesinha de cabeceira, das pétalas suaves de suas flores, dos afiados ornamentos dourados que revestiam seu relógio.

Ela não pudera ver nada disso com clareza nas últimas semanas, mas, com toda a luz agora ausente, esses objetos repentinamente pareciam ser os únicos que haviam sido deixados para ela em uma escuridão viva que podia muito bem ter consumido o resto do mundo. Até onde sabia, ela podia estar flutuando entre estrelas mortas muito acima de um mundo destruído por uma explosão, e este poderia ser o último instante que seus dedos tocariam o verniz liso da mesa antes que ela se afastasse para fora de seu alcance para sem-Pre. Não ousou chamar alguém: se o fizesse, o que quer que bvesse causado esta desgraça poderia voltar e terminar o trabalho, exterminando-a.

Ela poderia ter ficado ali deitada durante dias a fio, as mãos cerradas ao redor das dobras de veludo, até a fome ou o cansaço arrastá-la para um sono diferente. Porém, instantes depois, ouviu passos na escada. Eles pararam à porta, depois entraram sem bater.

Conforme o som dos passos se movia pelo quarto, formas familiares começaram a emergir da escuridão. Houve um sussurro de seda ao ser levantada do chão e guardada no armário. Frascos de cristal lapidado de perfumes e cremes tilintaram delicadamente. Os painéis de suas cortinas roçaram o assoalho quando elas foram abertas. O vento soprou pela janela, trazendo com ele a lembrança da longa encosta verde do pátio. O vento era frio e cortante; a mente de Carolina instantaneamente desnudou as árvores de verão de suas folhas e cobriu os jardins de neve.

Um jarro de cerâmica moveu-se rapidamente pelo assoalho. Folhas e pétalas roçaram-se. Houve o barulho de água jogada no telhado que ficava abaixo da janela aberta e uma água nova foi calmamente entornada no jarro.

Então, os passos cessaram, a pouca distância da cama de Carolina.

O quarto ficou em silêncio. Na ausência de sons, a escuridão correu para dentro outra vez e parou, fervilhando, na porta aberta. Sua cama, seu relógio, suas roupas de seda familiares enfrentaram-na com firmeza. Mas a outra figura no quarto era esquiva: um par de chinelos de pano, um avental, uma única mão pálida, desfazendo-se em nada onde a pessoa deveria estar.

— Quem é? — perguntou Carolina.

Os passos se viraram e saíram do quarto sem dar resposta.

 

*

Carolina estava sentada na banqueta adamascada diante de sua penteadeira, onde dois espelhos flanqueavam outro maior, refletindo sua imagem perdida em ângulos infinitos. Durante dias podiam ter sido semanas — ela navegara pelo pequeno quarto em absoluta escuridão, recuperando seus elementos das sombras um a um. Agora, podia sentar-se na cama sem primeiro tatear cegamente para encontrá-la. Podia abrir a janela ou fechá-la. Podia estender a mão para um perfume com a segurança de quem podia ver. Mas ainda não estava disposta a descer ao térreo, onde tudo seria estranho para ela, e aturar a compaixão de Pietro e a curiosidade dos criados.

Seus olhos, embora não pudessem enxergar, ainda lhe obedeciam de outras formas. Agora, ela os ergueu para o espelho, para perto de onde o reflexo de Pietro deveria estar.

Atrás dela, Pietro remexeu-se nervosamente.

— Gostaria de poder ajudá-la — disse ele.

Carolina levantou-se, atravessou o quarto pelos pés da cama e virou-se com precisão para encontrá-lo junto à mesinha de cabeceira. Tirou uma rosa do vaso de flores, encontrou sua mão e dobrou seus dedos ao redor do cabo.

— Carolina — ele começou a dizer.

— Estou feliz por você ter vindo — ela disse.

 

*

— Eu quis ir ao lago hoje — ela disse certa noite, após uma longa exposição sobre os méritos de diversas uvas que até mesmo Carolina podia ver que Pietro havia irremediavelmente confundido. — Mas a porta estava trancada.

— Sim — Pietro disse, sem se alterar.

Carolina colocou a faca junto ao prato e ergueu os olhos para o rosto de Pietro.

— Acho que gostaria de ter uma chave — ela lhe disse. Sua mão cobriu a dela sobre a toalha de mesa de renda grossa.

— Não é seguro para você ir sozinha — ele disse.

Quando ela não respondeu, ele ergueu a mão até seu rosto, traçou a curva de seu queixo, inclinou-se para beijá-la e perguntou:

— O que importa onde você esteja, se não pode ver?

 

*

Seus dedos roçaram pelos braços de Carolina, até suas mãos, que ele pegou na sua e levantou. Quando soltou seus dedos, eles pousaram nas teclas de uma nova máquina. Carolina estremeceu.

— O que é? — sussurrou.

— É uma máquina de escrever — ele respondeu, a voz baixa e gentil, como se não quisesse assustar um animal arredio. — Olhe.

Ele cobriu a mão direita de Carolina com a sua própria e pressionou seu indicador para baixo. A tecla sob o dedo cedeu. Ali perto, algo bateu no papel com uma pancada firme.

— Essa é uma letra — ele sussurrou.

— Que letra é? — ela sussurrou também.

— A — ele respondeu. Ele espalhou seus dedos por duas fileiras de teclas. — Há uma para cada letra. Vinte e uma ao todo — ele disse. Estão na ordem do alfabeto.

Carolina retirou suas mãos das dele e correu os dedos pelas teclas desconhecidas. Os braços de Turri ainda a envolviam por trás. Um leve calor pulsava através de sua camisa fina e colete.

Ela pressionou outra.

— Esta é uma letra? — perguntou.

Turri balançou a cabeça. Seu queixo roçou sua face.

— Não me diga — ela disse. Deixando um dedo na tecla, ela contou dali para trás, até o começo da fileira, e depois contou de volta outra vez. — G — falou.

— Funciona com duas folhas — Turri disse. — Uma é papel preto, coberto de fuligem. A tecla faz uma impressão através dela para a folha seguinte.

— Você esculpiu as letras em madeira? — Carolina perguntou.

— Não — Turri disse. — Eu as roubei de uma pequena prensa que meu pai me deu há anos, quando ele ainda achava que eu poderia me tornar alguma coisa.

— Então, se parece com um livro?

— Com uma página arrancada — Turri disse.

Após o G que ela já havia apertado, Carolina bateu nas teclas R e A em rápida sucessão. Teve que procurar o Z por um instante, seguido rapidamente pelo I e pelo E.

Então, virou-se para ele, agarrou-o pelo casaco e puxou-o. Com uma pressa desajeitada, ele ajoelhou-se no chão ao seu lado. Por um longo instante, o único som que ela podia ouvir era o da respiração dele. Em seguida, delicadamente, ele virou seu queixo de modo que os lábios dela pudessem encontrar os seus. Na mente de Carolina, o teto acima de suas cabeças se abriu de par em par sobre uma enorme dobradiça, expondo o aposento para o céu límpido.

 

*

— Carolina — Sophia disse —, você precisa me deixar tomar emprestada a máquina do meu marido. Todo mundo fala sobre isso, mas eu nunca a vi.

— Nem eu — Carolina disse.

Turri riu, depois se deixou cair no silêncio geral. Na água, os músicos começaram a tocar uma música espanhola.

— É um presente tão estranho — a mãe de Carolina disse.

— O que o fez pensar nisso?

— Devia lhe perguntar por que ele fez um balão com os lençóis do meu enxoval — Sophia disse.

— E funcionou? — Pietro disse. — Eu sempre quis voar num balão.

— Ela se recusou a sequer colocar o pé nele — Turri disse.

— Eu enviei o Antonio este verão.

— O que ele viu? — Pietro perguntou.

— Não quis me contar — Turri disse.

— Bem, deixe-o responder minha pergunta — a mãe de Carolina disse.

— Por que uma máquina de escrever?

— Por que se inventa alguma coisa? — Turri perguntou-lhe.

— Sim, mas uma máquina de escrever — a mãe de Carolina insistiu. Era de se imaginar que você construísse um aparelho que a fizesse enxergar.

— Sou um cientista — Turri disse. — Não um santo.

 

*

Pela primeira vez desde que ficara cega, ela correu.

A paisagem ao redor se envergava em sua mente. Em um momento, a casa e as árvores estavam exatamente onde sempre estiveram. No seguinte, as estrelas brilhavam sob seus pés e estranhas montanhas assomavam a distância. De algum modo, ela conseguiu descer a encosta até a beira do rio. Usando o barulho da água como guia, continuou ao longo da margem, agarrando-se aos juncos para manter o equilíbrio. Este era o caminho mais longo, mas o único que não a deixaria vagando em círculos pela floresta. Eles podiam arrancar as estacas da trilha que ela fizera, mas não podiam mudar o curso do rio até seu lago.

Depois do ancoradouro de Pietro, o capim da beira do rio subia até sua cintura e açoitava suas mãos. Carolina enrolou as mãos machucadas nas dobras da capa e seguiu em frente até o capim dar lugar a arbustos espinhosos e árvores indomadas. Com a cabeça abaixada, ela avançou atabalhoadamente, a capa prendendo-se e rasgando-se nos galhos invisíveis. Finalmente, o mato cedeu lugar à lama que começou a curvar-se em um longo arco. Ela chegara ao lago.

Com as mãos estendidas, prosseguiu ao longo da margem oposta, marcando seu progresso entre as árvores. Encontrou as gêmeas através de um palpite certo, tomou uma direção com base na maneira como os troncos se abriam em galhos e localizou a muda de carvalho logo abaixo na margem, e depois dela o grosso carvalho. A macieira conduziu-a em frente pelo cheiro adocicado das frutas apodrecidas no solo, derrubadas pelos ventos de outono.

Dali, eram apenas alguns passos pelo meio dos galhos do salgueiro que se inclinava sobre a ponte para o seu lado do lago. Um instante depois, ela encontrara o corrimão, um tronco fino que a guiou acima da ligeira elevação da barragem onde o rio murmurava baixinho, conforme se recobrava após a queda do lago.

Agora, ela conhecia o caminho. Até quando criança, ela poderia ter dado esses últimos passos com os olhos fechados. Seguiu os juncos da beira d'água até encontrar o lugar onde seu pai os mandara arrancar para criar um ancoradouro. Então, virou-se e galgou a ligeira subida até sua casa. Seus cálculos inconscientes foram exatos: ao estender a mão para o corrimão das escadas da cabana, ele estava exatamente onde ela esperava.

Lá dentro, um soluço curto, furioso, escapou de seu peito. Deixou a capa cair dos ombros e livrou-se dos sapatos. Suas saias ainda estavam pesadas de lama e sereno, mas ela enrolou-se sob as cobertas frias mesmo assim. A escuridão avançou e a submergiu como uma onda.

 

*

Quando acordou novamente, era de manhã. Os pássaros comemoravam nas árvores e uma abelha desorientada zumbia de parede a parede dentro da casa.

Carolina franziu o cenho. Depois, achou que Turri devia estar lá afinal de contas, observando-a dormir.

— Olá? — ela disse. Ele não respondeu.

Carolina afastou as cobertas e fez uma rápida investigação: o pequeno tapete junto ao sofá, a escrivaninha atulhada com os livros dele, a cadeira, tudo vazio. Ela saiu para o topo da escada.

Um pássaro deslanchou um chamado longo, espalhafatoso, seguido imediatamente por um coro de zombarias e louvações que desapareceu gradualmente na conversa geralmente educada da floresta: pequenas notícias passadas entre vizinhos, saudações, comentários fortuitos.

— Turri — ela disse.

A palavra ricocheteou pelo lago e morreu nos galhos na margem distante.

Carolina voltou para dentro de casa e deixou a porta bater com força atrás de si. Os cortes em suas mãos e braços, despertados pelo movimento, começaram a doer. Deixou-se afundar no sofá.

Do lado de fora, passos cruzaram a grama molhada e subiram os degraus. A porta abriu-se de par em par.

— Turri — Carolina disse, levantando-se.

— Não — respondeu Pietro.

 

*

Pietro conduziu-a à carruagem e ajudou-a a entrar. Em seguida, subiu, sentou-se ao seu lado e estendeu o braço para bater na porta.

A carruagem começou a andar.

Carolina pôde sentir a carruagem dar a volta no pátio, descer até a linha de árvores e virar na estrada principal. Ela conhecia a descida da colina e a subida da seguinte, de onde a casa de Turri contemplava a plantação de seu pai. Ela passou pelos longos limites da propriedade de Turri sem virar a cabeça, mas, quando a carruagem atingiu o topo da colina seguinte, ela fechou os olhos e olhou pela janela.

O mundo inteiro que carregava com ela desenrolou-se em sua mente: as colinas douradas do vale, folhas escuras de limoeiros refletindo o céu azul e, além deles, a neve caindo em areias desertas, um barco singrando um oceano negro, homens marchando sobre folhas de outono, crianças brigando por seus lugares em um desfile, mulheres girando em uníssono em uma dança. Acima de tudo isso, um pequeno pássaro dava voltas sob as estrelas que ela criara, tão alto que ela sabia que mais ninguém no mundo podia vê-lo.


EPÍLOGO

— O que é? — o homem à escrivaninha perguntou. Seus cabelos continuavam tão negros quanto haviam sido quando criança, mas toda a juventude havia deixado seus olhos. A escrivaninha estava atulhada de tabelas e contas, e de uma seleção de instrumentos científicos que não fariam nenhum sentido para um cientista: um decantador com o gargalo curvo como um cisne; um complicado sextante; uma balança onde um lingote de ouro dividia o espaço em uma difícil tolerância com um punhado de pedras pretas brutas que brilhavam à luz da lareira.

O homem que o interrompera era um estranho e um criado, com roupas urbanas.

— Signor Turri? — ele perguntou. — Pellegrino Turri?

— Era meu pai — o outro homem disse, levantando-se. — Sou Antonio.

— Prazer em conhecê-lo — disse o criado. — Tenho uma entrega para seu pai. Um legado.

— Sinto muito, mas ele está morto — Antonio disse.

O criado ergueu as sobrancelhas, apenas levemente surpreso com os caprichos do destino.

— Nesse caso, acho que deve ser entregue ao senhor — ele disse. — Tem um irmão?

— Não — Antonio respondeu.

— O senhor pode assinar o recebimento? Antonio assentiu.

O criado atravessou o aposento e colocou o pacote sobre a escrivaninha. Era do tamanho de uma pilha de quatro ou cinco livros, enrolado em um pano sujo.

— Da Contessa Carolina Fantoni — ele disse no que sem dúvida era seu tom oficial. — A ser devolvido a Pellegrino Turri após sua morte. Sua voz adquiriu um tom de confidência. — Faz seis semanas. O advogado demorou um pouco a encontrá-lo.

— Moro aqui a minha vida inteira — Antonio disse.

— Sabe como são os homens da cidade — o criado disse. — Acham que qualquer coisa fora dos muros da cidade é território selvagem.

Enquanto falava, ele desatou alguns nós que prendiam o pano encardido. Os trapos soltaram-se, revelando uma pequena máquina, construída de delicados pinos com uma letra de metal na ponta, manchada com digitais sujas de fuligem.

— O que acha que é? — o criado perguntou.

— É uma máquina de escrever — Antonio disse, sentando-se outra vez para examiná-la melhor. — Meu pai a construiu.

O criado tocou uma das fileiras duplas de teclas. Um pino saltou para frente. Ele retirou a mão abruptamente.

— Para quê? — perguntou.

— Para que uma mulher cega pudesse escrever cartas — Antonio respondeu.

— A condessa! — o criado exclamou. Na emoção da descoberta, estendeu a mão para a máquina outra vez.

— Tem algum recibo para eu assinar? — Antonio perguntou. O criado retirou a mão para revirar os bolsos. Após um instante, apresentou um papel amarrotado.

— Isso mesmo — ele disse, colocando-o sobre a mesa, ao lado da máquina. Indicou o lugar com dois dedos. — Aqui — falou.

Antonio puxou o papel para ele, assinou-o sem floreios e devolveu-o. Em seguida, abriu uma gaveta, encontrou uma moeda e entregou-a ao criado. O homem abriu um sorriso e virou-se para ir embora.

— Você a conheceu? — Antonio perguntou.

O homem virou-se novamente.

— Não exatamente, senhor, não — ele disse. — Mas a conhecia de vista.

Ela viveu na cidade toda a sua vida, desde que se casou. — Esses eram sem dúvida os únicos fatos que ele sabia com certeza, mas ele hesitou, talvez se perguntando se poderia ganhar alguma coisa inventando outros mais.

— Obrigado — Antonio disse.

O criado lançou um último olhar à máquina, curiosidade misturando-se a nostalgia. Então, tocou no chapéu e saiu.

Depois que a porta se fechou atrás dele, Antonio colocou as palmas das mãos de cada lado da máquina, como se verificasse se não havia um coração pulsando. Acionou algumas teclas aleatoriamente e as varetas com pontas de impressão dançaram alegremente. Então, levantou a máquina da mesa, virou-se para a lareira e deixou-a cair no fogo.

Levou mais tempo do que ele imaginava para a madeira antiga pegar fogo. Por longos instantes, a máquina permaneceu intacta entre as chamas azuis e amarelas. Então, o fogo a encontrou e a forma graciosa foi obscurecida por uma efusão de ouro. Depois que a primeira explosão de fogo retrocedeu, as delicadas varetas de impressão continuaram a queimar por vários minutos, até que a madeira carbonizada cedeu e as brilhantes letras de metal caíram através da grade e desapareceram em cinzas brancas.

FIM

 

CAREY WALLACE cresceu numa cidade pequena em Michigan. Trabalhou como garçonete, biógrafa e também como criada de uma herdeira do ramo automovel. Fundadora do Hillbilly, The Underground — um refúgio que atrai artistas internacionais para a zona rural de Michigan —,vive em Brooklyn, Nova York. "A condessa cega e a máquina de escrever" é o seu primeiro romance.
 

Sobre a invenção da máquina de escrever - Estamos a 7 de janeiro de 1714 quando Henry Mills, um engenheiro da empresa britânica River Company,regista a patente de uma "máquina ou método artificial para a impressão ou transcrição de letras, individual ou progressivamente, uma após outra", Ou seja, uma máquina de escrever. O dispositivo, que Mills dizia ter construído com grande dificuldade e grandes custos, foi, porém, apenas o primeiro de muitos do género. A complicação do mecanismo e os custos inviabilizavam praticamente o seu êxito comercial. Há, aliás, poucos pormenores sobre a invenção. A criação de Henry Mills foi, portanto, um primeiro marco. O seguinte surgiria quase um século depois, em 1808, quando o italiano Pellegrino Turri inventou a primeira máquina de escrever que se provou ter funcionado, para a sua amiga cega condessa Carolina da Fivizzono. Em 1843 seria a vez de Charles Turber criar, também ele, uma máquina que permitia aos cegos lerem e escreverem através de séries de letras gravadas em relevo.  [José Cardoso in Revista do Expresso, 3-Jan-2015]


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excerto de:

A Condessa Cega e a Máquina de Escrever
= Uma história da Itália do século XIX =
autora: Carey Wallace
título original: The Blind Contessa's New Machine, 2010
tradução: Geni Hirata

 


 

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[12.Jan.2015]
Publicado por MJA