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 Sobre a Deficiência Visual

 

A Sinfonia Pastoral

André Gide

Michèle Morgan encarna a personagem cega no filme 'Sinfonia Pastoral'
Michèle Morgan em 'La Symphonie Pastorale' (1946)

 

PRIMEIRO CADERNO

10 de Fevereiro de 189...

A NEVE, que há três dias cai ininterruptamente, bloqueia as estradas. Não pude ir a R..., onde, há quinze anos, tenho o hábito de celebrar o culto, duas vezes por mês. Esta manhã, apenas trinta fiéis se reuniram na capela de La Brévine.

Aproveitarei o ócio que me traz esta clausura forçada para voltar atrás e contar como fui levado a me ocupar de Gertrude.

Planejei escrever aqui tudo o que diz respeito à formação e ao desenvolvimento daquela alma piedosa, que, a meu ver, só fiz sair das trevas para a adoração e o amor. Bendito seja o Senhor por me haver confiado essa tarefa.

Há dois anos e seis meses, quando eu voltava de La-Chaux-de-Fonds, uma meninazinha que eu nunca vira veio me procurar às pressas para me levar a sete quilómetros daqui, junto a uma pobre velha que morria. O cavalo não havia sido desatrelado, fiz a criança subir no cabriolé, depois de me munir de uma lanterna, pois imaginei não poder retornar antes da noite.

Eu acreditava conhecer perfeitamente todos os arredores da comuna mas, depois da fazenda de Saudraie, a criança me fez seguir por um caminho pelo qual nunca me havia aventurado até então. Reconheci entretanto, a dois quilômetros dali, à esquerda, um pequeno lago misterioso onde, na juventude, fora patinar algumas vezes. Havia quinze anos que não o revia, já que nenhum dever pastoral me leva para aqueles lados; não saberia mais dizer onde ficava e a tal ponto deixara de pensar nele que, repentinamente, no encantamento rosa e ouro da tarde, ao reconhecê-lo me pareceu só tê-lo visto anteriormente em sonhos.

A estrada seguia o rio que fugia, cruzando a extremidade da floresta, correndo depois às margens de uma turfeira. Eu certamente nunca estivera ali.

O sol se punha e seguíamos há muito tempo na penumbra quando enfim minha jovem guia me mostrou com o dedo, na subida de uma colina, um casebre que se poderia crer desabitado, não fosse um débil filete de fumaça que se desvanecia, azulando-se à sombra e amarelecendo depois contra o dourado do céu. Prendi o cavalo a uma macieira próxima e fui então ter com a criança ao quarto sombrio onde a velha acabara de morrer.

A seriedade da paisagem, o silêncio e a solenidade da hora me haviam trespassado. Uma mulher ainda jovem estava ajoelhada perto da cama. A criança, que eu havia tomado pela neta da defunta, mas que era apenas sua criada, acendeu uma vela fumacenta e se postou então imóvel aos pés da cama.

Durante todo o longo percurso eu tentara conversar, mas não conseguira arrancar-lhe nada.

A mulher ajoelhada levantou-se. Não era uma parente, como a princípio supus, mas simplesmente uma vizinha, uma amiga, que a criada fora procurar ao ver sua patroa enfraquecer, e que se oferecera para velar o corpo... A velha, disse-me ela, se extinguira sem sofrimento. Pusemo-nos de acordo sobre as providências a tomar para o enterro e a cerimônia fúnebre. Como tantas vezes antes, nesta região perdida, cabia a mim decidir tudo.

Não me agradava a ideia, confesso, de deixar aquela casa, por mais pobre que fosse a sua aparência, aos cuidados apenas daquela vizinha e daquela criada criança. Não me parecia absolutamente provável, no entanto, que houvesse em algum recanto daquela miserável habitação algum tesouro escondido... E o que poderia eu fazer?

Perguntei, entretanto, se a velha não deixava nenhum herdeiro.

A vizinha apanhou então a vela, que dirigiu para uma pequena lareira, e pude distinguir, acocorado sobre a laje, um ser indefinido, que parecia adormecido. A espessa massa de seus cabelos cobria-lhe quase que inteiramente o rosto.

― Esta menina cega. Uma sobrinha, pelo que diz a criada. É a que se reduz a família, parece. Será preciso colocá-la no asilo, senão não sei o que poderá lhe acontecer.

Eu me chocava por ouvir decidir assim a sua sorte diante dela, preocupado com o sofrimento que aquelas palavras brutais lhe poderiam causar.

― Não a acorde ― disse mansamente, para convidar a vizinha, pelo menos, a baixar a voz.

― Oh! Não creio que durma, mas é uma idiota, não fala e não compreende nada do que se diz. Estou neste quarto desde a manhã e ela praticamente não se moveu. A princípio achei que fosse surda, a criada diz que não, mas simplesmente que a velha, ela própria surda, nunca lhe dirigia a palavra, nem a ninguém mais, não abrindo a boca havia muito tempo a não ser para que o senhor...

― Que idade tem ela?

― Uns quinze anos, suponho. Mas não sei mais do que o senhor...

Não me veio imediatamente a ideia de tomar eu mesmo conta daquela pobre abandonada, mas depois de ter rezado ― ou mais exatamente durante a prece que fiz, entre a vizinha e a pequena criada, ambas ajoelhadas à cabeceira da cama, eu também ajoelhado ― pareceu-me subitamente que Deus colocava em meu caminho uma espécie de obrigação, e que eu não poderia me furtar a ela sem certa covardia. Quando me levantei, estava tomada minha decisão de levar a criança naquela mesma noite, ainda que não me houvesse claramente perguntado o que faria dela a seguir, nem a quem a confiaria. Permaneci ainda alguns instantes a contemplar o rosto adormecido da velha, cuja boca enrugada e funda parecia repuxada como os cordões de uma sacola de avarento, instruída para nada deixar escapar. Depois, voltando-me na direção da cega, comuniquei à vizinha minha intenção.

― Será melhor que ela não esteja mesmo aqui amanhã, quando vierem buscar o corpo ― disse ela. E foi tudo.

Muitas coisas se fariam facilmente, sem as quiméricas objeções que os homens se comprazem às vezes em inventar. Desde a infância, quantas vezes somos impedidos de fazer isto ou aquilo que desejaríamos, simplesmente porque escutamos repetir à nossa volta: ele não poderá fazê-lo...

A cega deixou-se levar como uma massa involuntária. Os traços de seu rosto eram regulares, bastante bonitos, mas absolutamente inexpressivos. Eu apanhara um cobertor no enxergão onde ela habitualmente devia repousar, num canto do quarto, sob uma escada interna que levava ao celeiro.

A vizinha mostrara-se prestativa e me ajudara a embrulhá-la cuidadosamente, pois a noite, muito clara, estava fresca, e, depois de acender a lanterna do cabriolé, parti levando encolhido contra mim aquele embrulho de carne sem alma e do qual eu só percebia a vida pela comunicação de um calor tenebroso. Durante todo o caminho, eu pensava: ela dorme? E em que negro sono...

E em que a vigília difere aqui do sono? Hóspede deste corpo opaco, uma alma sem dúvida aguarda, emparedada, que venha enfim, tocá-la algum raio de vossa graça, Senhor! Permitireis que meu amor, talvez, afaste dela as terríveis trevas?...

Preocupo-me demais com a verdade para calar sobre a dolorosa acolhida que tive de suportar em minha volta ao lar. Minha mulher é um jardim de virtudes e, mesmo nos momentos difíceis que nos aconteceu por vezes atravessar, não pude duvidar nem por um instante da qualidade de seu coração, mas sua caridade natural não gosta de ser surpreendida. É uma pessoa disciplinada, que cuida de não ir além, não mais do que de não ficar aquém do dever. Sua própria caridade é medida, como se o amor fosse um tesouro esgotável. Este é o nosso único ponto de divergência...

Seu primeiro pensamento, ao me ver voltar naquela noite com a menina, escapou-lhe nesse grito:

― Do que mais ainda você foi se ocupar?

Como todas as vezes em que deve haver uma explicação entre nós, comecei por fazer saírem as crianças que ali estavam, boquiabertas, cheias de interrogação e surpresa. Ah! Quão longe estava aquela acolhida da que eu poderia ter desejado. Apenas a minha pequena Charlotte começou a dançar e a bater palmas quando compreendeu que algo novo, algo vivo, iria sair do cabriolé.

Mas os outros, já adestrados pela mãe, trataram rapidamente de esfriá-la e de fazê-la voltar à seriedade.

Houve um momento de grande confusão. E como nem minha mulher nem as crianças sabiam ainda que estavam diante de uma cega, não compreendiam o extremo cuidado que eu tomava para guiar seus passos. Eu mesmo fiquei muito embaraçado com os estranhos gemidos que começou a lançar a pobre enferma tão logo minha mão abandonou a sua, que eu segurara por todo o trajeto. Seus gritos nada tinham de humano, dir-se-iam os ganidos queixosos de um cãozinho. Arrancada pela primeira vez do estreito círculo de sensações costumeiras que constituíam todo o seu universo, seus joelhos se dobravam sob ela, mas, quando empurrei uma cadeira em sua direção, deixou-se cair por terra, como alguém que não soubesse sentar-se; levei-a então ao pé da lareira, e ela recuperou um pouco de calma ao poder se acocorar, na posição em que eu primeiro a vira ao pé da lareira da velha, apoiada na guarda da laje. Já no cabriolé ela se deixara deslizar para baixo do assento e fizera toda a viagem encolhida a meus pés. Minha mulher, apesar de tudo, me ajudava, ela em quem o movimento natural é sempre o melhor. Mas sua razão ininterruptamente luta e com frequência a conduz contra seu coração.

― O que você pretende fazer disto? ― recomeçou ela depois que a menina estava instalada.

Minha alma estremeceu ao ouvir o emprego daquele neutro, e me foi difícil dominar um movimento de indignação. Entretanto, ainda imbuído de minha longa e tranquila meditação, me contive e, voltado para todos eles que novamente nos rodeavam, uma das mãos pousada sobre a fronte da cega:

― Trago a ovelha desgarrada ― disse, com o máximo de solenidade que pude.

Mas Amélie não admite que possa haver nada de insensato ou de exagerado no ensinamento do Evangelho.

Vi que ela ia protestar e foi então que fiz um sinal a Jacques e Sarah que, acostumados às nossas pequenas desavenças conjugais, e ademais pouco curiosos por natureza (com frequência até mesmo insuficientemente, na minha opinião), saíram com os dois menores. Depois, como minha mulher permanecia ainda confusa e um pouco exasperada, parecia-me, com a presença da intrusa:

― Pode falar diante dela ― acrescentei ― a pobre criança não compreende nada.

Amélie começou então a afirmar que não tinha nada a me dizer ― o que é o prelúdio habitual das explicações mais longas -, e que só tinha que se submeter como sempre ao que eu pudesse inventar de menos prático e de mais contrário aos costumes e ao bom senso. Já escrevi que não me havia absolutamente definido quanto ao que pretendia fazer com aquela criança. Eu ainda não entrevira, senão muito vagamente, a possibilidade de instalá-la em nosso lar e posso quase dizer que foi Amélie quem primeiro me sugeriu essa ideia quando me perguntou se eu achava que "não éramos já bastantes na casa". Depois ela declarou que eu sempre ia em frente sem nunca me preocupar com a resistência dos que me seguiam, que quanto a ela já lhe parecia que cinco filhos eram suficientes, que desde o nascimento de Claude (que exatamente naquele momento, como que ouvindo seu nome, pôs-se a berrar em seu berço) ela tinha "a sua quota" e que se sentia exausta.

Às primeiras frases de seu ataque, algumas palavras de Cristo me subiram do coração aos lábios, que no entanto contive, pois me pareceu sempre impróprio abrigar minha conduta atrás da autoridade do livro santo.

Mas desde que argumentou com seu cansaço fiquei embaraçado, pois reconheço que me aconteceu mais de uma vez deixar pesar sobre minha mulher as consequências dos impulsos irrefletidos de minha devoção. Contudo, aquelas recriminações me esclareceram quanto ao meu dever; supliquei então muito suavemente a Amélie que examinasse se em meu lugar ela não teria agido da mesma forma e se lhe teria sido possível deixar ao abandono um ser que evidentemente não tinha mais em quem se apoiar; acrescentei que não me iludia quanto à carga de novos trabalhos que o cuidado com aquela hóspede enferma acrescentaria às preocupações domésticas, e que meu pesar era de não poder secundá-la com mais frequência. Enfim, acalmei-a o melhor que pude, suplicando-lhe também de não deixar recair sobre a inocente um ressentimento que esta nada fizera por merecer. Depois, fiz-lhe notar que, de ora em diante, Sarah estaria em idade de ajudá-la mais, Jacques de não precisar de seus cuidados. Em suma, Deus colocou em minha boca as palavras necessárias para ajudá-la a aceitar o que estou certo teria assumido de boa vontade, se o acontecimento lhe tivesse dado tempo de refletir e se eu não houvesse daquela forma disposto de sua vontade pela surpresa.

Eu julgava a partida praticamente ganha, e já minha cara Amélie se aproximava afavelmente de Gertrude. Mas subitamente sua irritação explodiu com mais violência quando, tendo apanhado a lanterna para examinar um pouco a criança, ela se apercebeu de seu estado de sujeira indescritível.

― Mas é uma imundície ― exclamou. ― Escove-se, escove-se rápido. Não, aqui não. Vá se sacudir lá fora. Ai, meu Deus As crianças vão ficar cobertas disto. Não há nada no mundo de que eu tenha mais medo do que de piolhos e vermes.

Inegavelmente, a pobrezinha estava cheia deles: e eu não pude me defender de um movimento de repugnância ao me lembrar que a havia tão longamente apertado contra mim no cabriolé.

Ao voltar dois minutos mais tarde, depois de me ter limpo o melhor que pude, encontrei minha mulher desabada sobre uma poltrona, a cabeça entre as mãos, presa de uma crise de soluços.

― Não pensava submeter sua paciência a uma prova com esta ― disse-lhe ternamente. ― Seja como for, é tarde, e não se pode ver suficientemente. Ficarei de vigília para cuidar do fogo junto ao qual dormirá a menina. Amanhã nós lhe cortaremos os cabelos e a lavaremos devidamente. Você só começará a se ocupar dela quando puder olhá-la sem horror. ― E implorei-lhe que nada dissesse sobre aquilo às crianças.

Era hora de cear. Minha protegida, em cuja direção nossa velha Rosalie, sempre nos servindo, lançava inúmeros olhares hostis, devorou avidamente o prato de sopa que lhe estendi. A refeição foi silenciosa. Eu teria apreciado contar minha aventura, falar às crianças, emocioná-las fazendo-as compreender e sentir a estranheza de uma miséria tão absoluta, excitar sua piedade, sua simpatia para com aquela que Deus nos convidava a recolher; mas receei reavivar a irritação de Amélie. Parecia que havia sido dada a ordem para ignorar e esquecer o acontecido, ainda que certamente nenhum de nós pudesse pensar em outra coisa.

Fiquei extremamente emocionado quando, mais de uma hora depois que todos se deitaram e que Amélie me deixara só na sala, vi minha pequena Charlotte entreabrir a porta, avançar mansamente, de camisola e descalça, e se atirar então a meu pescoço, e me abraçar com selvageria, murmurando:

― Eu não dei boa-noite direito.

Depois, baixinho, mostrando com a ponta de seu dedinho a cega que descansava inocentemente e que ela sentira curiosidade de rever antes de se entregar ao sono:

― Por que é que eu não a beijei?

― Você a beijará amanhã. Por enquanto, vamos deixá-la. Ela está dormindo ― disse-lhe, acompanhando-a até a porta.

Voltei então a me sentar e trabalhei até a manhã, lendo e preparando meu próximo sermão.

Sem dúvida, eu pensava (lembro-me), Charlotte se mostra hoje muito mais afetuosa do que seus irmãos mais velhos, mas cada um deles, naquela idade, não me enganou a princípio? Meu grande Jacques, mesmo, hoje tão distante, tão reservado... Acreditamos que são ternos, eles são bajuladores e indolentes.


27 de Fevereiro.

A NEVE continuou a cair abundantemente esta noite. As crianças estão encantadas porque em breve, dizem elas, seremos obrigados a sair pelas janelas. O facto é que esta manhã a porta está bloqueada e só se pode sair pela lavanderia. Ontem, certifiquei-me de que a aldeia tinha provisões suficientes, pois sem dúvida ficaremos algum tempo isolados do resto da humanidade.

Este não é o primeiro Inverno em que a neve nos bloqueia, mas não me lembro de haver jamais visto sua barreira tão espessa. Aproveito para continuar a narrativa que iniciei ontem.

Disse que não me havia feito muitas perguntas, quando trouxe aquela enferma, sobre que lugar ela poderia ocupar na casa. Conhecia a pouca resistência de minha mulher, sabia o lugar de que poderíamos dispor e nossos recursos, muito limitados. Agira, como faço sempre, tanto por disposição natural quanto por princípios, sem absolutamente pensar em calcular a despesa que me arriscava a acarretar com meu impulso (o que sempre me pareceu anti-evangélico). Mas uma coisa é confiar em Deus e outra é transferir a carga para os braços de outrem. Verifiquei em pouco tempo que havia colocada nos braços de Amélie uma árdua tarefa, tão árdua que me senti embaraçado a princípio.

Eu a havia ajudado o melhor que podia a cortar os cabelos da menina, o que percebia claramente que ela já fazia com repugnância. Mas quando se tratou de lavá-la e limpá-la, precisei deixar que minha mulher o fizesse, e compreendi que os cuidados mais pesados e mais desagradáveis estavam fora de meu alcance.

Apesar de tudo, Amélie não mais emitiu o menor protesto. Parecia que havia refletido durante a noite e que se resignara com aquela nova carga, ela parecia até mesmo encontrar ali algum prazer e eu a vi sorrir após haver terminado de arrumar Gertrude. Uma touca branca cobria a cabeça raspada sobre a qual eu aplicara uma pomada, algumas roupas antigas de Sarah e roupa branca limpa substituíram os sórdidos farrapos que Amélie acabara de atirar ao fogo. Este nome de Gertrude foi escolhido por Charlotte e aceito por todos nós de imediato, na ignorância do verdadeiro nome, do qual a própria órfã não tinha conhecimento e que eu não sabia como descobrir. Ela devia ser um pouco mais jovem do que Sarah, de modo que as roupas que esta deixara de usar há um ano serviam-lhe bem.

Preciso confessar aqui a profunda decepção em que me senti afundar nos primeiros dias. Sem dúvida eu criara todo um romance em torno da educação de Gertrude e a realidade me obrigava a destruí-lo. A expressão indiferente, obtusa, de seu rosto, ou, mais ainda, sua absoluta inexpressividade, congelava desde a nascente minha boa vontade. Ela permanecia o dia inteiro junto ao fogo, na defensiva, e assim que ouvia nossas vozes, sobretudo assim que nos aproximávamos dela, seus traços pareciam endurecer-se; não deixavam de ser inexpressivos a não ser para mostrarem hostilidade; ao mínimo esforço que fizéssemos para atrair-lhe a atenção, começava a gemer, a grunhir como um animal. Esse amuo somente cedia à aproximação da refeição, que eu mesmo lhe servia e sobre a qual ela se atirava com uma avidez bestial das mais penosas a se observar. E, assim como ao amor responde o amor, eu me sentia invadir por um sentimento de aversão, diante da recusa obstinada daquela alma.

Sim, realmente, confesso que nos primeiros dez dias cheguei a desesperar, e até mesmo a me desinteressar dela a ponto de lamentar meu impulso inicial e de ter desejado nunca havê-la trazido. E acontecia algo curioso, era que, um pouco triunfante diante desses sentimentos que eu não podia esconder-lhe inteiramente, Amélie prodigalizava seus cuidados ainda mais e com mais boa vontade, parecia, desde que sentia que Gertrude se me tornava um fardo e que sua presença entre nós me mortificava.

Assim eu me encontrava quando recebi a visita de meu amigo, o doutor Martins, de Val Travers, por ocasião de uma de suas rondas de doentes. Ele interessou-se muito pelo que eu lhe disse sobre o estado de Gertrude, espantou-se enormemente a princípio de que ela se houvesse mantido retardada àquele ponto, não sendo afinal senão cega, mas expliquei-lhe que à sua enfermidade se somava a surdez da velha, única a até então haver cuidado dela e que não lhe falara jamais, de modo que a pobre criança havia permanecido num estado de total abandono. Ele me persuadiu de que, sendo este o caso, eu estava errado em desesperar, e não estava agindo de maneira adequada.

― Você quer começar a construir ― disse-me, antes de se ter assegurado da solidez do terreno. ― Pense que tudo é caos naquela alma e que nem mesmo os primeiros esboços estão definidos. Trata-se, para começar, de enfeixar algumas sensações tácteis e gustativas e de justapor-lhes, como uma etiqueta, um som, uma palavra, que você repetirá para ela, exaustivamente, e que então tentará conseguir que ela repita.

― Acima de tudo, não tente avançar rapidamente demais, ocupe-se dela a intervalos regulares, e nunca por muito tempo de cada vez...

― Aliás este método ― acrescentou ele, depois de me havê-lo exposto minuciosamente ― nada tem de feitiçaria. Não o estou absolutamente inventando e outros já o aplicaram. Você não se lembra? À época em que estudávamos filosofia juntos, nossos professores, a propósito de Condillac e sua estátua animada, já nos falavam de um caso análogo a este... A menos ― disse ele, corrigindo-se ― que eu tenha lido isso mais tarde, numa revista de psicologia... Não importa, o caso me impressionou e lembro-me até do nome da pobre criança, ainda mais desprovida que Gertrude, pois era cega e surda-muda, que um médico de não sei mais qual condado da Inglaterra recolheu, em meados do século passado. Seu nome era Laura Bridgman. O médico havia feito anotações, como você deveria fazer, sobre os progressos da criança, ou pelo menos, no início, de seus esforços para educá-la.

Ao longo de dias e semanas, ele se obstinou em fazê-la tocar e apalpar alternativamente dois pequenos objetos, um alfinete e uma caneta, e depois tocar num papel impresso em caracteres para cegos o relevo das duas palavras inglesas: PIN e PEN. E, durante semanas, não obteve nenhum resultado. O corpo parecia inabitado. Contudo, não perdia a confiança. Eu me via como alguém, narrava ele, que, debruçado sobre a boca de um poço profundo e negro, agitasse desesperadamente uma corda, na esperança de que enfim uma mão a agarrasse. Pois ele não duvidou nem por um instante de que houvesse alguém lá, no fundo do abismo, e de que aquela corda seria finalmente agarrada. E um dia, afinal, viu aquele rosto impassível de Laura se iluminar numa espécie de sorriso. Acredito que naquele momento lágrimas de reconhecimento e amor correram de seus olhos e que ele caiu de joelhos para agradecer ao Senhor. Laura acabava de subitamente compreender o que o médico esperava dela. Salva-la. A partir daquele dia ela prestou atenção, seus progressos foram rápidos, em breve se instruía por si mesma, e mais tarde tornou-se diretora de um instituto para cegos ― a menos que se trate de outra... pois outros casos ocorreram recentemente, dos quais as revistas e os jornais se ocuparam longamente, rivalizando-se na surpresa, um tanto tolamente em minha opinião, de que tais criaturas pudessem ser felizes. Porque é um facto: cada uma daquelas enclausuradas era feliz, e, tão logo lhes foi possível se exprimir, foi para dizer de sua felicidade. Naturalmente os jornalistas se extasiavam, extraíam dali um ensinamento para aqueles que, "gozando" de seus cinco sentidos, têm ainda a audácia de se lamentar...

Aqui teve início uma discussão entre Martins e eu, que me opunha a seu pessimismo e não admitia que os sentidos, como ele parecia admitir, servissem unicamente, afinal, para nos angustiar.

― Não é nada disto que penso ― protestou ele. Quero simplesmente dizer que a alma do homem imagina mais facilmente e mais naturalmente a beleza, a liberdade e a harmonia, do que a desordem e o pecado que por todo lado obscurecem, aviltam, maculam e destroem este mundo, e sobre os quais nos informam e simultaneamente nos ajudam a contribuir nossos cinco sentidos. De tal modo que, mais facilmente, eu faria observar o Fortunatos nimium de Virgílio, o si sua mala nascient, do que o si sua bona norint que nos é ensinado: quão felizes seriam os homens, se pudessem ignorar o mal?

Ele me falou então de um conto de Dickens, que acreditava ter sido diretamente inspirado no exemplo de Laura Bridgeman e que prometeu enviar-me em breve.

E, quatro dias depois, realmente recebi "O Grilo na Lareira" (The Cricket on the Hearth, um dos mais famosos Contos de Natal, de Charles Dlckens, primeira edição em 1845. (N. da T.), que li com profundo prazer. É a história, um pouco longa, mas patética em algumas passagens, de uma jovem cega a quem o pai, pobre fabricante de brinquedos, mantém na ilusão do conforto, da riqueza e da felicidade, mentira que a arte de Dickens se esmera em fazer passar por piedosa mas que, Deus seja louvado, não precisarei usar com Gertrude.

Desde o dia seguinte ao que Martins me veio visitar, comecei a pôr em prática seu método e dediquei-me a ele o máximo que pude. Lamento agora não haver tomado notas, como ele me havia aconselhado, dos primeiros passos de Gertrude naquela estrada crepuscular, na qual eu mesmo inicialmente só podia guiá-la às apalpadelas. Foi preciso, nas primeiras semanas, mais paciência do que se poderia imaginar, não apenas devido ao tempo que exigia aquela primeira educação, mas também às censuras a que ela me expôs. É penoso para mim precisar dizer que estas censuras me vinham de Amélie; e, ademais, se as menciono aqui, é porque não conservei nenhuma animosidade, nenhuma amargura ― afirmo-o solenemente para o caso em que mais tarde estas páginas sejam lidas por ela. (O perdão às ofensas não nos é ensinado por Cristo imediatamente após a parábola sobre a ovelha desgarrada?) Direi mais: mesmo nos momentos cm que mais me faziam sofrer suas censuras, eu não podia querer-lhe mal por desaprovar o longo tempo que eu dedicava a Gertrude. O que eu mais lhe reprovava era o não confiar em que meus cuidados pudessem alcançar algum sucesso. Sim, era aquela falta de fé que me afligia, sem no entanto me desencorajar. Com que frequência tive de ouvi-la repetir: "Se ao menos você fosse chegar a algum resultado..." E ela permanecia obtusamente convencida de que meu trabalho era em vão, de modo que naturalmente lhe parecia impróprio que eu consagrasse àquela obra um tempo que ela pretendia sempre seria melhor empregado diversamente. E, a cada vez que eu me ocupava de Gertrude, ela encontrava um meio de me observar que não sei quem ou... o que esperava então por mim, e que eu dedicava àquela um tempo que deveria dar a outrem. Enfim, creio que uma espécie de ciúme materno a movia, pois ouvi-a dizer-me mais de uma vez: "Você nunca se ocupou tanto com algum de seus próprios filhos." O que era verdade, pois, se amo muito meus filhos, nunca considerei que devesse ocupar-me muito deles.

Várias vezes verifiquei que a parábola da ovelha desgarrada permanece como uma das mais difíceis de serem admitidas por certas almas, que entretanto se crêem profundamente cristãs. Que cada ovelha do rebanho, individualmente, possa aos olhos do pastor ser mais preciosa por si só do que todo o resto do rebanho em conjunto, eis o que não conseguem chegar a compreender. E estas palavras: "Se um homem possui cem ovelhas e uma delas se desgarra, não deixa ele as noventa e nove outras nas montanhas para ir em busca daquela que se desgarrou?" ― estas palavras resplandescentes de caridade, se delas ousassem falar com franqueza, as declarariam da mais revoltante injustiça.

Os primeiros sorrisos de Gertrude me consolavam de tudo e pagavam meus cuidados ao cêntuplo. Pois "aquela ovelha, se o pastor a encontra, eu vos digo em verdade, ela lhe traz mais alegria do que as noventa e nove outras que nunca se desgarraram". Sim, eu o digo em verdade, nunca sorriso algum de meus filhos inundou-me o coração de uma alegria assim seráfica como o fez aquele que vi despontar naquele rosto de estátua, certa manhã em que bruscamente ela pareceu começar a compreender e a se interessar pelo que eu me esforçava para ensinar-lhe, há tantos dias.

Cinco de Março. Registrei esta data como a de um nascimento. Era menos um sorriso do que uma transfiguração. Repentinamente seus traços se animaram, foi como que uma claridade súbita, semelhante àquela luz purpúrea nos altos Alpes que, precedendo a aurora, faz vibrar o cume coberto de neve, que ela destaca e retira da noite; dir-se-ia uma coloração mística; e pensei igualmente na piscina de Bethesda, no instante em que o anjo desce e vem acordar a água adormecida. Senti uma espécie de êxtase diante da expressão angelical que Gertrude adquiriu subitamente, pois pareceu-me que o que a visitava naquele instante não era tanto a inteligência quanto o amor. E então um tal impulso de reconhecimento me inundou, que se me afigurou estar oferecendo a Deus o beijo que depositei sobre aquela bela fronte.

Tanto quanto esse primeiro resultado havia sido difícil de conseguir, os progressos imediatamente posteriores foram rápidos. Esforço-me hoje para rememorar os caminhos pelos quais prosseguimos; parecia-me às vezes que Gertrude avançava aos saltos, como que para zombar dos métodos. Lembro-me de que insisti inicialmente sobre as qualidades dos objetos, mais do que sobre sua variedade: o quente, o frio, o morno, o doce, o amargo, o áspero, o macio, o leve..., depois sobre os movimentos: afastar, aproximar, levantar, cruzar, deitar, enlaçar, dispersar, reunir, etc. E logo, abandonando qualquer método, atrevi-me a conversar com ela sem me inquietar demasiado sobre se seu espírito me acompanhava, mas lentamente convidando-a e provocando-a a me questionar à vontade. Indubitavelmente um trabalho se fazia em seu espírito durante o tempo em que eu a abandonava a si mesma, pois, a cada vez que a reencontrava, era com uma nova surpresa, e me sentia separado dela por trevas menos densas. É exatamente assim, eu me dizia, que a tepidez do ar e a insistência da primavera triunfam pouco a pouco sobre o Inverno. Quantas vezes não admirei a maneira como derrete a neve: dir-se-ia que o manto se desgasta por baixo, e seu aspecto continua o mesmo. A cada Inverno, Amélie se deixa surpreender e me declara: a neve continua a mesma, acreditamos que ainda está espessa, e ei-la já que cede e, repentinamente, aqui e ali, deixa reaparecer a vida.

Receando que Gertrude se estiolasse por ficar todo o tempo junto ao fogo, como uma velha, eu começava a fazê-la sair. Mas ela só consentia em passear pelo meu braço. Sua surpresa e temor iniciais, tão logo deixou a casa, permitiram-me compreender, antes que ela me soubesse dizê-lo, que nunca antes se havia aventurado ao exterior. No casebre onde eu a havia encontrado, ninguém se ocupara dela a não ser para dar-lhe de comer e ajudá-la a não morrer, pois não ouso dizer: a viver.

Seu universo obscuro era delimitado pelas próprias paredes daquele único quarto de onde nunca havia saído; no máximo se aventurava, nos dias de verão, até a soleira da porta, quando esta estava aberta para o grande universo luminoso. Ela contou-me mais tarde que, ouvindo o canto dos pássaros, o imaginava então como um puro efeito da luz, assim como aquele calor que sentia acariciar suas faces e suas mãos, e que, sem aliás refletir com exatidão, parecia-lhe muito natural que o ar quente começasse a esquentar, assim como a água começa a ferver junto ao fogo. A verdade é que ela não havia se preocupado em nada com aquilo, que não prestava atenção a nada e vivia num torpor profundo, até o dia em que comecei a ocupar-me dela. Lembro-me de seu inesgotável encantamento quando lhe ensinei que aquelas pequenas vozes emanavam de criaturas vivas, cuja única função parece ser, sentir e exprimir a alegria dispersa da natureza. (Foi desde esse dia que ela se habituou a dizer: estou alegre como um pássaro.) E, no entanto, a ideia de que aqueles cantos falavam do esplendor de um espetáculo que ela não podia contemplar, começava a torná-la melancólica.

― É realmente verdade ― dizia ela ― que a terra é assim tão bela como contam os pássaros? Por que não fala mais sobre ela? Por que não me fala dela? Será por temor de me magoar pensando que não a posso ver?

Estaria errado. Escuto tão bem os pássaros, acho que compreendo tudo o que dizem.

― Os que podem vê-los não os compreendem tão bem quanto você, minha Gertrude ― disse-lhe eu esperando consolá-la.

― Por que os outros animais não cantam? ― recomeçou ela. Suas perguntas às vezes me surpreendiam e eu ficava por um instante perplexo, pois ela me obrigava a refletir sobre aquilo que, até então, eu havia aceito sem me admirar. Foi assim que considerei, pela primeira vez, que, mais o animal está ligado de perto à terra, mais ele é pesado, mais ele é triste. Foi o que me esforcei para fazê-la compreender, e falei-lhe do esquilo e de suas brincadeiras.

Ela me perguntou então se os pássaros eram os únicos animais que voavam.

― Há também as borboletas ― eu lhe disse.

― E elas cantam?

― Elas têm um outro modo de demonstrar sua alegria ― respondi-lhe. ― Ela está inscrita em cores em suas asas. ― E descrevi-lhe a miscelânea de matizes das borboletas.


28 de Fevereiro.

VOLTO atrás, pois ontem deixei-me arrebatar.

Para ensiná-lo a Gertrude, precisei eu mesmo aprender o alfabeto dos cegos, mas em breve ela se tornou muito mais hábil do que eu na leitura daqueles caracteres, nos quais me era bastante difícil me orientar e que, sobretudo, eu seguia mais facilmente com os olhos do que com as mãos. Aliás, não fui o único a ensiná-la.

E a princípio fiquei contente por ser secundado nessa função, pois tenho muito a fazer na comuna, cujas casas são por demais dispersas, de modo que minhas visitas aos pobres e doentes me obrigam algumas vezes a fazer percursos bastante grandes. Jacques conseguira quebrar um braço patinando por ocasião das férias de Natal, que viera passar junto a nós ― pois nesse meio tempo ele já havia retornado a Lausanne, onde já fizera seus primeiros estudos, e entrado para a faculdade de teologia. A fractura não apresentava nenhuma gravidade e Martins, que eu chamara imediatamente, pôde facilmente reduzi-la sem a ajuda de um cirurgião, mas as precauções a serem tomadas obrigaram Jacques a não sair de casa por algum tempo. Ele começou bruscamente a se interessar por Gertrude, que até então não havia levado em consideração, e dedicou-se a me ajudar a ensiná-la a ler. Sua colaboração durou apenas o tempo de sua convalescença, cerca de três semanas, mas durante as quais Gertrude fez sensíveis progressos. Um fervor extraordinário a estimulava agora. Aquela inteligência ontem ainda entorpecida parecia que, desde os primeiros passos e quase que antes de saber andar, se punha a correr. Admiro a pouca dificuldade que ela encontrava para formular seus pensamentos, e quão prontamente chegou a se exprimir de um modo não mais infantil, mas já correto, servindo-se, para ilustrar as ideias, da forma para nós mais inesperada e mais agradável, dos objetos que acabávamos de ensiná-la a conhecer, ou daquilo sobre o que lhe falávamos e lhe descrevíamos, quando não podíamos colocar diretamente ao seu alcance, pois nos servíamos sempre do que ela pudesse tocar ou sentir para explicar o que não pudesse atingir, procedendo à maneira dos telemetristas.

Mas considero inútil transcrever aqui todos os primeiros degraus daquela instrução que, sem dúvida, ocorrem na instrução de todos os cegos. Assim é que, para cada um deles, imagino, o problema das cores fez mergulhar cada mestre em igual embaraço. (E, sobre este assunto, fui levado a perceber que não há nenhuma referência a cores no Evangelho.) Não sei como se conduziram os outros; de minha parte comecei por nomear-lhe as cores do prisma na ordem em que o arco-íris as apresenta, mas de imediato estabeleceu-se em seu espírito uma confusão entre cor e claridade, e eu não me apercebia de que sua imaginação não conseguia fazer distinção alguma entre a qualidade da nuance e aquilo que os pintores chamam, creio, de "valor". Era-lhe extremamente difícil compreender que cada cor, de per si, pudesse ser mais ou menos intensa, e que elas pudessem, ao infinito, misturar-se entre si. Nada a intrigava mais, e ela voltava sem cessar ao assunto.

Nesse interim, tive a oportunidade de levá-la a Neuchâtel, onde pude fazê-la ouvir um concerto. o papel de cada instrumento na sinfonia permitiu-me voltar à questão das cores. Fiz com que Gertrude observasse as sonoridades diferentes dos metais, dos instrumentos de corda e dos de sopro, e que cada um deles, à sua maneira, é susceptível de oferecer, com Maior ou menor intensidade, toda a escala de sons, dos mais graves aos mais agudos. Convidei-a a imaginar igualmente, na natureza, as colorações vermelhas e alaranjadas análogas às sonoridades das trompas e dos trombones, as amarelas e verdes às dos violinos, violoncelos e baixos, as violetas e azuis invocadas ali pelas flautas, clarinetas e oboés. Uma espécie de deslumbramento interior veio então substituir suas dúvidas:

― Como deve ser belo ― repetia ela.

Depois, subitamente:

― Mas então: o branco? Não compreendo mais com que se parece o branco...

E percebi imediatamente o quanto minha comparação era precária.

― O branco ― tentei mesmo assim dizer-lhe ― é o limite agudo em que todos os tons se confundem, como o preto é o limite sombrio. ― Mas aquilo não me satisfez mais do que a ela, que me observou no mesmo instante que os instrumentos de sopro, os metais e os violinos permanecem distintos uns dos outros, no mais grave tanto quanto no mais agudo. Quantas vezes, como então, aconteceu-me ficar a princípio silencioso, perplexo, e buscando alguma comparação da qual me pudesse valer.

― Pois bem ― disse-lhe enfim ― imagine o branco como algo inteiramente puro, algo onde não há mais nenhuma cor, mas somente luz; o preto, ao contrário, como carregado de cor, até ser inteiramente obscurecido...

Relembro aqui esse fragmento de diálogo apenas como um exemplo das dificuldades com que eu me chocava assiduamente. Gertrude tinha de bom o de jamais fingir compreender, como com tanta frequência fazem as pessoas, que povoam assim seu espírito com dados imprecisos ou falsos, donde todos os raciocínios posteriores tornam-se então corrompidos. Enquanto não chegasse a ter uma ideia clara, cada noção permanecia para ela uma causa de inquietação e embaraço.

Pelo que eu disse mais acima, a dificuldade era Maior visto que, em seu espírito, as noções de luz e a de calor estiveram a princípio estreitamente unidas, de modo que tive enorme dificuldade em dissociá-las a seguir. Desta forma, eu percebia incessantemente através dela o quanto o mundo visual difere do mundo dos sentidos e a que ponto qualquer comparação que tentamos transpor de um para o outro é precária.


29 de Fevereiro.

OCUPADO em minhas comparações, nada disse ainda do imenso prazer que Gertrude obteve daquele concerto em Neuchâtel. Executava-se precisamente A Sinfonia Pastoral ♫ - uma das nove sinfonias de Ludwig van Beethoven. Digo "precisamente" porque não há, compreende-se facilmente, outra obra que eu mais pudesse ter desejado fazê-la ouvir. Muito tempo depois de termos deixado o salão de concertos, Gertrude permanecia ainda silenciosa e como mergulhada em êxtase.

― Será que realmente o que vocês vêem é tão belo quanto isto? ― disse ela finalmente.

― Tão belo quanto o quê, minha querida?

― Quanto aquela cena às margens do riacho.

Não lhe respondi imediatamente, pois refletia que aquelas harmonias inefáveis exprimiam, não o mundo como ele era, mas como poderia ter sido, como poderia ser sem o mal e sem o pecado. E nunca ainda eu ousara falar a Gertrude sobre o mal, o pecado, a morte.

― Os que têm olhos ― disse enfim ― não conhecem sua felicidade.

― Mas eu que não os tenho ― exclamou ela de imediato ― eu conheço a felicidade de ouvir.

Ela se estreitava contra mim ao caminhar, e pesava em meu braço como fazem as criancinhas.

― Pastor, será que sente como sou feliz? Não, não, não digo isto para agradá-lo. Olhe para mim, será que não se vê no rosto, quando o que se diz não é verdade? Eu o reconheço muito bem pela voz. Lembra-se do dia em que me respondeu que não havia chorado, depois que minha tia (era assim que ela chamava minha mulher) lhe censurou por não saber fazer nada para ela?

Eu exclamei: "Pastor, o senhor mentiu" Oh! Eu havia sentido imediatamente em sua voz que o senhor não me dizia a verdade, não precisei tocar seu rosto para saber que havia chorado. ― E ela repetiu bem alto: "Não, eu não precisava tocar seu rosto" ― o que me fez enrubescer, porque estávamos ainda na cidade e os transeuntes se voltaram. Entretanto ela continuava:

― Não é preciso tentar me iludir, veja. Primeiro porque seria muita covardia tentar enganar uma cega... E depois porque não adiantaria ― acrescentou ela rindo. ― Diga-me, pastor, o senhor não é infeliz, não é mesmo?

Levei sua mão a meus lábios, como para fazê-la sentir sem lhe confessar que parte de minha felicidade vinha dela, respondendo-lhe:

― Não, Gertrude, não sou infeliz. Como seria eu infeliz?

― Mas o senhor chora às vezes, apesar disto?

― Chorei algumas vezes.

― Não desde a vez em que falei?

― Não, não chorei novamente, desde então.

― E o senhor não sente mais vontade de chorar?

― Não, Gertrude.

― E, diga-me... aconteceu-lhe, desde então, ter vontade de mentir?

― Não, querida criança.

― Pode me prometer jamais tentar me enganar?

― Eu prometo.

― Muito bem. Diga-me imediatamente: eu sou bonita?

Aquela pergunta brusca me embaraçou, ainda mais porque eu absolutamente não quisera, até aquele dia, prestar atenção à inegável beleza de Gertrude; e considerava inteiramente inútil, além do mais, que ela própria tomasse conhecimento do fato.

― Que importa sabê-lo? ― disse-lhe de imediato.

― Esta é minha preocupação ― respondeu-me ela.

― Eu queria saber se não... como é que o senhor diz... se não destoo demais na sinfonia. A quem mais eu perguntaria isto, pastor?

― Um pastor não deve se preocupar com a beleza dos rostos ― disse eu, defendendo-me como podia.

― Porquê?

― Porque a beleza das almas lhe basta.

― O senhor prefere me deixar acreditar que sou feia ― disse ela então com um trejeito encantador; de modo que, não resistindo mais, exclamei:

― Gertrude, você bem sabe que é bonita.

Ela se calou e seu rosto adquiriu uma expressão muito grave, que não mais a abandonou até a volta.

Tão logo entrámos, Amélie encontrou o modo de me fazer sentir que desaprovava o emprego de meu dia.

Ela teria podido dizer-me antes, mas nos havia deixado partir, sem dizer uma palavra, conforme seu hábito de deixar fazer e se reservar a seguir o direito de reprovar.

Aliás, ela não me fez exatamente nenhuma censura, mas seu próprio silêncio era acusador, pois não teria sido natural que perguntasse o que havíamos ouvido, já que sabia que eu levara Gertrude ao concerto? A alegria daquela criança não teria sido aumentada pelo mínimo interesse que sentisse por seu prazer? Amélie aliás não se mantinha silenciosa, mas parecia empregar uma espécie de dissimulação, ao só falar de coisas totalmente sem interesse, e foi somente à noite, depois que os menores foram postos para dormir, que, chamando-a à parte e perguntando-lhe severamente:

― Você está zangada porque levei Gertrude ao concerto? ― obtive esta resposta:

― Você faz por ela o que não teria feito por nenhum dos seus. Era então sempre a mesma mágoa, e a mesma recusa em compreender que se festeja o filho que volta, mas não aqueles que permaneceram, como mostra a parábola; penalizava-me também não vê-la levar em conta a enfermidade de Gertrude, que não podia esperar outra festa além daquela. E se, providencialmente, eu tivera um tempo livre naquele dia, eu, que sou tão requisitado habitualmente, a censura de Amélie era ainda mais injusta já que ela sabia bem que cada um de meus filhos tinha ou um trabalho a fazer ou alguma ocupação que o prendia, e que ela própria, Amélie, não aprecia nem um pouco a música, de modo que, quando pudesse dispor de todo o seu tempo, não lhe ocorreria a ideia de ir ao concerto, ainda que fosse executado à nossa porta.

O que me atormentava ainda mais era que Amélie tivesse ousado dizer aquilo diante de Gertrude, pois embora eu houvesse chamado minha mulher à parte, ela havia elevado a voz o bastante para que Gertrude a ouvisse. Eu me sentia menos triste do que indignado e, alguns instantes mais tarde, Amélie nos tendo deixado, aproximando-me de Gertrude segurei sua mãozinha frágil e levando-a a meu rosto:

― Veja. Desta vez eu não chorei.

― Não, agora foi a minha vez ― disse ela, esforçando-se por me sorrir; e vi subitamente que o belo rosto que ela erguia para mim estava inundado de lágrimas.


8 de Março.

O ÚNICO prazer que me é possível proporcionar a Amélie é abster-me de fazer as coisas que lhe desagradam. Estes testemunhos de amor tão negativos são os únicos que me permite. A que ponto já amesquinhou minha vida, disto ela não se pode dar conta. Ah! Quisesse Deus que ela reclamasse de mim alguma acção difícil. Com que alegria eu realizaria por ela o temerário, o arriscado. Mas dir-se-ia que lhe repugna tudo o que não é habitual, de modo que o progresso na vida não é para ela senão acrescentar dias semelhantes ao passado.

Ela não deseja, nem sequer aceita de mim, virtudes novas, nem mesmo um desenvolvimento das virtudes reconhecidas. Olha com inquietação, quando não com reprovação, todo esforço da alma que deseja ver no cristianismo algo além de uma domesticação dos instintos.

Devo confessar que me havia completamente esquecido, estando em Neuchâtel, de ir pagar a nossa conta da retrosaria, como Amélie me havia pedido, e de trazer-lhe uma caixa de linhas. Mas logo fiquei muito mais zangado comigo mesmo do que ela mesma poderia ficar, e ainda mais porque eu me havia prometido de não deixar de fazê-lo, sabendo aliás que "aquele que é fiel nas pequenas coisas sê-lo-á também nas grandes", ― e receando as conclusões que ela pudesse tirar de meu esquecimento. Eu teria mesmo desejado que ela me fizesse alguma censura, pois nesse ponto eu certamente a merecia..

Mas, como sempre acontece, a mágoa imaginária sobrepunha-se à imputação precisa: ah! como a vida seria bela e nossa miséria suportável se nos contentássemos com os males reais sem dar ouvidos aos fantasmas e aos monstros de nosso espírito... Mas abandono-me a escrever aqui o que faria mais o assunto de um sermão (Mat., VI, 31: "Não tenhais o espírito inquieto" ). Foi a história do desenvolvimento intelectual e moral de Gertrude que comecei a traçar aqui. Volto a ela.

Esperava poder seguir aqui passo a passo aquele desenvolvimento, e havia começado a narrá-lo detalhadamente. Mas além de me faltar o tempo para anotar minuciosamente todas as fases, é-me extremamente difícil hoje reencontrar o encadeamento exato. Deixando-me levar pela narrativa, relatei primeiro as reflexões de Gertrude, as conversas com ela, muito mais recentes, e aquele que porventura vier a ler estas páginas espantar-se-á sem dúvida de ouvi-la exprimir-se desde logo com tanta correção e de raciocinar tão judiciosamente. Ocorre também que seus progressos foram de uma rapidez desconcertante: eu frequentemente admirava com que presteza seu espírito se apoderava do alimento intelectual que eu aproximava dela e de tudo o que pudesse se apossar, fazendo-o seu por um trabalho contínuo de assimilação e de maturação. Ela me surpreendia, precedendo sem cessar meu pensamento, ultrapassando-o, e frequentemente, de um encontro para outro, eu não mais reconhecia minha aluna.

Ao fim de poucos meses não mais parecia que sua inteligência houvesse estado inerte por tanto tempo. Ela já demonstrava também mais prudência do que a Maioria das jovens a quem o mundo exterior dissipa e cuja atenção é absorvida por inúmeras preocupações fúteis.

Além disto ela era, creio, sensivelmente mais velha do que havíamos acreditado a princípio. Parecia que tencionava tirar proveito de sua cegueira, de modo que eu chegava a considerar se, sob muitos aspectos, aquela enfermidade não se tornava vantajosa para ela. A contragosto eu a comparava a Charlotte e, quando às vezes cabia a mim fazê-la repetir seus deveres, vendo seu espírito distraído pela mínima mosca a voar, eu pensava: "E contudo, como ela me escutaria melhor, se não enxergasse". Não é preciso dizer que Gertrude era ávida por leituras; mas, preocupado em acompanhar o mais possível seu pensamento, eu preferia que não lesse muito ― ou, ao menos, não muito sem mim ― e principalmente a Bíblia, o que pode parecer bem estranho para um protestante. Explicar-me-ei quanto a isto, mas, antes de abordar um tema tão importante, quero relatar um pequeno facto ligado à música e que deve ser situado, tanto quanto me lembro, pouco tempo depois do concerto de Neuchâtel.

Sim, aquele concerto se dera, creio, três semanas antes das férias de verão que trariam Jacques para junto de nós. Naquela ocasião, mais de uma vez eu tivera a oportunidade de ver Gertrude sentar-se à frente do pequeno órgão de nossa capela, utilizado normalmente por Mlle de la M..., em cuja casa Gertrude vive atualmente. Louise de la M... ainda não havia iniciado a instrução musical de Gertrude. Apesar do amor que sinto pela música, não conheço muito a respeito e não me sentia capaz de ensiná-la, ao sentar-me a seu lado diante do teclado.

― Não, deixe-me ― disse-me ela, desde as primeiras tentativas. ― Prefiro experimentar sozinha.

E eu a deixava, ainda mais facilmente porque a capela não me parecia um lugar decente para me fechar a sós com ela, tanto por respeito ao lugar santo quanto por receio dos falatórios ― ainda que habitualmente eu me esforce por não levá-los em consideração; mas aqui trata-se dela e não mais somente de mim. Quando uma série de visitas me chamava àqueles lados, eu a levava até a igreja e, frequentemente, aí a deixava por longas horas, indo buscá-la na volta. Ela se dedicava assim pacientemente a descobrir harmonias, e eu a reencontrava ao fim da tarde, atenta, diante de algum acorde que a mergulhava num encantamento prolongado.

Num dos primeiros dias de Agosto, há pouco mais de seis meses atrás, não encontrando em casa uma pobre viúva a quem ia levar algum consolo, voltei para apanhar Gertrude na igreja onde a havia deixado; ela não me esperava tão cedo e fiquei extremamente surpreso por encontrar Jacques junto a ela. Nem um nem outro me havia ouvido entrar, pois o pouco ruído que fiz foi encoberto pelos sons do órgão. Não é absolutamente de minha natureza espionar, mas tudo o que se refere a Gertrude me inspira cuidados: abafando então o ruído de meus passos, subi furtivamente os poucos degraus da escada que leva ao púlpito, um excelente posto de observação. Devo dizer que, em todo o tempo que ali permaneci, não ouvi uma só palavra que um ou outro não teria dito igualmente em minha presença. Jacques estava junto a ela e, por várias vezes, vi que tomava sua mão para guiar seus dedos sobre as teclas. Não era estranho que ela aceitasse dele observações e uma direção que anteriormente me dissera preferir não receber? Eu estava mais surpreendido, mais magoado do que teria querido confessar a mim mesmo, e já pretendia intervir quando vi Jacques subitamente puxar o relógio.

― Está na hora de deixá-la, agora ― disse ele. Meu pai vai chegar em breve.

Vi-o então levar aos lábios a mão que ela lhe entregava, e ele partiu. Alguns instantes mais tarde, tendo descido a escada sem ruído, abri a porta da igreja de forma que ela pudesse ouvir e crer que eu acabava de entrar.

― E então, Gertrude? Pronta para voltar? O órgão vai bem?

― Vai, vai muito bem ― disse-me ela com a sua voz mais natural ― hoje fiz realmente alguns progressos.

Uma grande tristeza invadiu-me o coração, mas nenhum de nós fez alusão alguma ao que acabo de contar. Eu estava ansioso para ficar a sós com Jacques. Minha mulher, Gertrude e as crianças recolhiam-se em geral logo após a ceia, deixando-nos ambos a prolongar estudiosamente o serão. Eu esperava por aquele momento.

Mas ao dever falar-lhe senti o coração tão oprimido, e por sentimentos tão perturbadores, que não sabia ou não ousava abordar o assunto que me atormentava. E foi ele quem bruscamente rompeu o silêncio anunciando-me sua resolução de passar as férias inteiras connosco. Ora, poucos dias antes, ele nos havia comunicado um plano de viagem aos altos Alpes, que minha mulher e eu havíamos aprovado com prazer; eu sabia que meu amigo T..., que ele escolhera para companheiro, o esperava; tive também a clara sensação de que aquela reviravolta súbita não deixava de estar relacionada com a cena que acabara de surpreender. Uma violenta indignação me arrebatou a princípio, mas receando, se me entregasse a ela, que meu filho se fechasse definitivamente para mim, receando ainda vir a lamentar palavras demasiado fortes, fiz um grande esforço sobre mim mesmo e, no tom mais natural que consegui:

― Pensei que T... contava com você ― disse-lhe.

― Oh! ― respondeu-me ― ele não contava absolutamente e, aliás, não será difícil me substituir. Descanso tão bem aqui quanto em Oberland e realmente acho que posso ocupar melhor meu tempo aqui do que andando pelas montanhas.

― Enfim ― disse eu ― você encontrou aqui com que se ocupar? Ele me olhou, percebendo em meu tom de voz alguma ironia, mas, como ainda não distinguia o motivo, recomeçou com um ar despreocupado:

― O senhor sabe que sempre preferi os livros ao alpinismo.

― Sei, meu amigo ― repliquei olhando-o fixamente por minha vez ― mas você não acha que as lições de acompanhamento ao órgão apresentam ainda mais atrativo do que a leitura?

Certamente ele se sentiu enrubescer, pois levou a mão à testa, como para se proteger da claridade da lâmpada. Mas controlou-se quase imediatamente, e, numa voz que eu teria desejado menos segura:

― Não me acuse demais, meu pai. Minha intenção não era esconder-lhe nada, e o senhor se antecipou de muito pouco tempo à confissão que me preparava para fazer-lhe.

Ele falava gravemente, como se lê um livro, terminando as frases com tanta calma que parecia não se tratar dele próprio. O extraordinário controle sobre si mesmo que demonstrava acabou de me exasperar. Sentindo que eu ia interrompê-lo, ergueu a mão, como para me dizer: não, o senhor poderá falar depois, deixe-me terminar primeiro; mas agarrei-lhe o braço e, sacudindo-o:

― Mais do que vê-lo levar a inquietação à alma pura de Gertrude ― exclamei impetuosamente ― ah!, preferiria não vê-lo mais. Não preciso de suas confissões. Abusar da enfermidade, da inocência, da candura é uma abominável covardia da qual eu jamais acreditei que você fosse capaz. E me falar sobre isso com esse detestável sangue-frio... Escute-me bem: sou responsável por Gertrude e não suportarei mais um dia que você fale com ela, que a toque, que a veja.

― Mas, meu pai ― recomeçou ele no mesmo tom tranquilo e que me punha fora de mim ― acredite que respeito Gertrude tanto quanto o senhor mesmo o faz. O senhor está estranhamente enganado a meu respeito se imagina que existe seja o que for de repreensível, e não falo somente de minha conduta, mas em minhas intenções e no segredo de meu coração. Amo Gertrude, e a respeito, asseguro-lhe, tanto quanto a amo. A ideia de perturbá-la, de abusar de sua inocência e de sua cegueira parece-me tão abominável quanto ao senhor. ― E então ele afirmou que o que desejava ser para ela era um apoio, um amigo, um marido; que não considerara dever falar-me antes que sua resolução de desposá-la estivesse tomada; que desta resolução a própria Gertrude não tinha ainda conhecimento e que era a mim que desejara falar inicialmente. ― Eis a confissão que tinha para fazer ao senhor ― acrescentou ele ― e nada mais tenho a lhe revelar, acredite-me.

Aquelas palavras me encheram de estupor. Ao escutá-las, sentia minhas têmporas latejarem. Eu não havia preparado senão censuras e, à medida que ele me retirava qualquer razão de indignação, sentia-me cada vez mais desamparado, de tal modo que, ao fim de seu discurso, não encontrava nada mais para dizer.

― Vamos nos deitar ― disse afinal, depois de um longo silêncio. Eu me havia levantado e coloquei a mão em seu ombro. ― Amanhã direi o que penso de tudo isto.

― Diga-me ao menos que o senhor não está mais irritado comigo.

― Preciso da noite para refletir.

Quando reencontrei Jacques na manhã seguinte, pareceu-me realmente que o olhava pela primeira vez.

Percebi repentinamente que meu filho não era mais uma criança, mas um rapaz; enquanto eu o considerasse uma criança, aquele amor que havia surpreendido poderia parecer-me monstruoso. Passara toda a noite persuadindo-me de que, ao contrário, era absolutamente natural e normal. Onde estaria a causa de minha insatisfação, que só fizera aumentar? Eis o que só se deveria esclarecer para mim um pouco mais tarde. Enquanto aguardava, devia falar com Jacques e comunicar-lhe minha decisão. Mas um instinto tão forte quanto o da consciência me advertia de que era preciso impedir aquele casamento a qualquer preço.

Eu havia levado Jacques para os fundos do jardim, foi ali que lhe perguntei, inicialmente:

― Você se declarou a Gertrude?

― Não ― disse-me ele. ― Talvez ela já sinta o meu amor, mas eu absolutamente não o confessei.

― Muito bem. Você vai me prometer que não lhe falará ainda sobre isto.

― Meu pai, estou decidido a obedecer-lhe, mas não poderia conhecer seus motivos?

Eu hesitava em dá-los, não sabendo bem se os que me vinham primeiramente ao espírito eram realmente aqueles que deveriam ser colocados primeiro. Para dizer a verdade foi a consciência, bem mais do que a razão, quem ditou a minha conduta.

― Gertrude é jovem demais ― disse afinal. ― Lembre-se de que ela ainda não comungou. Você sabe que não é uma criança como as outras, infelizmente, e que seu desenvolvimento foi muito retardado. Ela seria sem dúvida extremamente sensível, confiante como é, às primeiras palavras de amor que ouvisse; é exatamente por que é importante não as dizer a ela. Apoderar-se daquilo que não tem defesa é uma covardia, sei que você não é um covarde. Seus sentimentos, você afirma, nada têm de repreensíveis; eu os considero culpados por serem prematuros. A prudência que Gertrude ainda não possui, cabe a nós tê-la por ela. É uma questão de consciência.

Jacques tem isto de excelente, bastam, para contê-lo, estas simples palavras: "Apelo para a sua consciência", palavras que usei com frequência em sua infância. Enquanto eu o olhava e pensava que, se pudesse vê-lo, Gertrude não deixaria de admirar aquele grande corpo esbelto, ao mesmo tempo tão direito e tão leve, aquela bela testa sem rugas, aquele olhar firme, aquele rosto infantil ainda, mas que uma repentina seriedade parecia ensombrar. Ele estava sem chapéu e seus cabelos louro cinzentados, que ele usava então bastante compridos, encaracolavam-se nas têmporas e ocultavam parte de suas orelhas.

― Há algo que desejo pedir-lhe ainda ― recomecei, levantando-me do banco onde nos havíamos sentado. Você planejava, segundo afirmou, partir depois de amanhã; peço-lhe que não adie esta partida. Você deveria se ausentar por um mês inteiro, peço-lhe que não diminua esta viagem em nem um dia. Estamos entendidos?

― Está bem, meu pai, eu obedecerei ao senhor.

Tive a impressão de que ele se tornava extremamente pálido, a ponto de até mesmo seus lábios se descolorirem. Mas persuadi-me de que, para uma submissão tão imediata, seu amor não deveria ser muito grande; e senti um alívio indescritível. E ademais, eu era sensível à sua docilidade.

― Reencontro o filho que amava ― disse-lhe suavemente e, puxando-o de encontro a mim, pousei meus lábios em sua testa. Houve da parte dele um ligeiro recuo, mas não me deixei afetar.


10 de Março.

NOSSA casa é tão pequena que somos obrigados a viver um pouco uns sobre os outros, o que é às vezes bastante inconveniente para o meu trabalho, embora eu tenha reservado no primeiro andar uma pequena saleta para onde posso me retirar e receber minhas visitas; inconveniente sobretudo quando quero falar com um dos meus em particular, sem no entanto dar à entrevista um tom por demais solene, como aconteceria naquela espécie de parlatório que as crianças chamavam brincando de o Lugar Santo, onde não lhes era permitido entrar; mas naquela manhã mesmo Jacques partira para Neuchâtel, onde deveria comprar seus sapatos de excursionista, e, como o dia estava muito bonito, as crianças, depois do almoço, saíram com Gertrude, que ao mesmo tempo as conduzia e era conduzida por elas. (Fico satisfeito em anotar aqui que Charlotte é especialmente atenciosa para com ela.) Fiquei então naturalmente a sós com Amélie para o chá, que tomamos sempre na sala comum. Era o que desejava, pois estava ansioso para falar-lhe. Acontece-me tão raramente estar a sós com ela que me sentia como que intimidado, e a importância do que tinha a lhe dizer me perturbava, como se se tratasse não das confissões de Jacques, mas das minhas próprias. Eu percebia também, ao precisar falar-lhe, a que ponto dois seres, vivendo afinal a mesma vida, e que se amam, podem permanecer (ou se tornar) um para o outro enigmáticos e fechados em si mesmos; as palavras, então, sejam aquelas que dirigimos ao outro, sejam as que nos são dirigidas pelo outro, soam lamentavelmente como golpes de sonda a nos advertir sobre a resistência daquela parede divisória que, se não se toma cuidado, se arrisca a ir-se tornando mais espessa...

― Jacques falou comigo ontem à noite e hoje pela manhã ― comecei, enquanto ela servia o chá ; e minha voz estava tão trémula quanto a de Jacques ontem estava segura. ― Ele me falou de seu amor por Gertrude.

― Ele fez bem em falar com você ― disse ela sem me olhar e continuando seu trabalho de dona-de-casa como se eu lhe anunciasse uma coisa inteiramente natural, ou mais ainda como se eu não lhe dissesse nada de novo.

― Ele me falou de seu desejo de desposá-la; sua resolução...

― Era de se prever ― murmurou ela erguendo ligeiramente os ombros.

― Então você desconfiava? ― perguntei um tanto nervosamente.

― Isso vinha vindo há muito tempo. Mas é uma espécie de coisa que os homens não sabem perceber.

Como não adiantaria nada protestar, e como aliás talvez houvesse alguma verdade em sua réplica, objetei simplesmente:

― Nesse caso, você bem poderia ter-me advertido.

Ela teve aquele sorriso um pouco crispado no canto dos lábios, com que algumas vezes acompanha e protege suas reticências, e, inclinando obliquamente a cabeça:

― Se eu devesse adverti-lo sobre tudo o que você não sabe perceber!

O que significava aquela insinuação? Era o que eu não sabia, nem queria procurar saber, e, seguindo adiante:

― Enfim, eu gostaria de ouvir o que você pensa disso.

Ela suspirou, e então:

― Você sabe, meu amigo, que nunca aprovei a presença desta criança entre nós.

Era-me difícil não me irritar vendo-a voltar daquele modo ao passado.

― Não se trata da presença de Gertrude ― repliquei; mas Amélie já continuava:

― Sempre achei que daí só poderiam resultar aborrecimentos.

Por um enorme desejo de conciliação, aproveitei-me do sentido da frase:

― Então você considera tal casamento um aborrecimento. Bem, era o que eu desejava ouvi-la dizer; ótimo que sejamos da mesma opinião. ― Acrescentei que aliás Jacques se havia curvado docilmente às razões que eu lhe havia exposto, de modo que ela não precisava mais se preocupar: ficara combinado que ele partiria amanhã para aquela viagem que deveria durar um mês inteiro.

― Como não desejo, tanto quanto você, que ele reencontre Gertrude aqui ao voltar ― disse eu enfim pensei que o melhor será confiá-la a Mlle de la M..., em cuja casa poderei continuar a vê-la, pois não escondo que assumi reais obrigações para com ela. Fui há pouco sondar a nova hospedeira, que só deseja nos ser agradável. Assim você será poupada de uma presença penosa. Louise de la M... cuidará de Gertrude; ela está encantada com o arranjo, já aprecia enormemente dar-lhe lições de harmonia.

Amélie parecia decidida a permanecer silenciosa, e continuei:

― Como é preciso evitar que Jacques vá se encontrar com Gertrude lá, sem que o saibamos, creio que será bom advertir Mlle de la M... da situação, não acha?

Eu tentava, com esta interrogação, obter alguma palavra de Amélie, mas ela mantinha os lábios selados como se houvesse jurado a si mesma nada dizer. E prossegui, não porque me restasse algo a acrescentar, mas porque não podia suportar seu silêncio:

― Ademais, Jacques voltará desta viagem talvez já curado de seu amor. Na idade dele, será que reconhecemos realmente nossos anseios?

― Oh! Nem sempre mesmo mais tarde os reconhecemos ― disse ela afinal, curiosamente.

Seu tom enigmático e sentencioso me irritava, pois sou por natureza demasiadamente franco para aceitar facilmente o mistério. Voltando-me para ela, pedi-lhe que explicasse o que queria dizer com aquilo.

― Nada, meu amigo ― respondeu ela tristemente. ― Eu só estava pensando que há pouco você pedia para ser advertido sobre o que não percebesse.

― E então?

― E então eu me dizia que não é fácil advertir.

Eu disse que tinha horror a mistérios e, por princípio, recuso-me aos subentendidos.

― Quando você quiser que eu compreenda, trate de se exprimir mais claramente ― repliquei de maneira talvez um pouco brutal, e que imediatamente lamentei pois vi por um instante seus lábios tremerem. Ela virou a cabeça e depois, levantando-se, deu alguns passos hesitantes e como que cambaleantes pela sala.

― Mas afinal, Amélie ― exclamei ― por que você continua a se desolar, agora que tudo está remediado?

Eu sentia que meu olhar a embaraçava e foi de costas, apoiando-me na mesa e com a cabeça entre as mãos, que lhe disse:

― Eu falei asperamente com você ainda agora. Perdão.

Então ouvi-a aproximar-se de mim, depois senti seus dedos pousarem docemente em minha cabeça, enquanto ela dizia, numa voz terna e cheia de lágrimas:

― Meu pobre amigo!

E logo depois ela deixou a sala.

As frases de Amélie, que então me pareciam misteriosas, esclareceram-se para mim pouco depois; narrei-as tal como me pareceram a princípio; e naquele dia eu somente compreendi que era tempo de que Gertrude partisse.


12 de Março.

EU ME havia imposto o dever de consagrar cotidianamente um pouco de tempo a Gertrude; eram, de acordo com as ocupações de cada dia, algumas horas ou alguns instantes. No dia seguinte ao que tivera aquela conversa com Amélie, eu estava bastante livre e, o bom tempo sendo convidativo, levei Gertrude num passeio pela floresta, até aquele recanto do Jura onde, através da cortina de galhos e para além da imensa região dominada, o olhar, quando o dia está claro, por sobre uma leve bruma, descobre o deslumbramento dos Alpes brancos. O sol já declinava à nossa esquerda quando atingimos o local onde tínhamos o hábito de nos sentar. Uma campina, de relva ao mesmo tempo rasteira e cerrada, se estendia a nossos pés; mais ao longe pastavam algumas vacas; cada uma delas, naqueles rebanhos das montanhas, traz um sino ao pescoço.

― Elas desenham a paisagem ― dizia Gertrude ao escutar seu retinir.

Ela me pediu, como em todos os passeios, que lhe descrevesse o local onde havíamos parado.

― Mas ― disse-lhe eu ― você já o conhece, é a orla de onde se vêem os Alpes.

― Pode-se vê-los bem, hoje?

― Vê-se todo o seu esplendor.

― O senhor me disse que eles eram um pouco diferentes a cada dia.

― Com que eu os compararei hoje? À sede de um dia claro de verão. Antes do anoitecer eles terão terminado de se dissolver no ar.

― Eu gostaria que o senhor me dissesse se há lírios na grande campina à nossa frente.

― Não, Gertrude, os lírios não crescem nestas alturas, talvez somente algumas espécies raras.

― Não aqueles que se chamam lírios do campo?

― Não há lírios no campo.

― Nem mesmo nos campos dos arredores de Neuchâtel?

― Não existem lírios do campo.

― Então por que o senhor nos diz: 'Olhai os lírios do campo"?

― Sem dúvida havia em seu tempo, para que Ele o tenha dito, mas as culturas dos homens fizeram-nos desaparecer.

― Lembro-me de que o senhor me disse mais de uma vez que o que esta terra mais necessita é de confiança e de amor. Não acha que com um pouco mais de confiança o homem voltaria a vê-los? Eu, quando ouço essa passagem, asseguro-lhe que os vejo. Vou descrevê-los para o senhor, quer? ― Dir-se-iam sinos de luz, grandes sinos de lápis-lázuli, plenos do perfume do amor e que o vento da tarde oscila. Por que o senhor me diz que eles não existem, à nossa frente? Eu os sinto. Vejo a campina repleta deles.

― Eles não são mais belos do que você os vê, minha Gertrude.

― Diga que não são menos belos.

― São tão belos quanto você os vê.

― "E em verdade vos digo que o próprio Salomão, em toda a sua glória, não estava vestido como um deles" ― disse ela, citando as palavras de Cristo, e ao ouvir sua voz tão melodiosa, pareceu-me que as escutava pela primeira vez. ― "Em toda a sua glória" ― repetiu ela pensativa, e ficou em silêncio por algum tempo, eu recomecei:

― Eu já disse a você, Gertrude, aqueles que têm olhos são os que não sabem olhar. ― E do fundo de meu coração eu ouvia elevar-se esta prece: "Eu vos dou graças, ó Deus, por revelardes aos humildes o que escondeis dos inteligentes"

― Se o senhor soubesse ― exclamou ela então numa exaltação de alegria ― se o senhor pudesse saber como eu imagino tudo isso facilmente. Veja. Quer que eu lhe descreva a paisagem?... Há atrás de nós, acima e ao redor de nós, os grandes pinheiros, com gosto de resina, com troncos grenás, com longos e sombrios galhos horizontais que se lamentam quando quer curvá-los o vento. A nossos pés, como um livro aberto, inclinado sobre a estante da montanha, a grande campina verde e matizada, que a sombra azula, que o sol doura, e cujas palavras precisas são flores ― gencianas, pulsatilas, ranúnculos, e os belos lírios de Salomão ― que as vacas vêm soletrar com seus sinos, e onde os anjos vêm ler, já que diz que os olhos dos homens estão fechados. Na parte inferior do livro, vejo um grande rio de leite, enfumaçado, enevoado, cobrindo todo um abismo de mistério, um rio imenso, sem outra margem senão, ao longe, bem longe à nossa frente, os belos Alpes resplandecentes... É lá onde deve ir Jacques. Diga-me: é verdade que ele parte amanhã?

― Deve partir amanhã. Ele disse a você?

― Ele não me disse, mas eu compreendi. Ele deverá ficar ausente por muito tempo?

― Um mês... Gertrude, eu queria perguntar-lhe... Por que você não me contou que ele vinha se encontrar com você na igreja?

― Ele foi encontrar-se lá comigo duas vezes. Oh! Não quero esconder-lhe nada. Mas receava magoá-lo.

― Você me magoaria não o dizendo.

Sua mão procurou a minha.

― Ele estava triste por partir.

― Diga-me, Gertrude... Ele disse a você que a amava?

― Ele não me disse, mas eu o sinto muito bem sem que me digam. Ele não me ama tanto quanto o senhor.

― E você, Gertrude, você sofre por vê-lo partir?

― Penso que é melhor que ele parta. Eu não poderia corresponder-lhe.

― Mas me diga: você sofre por vê-lo partir?

― O senhor sabe que é ao senhor que amo, pastor... Oh! Por que retira sua mão? Eu não lhe falaria assim se o senhor não fosse casado. Mas não se desposa uma cega. Então por que não poderíamos nos amar? Diga-me, pastor, o senhor acha que isto é mal?

― O mal nunca está no amor.

― Não sinto nada que não seja bom em meu coração. Eu não gostaria de fazer Jacques sofrer. Gostaria de não fazer ninguém sofrer... Gostaria de só dar felicidade.

― Jacques pensava pedir a sua mão.

― O senhor me deixaria falar com ele, antes que parta? Gostaria de fazê-lo compreender que deve renunciar a me amar. Pastor, o senhor compreende, não é, que não posso desposar ninguém? O senhor me deixará falar com ele, não é?

― Esta noite.

― Não, amanhã, no momento de sua partida...

O sol se punha num esplendor exaltado. O ar estava tépido. Nós nos havíamos levantado e, enquanto falávamos, retomamos o sombrio caminho da volta.


SEGUNDO CADERNO

25 de Abril.

PRECISEI abandonar por algum tempo este caderno.

A neve derreteu finalmente e, tão logo as estradas se tornaram novamente praticáveis, precisei cumprir com um grande número de obrigações que fora forçado a adiar durante o longo período em que nossa aldeia ficara bloqueada. Somente ontem pude reencontrar alguns instantes de lazer.

Na noite passada, reli tudo o que havia escrito aqui...

Hoje, que ouso chamar por seu nome o sentimento por tanto tempo inconfessado de meu coração, é-me difícil explicar como pude me enganar até agora; como certas palavras de Amélie, que reproduzi, podem ter-me parecido misteriosas; como, depois das inocentes declarações de Gertrude, pude ainda ter duvidado que a amava. Foi porque, simultaneamente, eu então não admitia reconhecer o amor lícito fora do casamento e porque, no sentimento que me atraía tão apaixonadamente para Gertrude, eu não admitia reconhecer fosse o que fosse de proibido.

A inocência de suas confissões, sua própria franqueza, me tranquilizavam. Eu me dizia: é uma criança. Um verdadeiro amor não seria sem confusão, sem rubores. E, de minha parte, eu me persuadia de que a amava como se ama uma criança enferma. Cuidava dela como se cuida de um doente ― e de um arrebatamento eu fizera uma obrigação moral, um dever. Sim, realmente, naquela tarde em que ela me falou como narrei, eu sentia a alma tão leve e tão alegre que me enganava ainda, e ainda ao reproduzir aquela conversa. E porque eu houvesse acreditado ser o amor repreensível, e porque considerasse que tudo o que é repreensível rebaixa a alma, não me sentindo absolutamente pesar a alma, eu não acreditava no amor.

Não somente reproduzi aquelas conversas tais como ocorreram, mas ainda as transcrevi numa disposição de espírito muito semelhante; para dizer a verdade, foi entretanto só ao relê-las esta noite que compreendi...

Logo após a partida de Jacques ― com quem eu deixara Gertrude falar, e que só voltou para os últimos dias de férias, parecendo fugir de Gertrude ou só lhe falar na minha frente ― nossa vida retomara seu curso tranquilo. Gertrude, como fora combinado, fora hospedar-se em casa da Mlle Louise, onde eu a ia visitar todos os dias. Mas, ainda por medo do amor, eu cuidava de não mais lhe falar sobre qualquer coisa que nos pudesse emocionar. Só lhe falava como pastor, e mais frequentemente na presença de Louise, ocupando-me sobretudo de sua educação religiosa e preparando-a para a comunhão, que ela acaba de fazer, na Páscoa.

No domingo de Páscoa comunguei, eu também.

Passaram-se quinze dias. Para minha surpresa, Jacques, que viera passar uma semana de férias connosco, não me acompanhou à Santa Mesa. E é com grande tristeza que devo dizer que Amélie, pela primeira vez desde nosso casamento, também se absteve. Parecia que ambos se tinham posto de acordo e houvessem resolvido, com sua deserção daquele encontro solene, obscurecer minha alegria. Uma vez mais, ali, felicitei-me por Gertrude não poder ver, de modo que eu estivesse sozinho para suportar o peso daquela sombra. Conheço Amélie bem demais para não ter sabido ver tudo o que havia de censura indireta em sua conduta. Não lhe acontece nunca desaprovar-me abertamente, mas ela faz questão de manifestar seu desagrado por uma espécie de isolamento.

Perturbou-me profundamente que uma mágoa de tal ordem ― quero dizer: que me repugna levar em consideração ― pudesse afetar a alma de Amélie a ponto de desviá-la de seus interesses superiores. E, na volta à casa, orei por ela com toda a sinceridade de meu coração.

Quanto à abstenção de Jacques, era devida a motivos bem diversos, que uma conversa, havida entre nós pouco tempo depois, veio esclarecer.


3 de Maio.

A INSTRUÇÃO religiosa de Gertrude levou-me a reler o Evangelho sob uma nova visão. Parece-me cada vez mais que grande parte das noções das quais se compõe nossa fé cristã se originam não das palavras de Cristo mas dos comentários de São Paulo.

Foi exatamente este o assunto da discussão que acabo de ter com Jacques. De temperamento um pouco seco, seu coração não fornece a seu pensamento alimento suficiente; ele se torna tradicionalista e dogmático. Reprova-me por escolher, na doutrina cristã, "o que me agrada". Mas não escolho esta ou aquela palavra de Cristo. Simplesmente, entre Cristo e São Paulo, escolho Cristo.

Por temor de devê-los opor um ao outro, ele se recusa a dissociar um de outro, recusa-se a sentir em um e outro uma diferença de inspiração, e protesta se lhe digo que aqui escuto um homem enquanto que lá ouço Deus. Mais ele reflete, mais me persuade do seguinte: que não é absolutamente sensível ao tom unicamente divino da menor palavra de Cristo.

Procuro através do Evangelho, procuro em vão mandamento, ameaça, proibição.... Tudo isto não existe senão em São Paulo. E é exatamente não encontrá-las nas palavras de Cristo que aborrece Jacques. As almas semelhantes à sua se crêem perdidas, desde que não sentem mais junto a si escoras, corrimões e grades. Ademais, toleram mal nos outros uma liberdade a que renunciam, e desejam obter por coação tudo o que estamos prontos a lhes conceder por amor.

― Mas meu pai ― diz-me ele ― eu também desejo a felicidade das almas.

― Não, meu amigo, você deseja a sua submissão.

― É na submissão que está a felicidade.

Deixo-lhe a última palavra porque me desagradam as discussões banais, mas sei bem que comprometemos a felicidade ao buscar obtê-la pelo que ao contrário não deve ser senão o efeito da felicidade ― e que, se é verdadeiro o pensamento de que a alma amante se regozija em sua submissão voluntária, nada a afasta mais da felicidade do que uma submissão sem amor.

Não obstante, Jacques raciocina bem, e se eu não sofresse por encontrar num espírito tão jovem, já tanta rigidez doutrinal, sem dúvida admiraria a qualidade de seus argumentos e a constância de sua lógica. Parece-me frequentemente que sou mais jovem que ele, mais jovem hoje do que fui ontem, e me repito esta passagem: "Se não vos tornardes semelhantes às criancinhas, não alcançareis o Reino."

Será trair Cristo, será diminuir, profanar o Evangelho, ver nele sobretudo um método para atingir a vida bem-aventurada? O estado de alegria, que nossa dúvida e a dureza de nossos corações impedem, para o cristão é um estado obrigatório. Todo o ser é mais ou menos capaz de alegria. Todo o ser deve aspirar à alegria. Um só sorriso de Gertrude me faz compreender tudo isto mais do que lhe podem ensinar minhas lições.

E estas palavras de Cristo se erguem luminosas diante de mim: "Se fosseis cegos, não teríeis pecado." O pecado, eis o que obscurece a alma, eis o que se opõe à sua alegria. A felicidade perfeita de Gertrude, que resplandece em todo o seu ser, vem do facto de que ela não conhece o pecado. Não há nela senão claridade e amor.

Coloquei entre suas mãos vigilantes os quatro evangelhos, os salmos, o apocalipse e as três epístolas de João, onde ela pode ler: "Deus é luz e nele não há trevas", como em seu evangelho já podia ouvir o Salvador dizer: "Eu sou a luz do mundo, aquele que estiver comigo não caminhará nas trevas". Recuso-me a dar-lhe as epístolas de Paulo, pois se, cega, ela não conhece o pecado, de que serviria inquietá-la deixando-a ler: "O pecado ganhou novas forças pelo mandamento" (Romanos, VII, 13) e toda a dialética que se segue, por mais admirável que seja?


8 de Maio.

O Dr. Martins veio ontem de La Chaux-de-Fonds. Examinou longamente os olhos de Gertrude ao oftalmoscópio. contou-me haver falado sobre Gertrude ao Dr. Roux, o especialista de Lausanne, a quem deverá transmitir as suas observações. O pensamento de ambos é que Gertrude seria operável. Mas combinamos não lhe dizer nada enquanto não houver uma maior certeza. Martins deverá vir me dar notícias após tê-lo consultado. De que serviria despertar em Gertrude uma esperança que nos arriscamos a precisar logo extinguir? Ademais, não é ela feliz como está?


10 de Maio.

NA Páscoa, Jacques e Gertrude se reviram, em minha presença ― ao menos Jacques reviu Gertrude e falou com ela, mas nada além de coisas insignificantes. Ele se mostrou menos emocionado do que eu teria podido recear, e novamente me persuado de que, se realmente ardente, seu amor não teria sido tão fácil de subjugar, ainda que Gertrude lhe tenha declarado, antes de sua partida no ano passado, que aquele amor deveria permanecer sem esperança. Constatei que ele se dirige agora a Gertrude num tratamento mais cerimonioso, o que certamente é preferível. Eu no entanto não lhe havia pedido que o fizesse, de modo que estou contente por ele ter compreendido por si mesmo. Há nele, incontestavelmente, muito de bom.

Suspeito entretanto que essa submissão de Jacques não se deu sem contestações e sem lutas. O deplorável é que a coação que ele precisou impor a seu coração lhe pareça agora boa em si mesma; ele desejaria vê-la imposta a todos; senti-o naquela discussão que tive com ele e que reproduzi mais acima. Não era La Rochefoucauld quem dizia que o espírito é frequentemente a vítima dos logros do coração? Obviamente não ousei observá-lo a Jacques de imediato, conhecendo seu humor e sabendo-o um daqueles a quem a discussão só faz obstinar em seus pontos de vista, mas naquela mesma noite, tendo encontrado, e precisamente em São Paulo (eu não poderia combatê-lo senão com suas próprias armas), como lhe responder, tive o cuidado de deixar em seu quarto um cartão onde ele pôde ler: "Que aquele que não come não julgue aquele que come, pois Deus acolheu este último." (Romanos, XIV, 3.)

Eu teria podido ainda copiar o que vem depois: "Sei e estou persuadido pelo Senhor Jesus que nada é impuro em si mesmo e que uma coisa só é impura para aquele que a crê impura" ― mas não ousei, receando que Jacques fosse imaginar em meu espírito, para com Gertrude, alguma interpretação injuriosa, que não deve sequer roçar seu espírito. Evidentemente, a referência aqui é a alimentos, mas a quantas outras passagens da Escritura não somos desafiados a atribuir duplo e triplo sentido? ("Se teus olhos...", a multiplicação dos pães, o milagre nas bodas de Canaã, etc.) Não se trata aqui de argumentação gratuita, o significado deste versículo é amplo e profundo: a restrição não deve ser ditada pela lei, mas pelo amor, e São Paulo, imediatamente a seguir, exclama: Mas se por causa de um alimento, teu irmão está triste, tu não caminhas de acordo com o amor." É na ausência do amor que nos ataca o Demónio. Senhor! Retirai de meu coração tudo o que não pertencer ao amor... Pois fiz mal em provocar Jacques: na manhã seguinte encontrei sobre minha mesa o mesmo cartão no qual havia copiado o versículo: no verso, Jacques havia simplesmente transcrito este outro versículo do mesmo capítulo: "Não causa com teu alimento a perda daquele por quem morreu Cristo." (Romanos, XIV, 15)

Reli uma vez mais todo o capítulo. É o ponto de partida para uma discussão infinita. E eu atormentaria com essas perplexidades, ensombreceria com essas nuvens o céu luminoso de Gertrude? Não estou mais perto de Cristo e não a mantenho também aí, quando lhe ensino e a deixo crer que o único pecado é aquele que atenta contra a felicidade de outrem, ou que compromete nossa própria felicidade?

Infelizmente certas almas permanecem particularmente refratárias à felicidade, inaptas, inábeis... Penso em minha pobre Amélie. Eu sem cessar a convido, a empurro, e gostaria de obrigá-la. Sim, eu gostaria de elevar todos até Deus. Mas ela sem cessar se esquiva, se fecha como algumas flores que nenhum sol faz desabrochar.

Tudo o que ela vê a inquieta e a aflige.

― O que quer, meu amigo? ― respondeu-me ela outro dia ― não me foi concedido ser cega.

Ah! como sua ironia é dolorosa e de quanta virtude necessito para não me deixar perturbar. E no entanto ela deveria compreender, parece-me, que essa alusão à enfermidade de Gertrude me fere profundamente. Ela me faz sentir, aliás, que o que mais admiro em Gertrude é sua mansidão infinita: jamais a ouvi formular a mínima queixa contra alguém. É verdade que não a deixo conhecer nada sobre o que poderia feri-la.

E assim como a alma feliz, pela irradiação do amor, propaga a felicidade ao seu redor, tudo se torna sombrio e lúgubre em torno de Amélie. Amiel escreveria que sua alma emite raios negros. Quando, após um dia de luta, de visitas aos pobres, aos doentes, aos aflitos, volto depois do anoitecer, exausto às vezes, o coração repleto de uma exigente necessidade de repouso, de afeto, de calor, com frequência não encontro em meu lar senão preocupações, recriminações, conflitos, aos quais eu preferiria o frio, o vento e a chuva lá de fora. Bem sei que nossa velha Rosalie só quer fazer o que lhe dá na cabeça, mas nem sempre está errada, e, principalmente, nem sempre Amélie tem razão ao querer fazê-la ceder. Bem sei que Charlotte e Gaspard são horrivelmente turbulentos, mas Amélie não obteria melhores resultados gritando um pouco menos alto e menos constantemente com eles?

Uma tal quantidade de recomendações, admoestações, reprimendas, perde toda a sua eficácia e aspereza, como acontece com os seixos das praias; as crianças se incomodam bem menos do que eu. Bem sei que os dentes do pequeno Claude começam a nascer (pelo menos é o que afirma sua mãe todas as vezes que ele começa a berrar), mas não é convidá-lo a berrar o acorrerem imediatamente, ela ou Sarah, e o mimarem sem parar? Continuo persuadido de que ele berraria com menos frequência se o deixassem algumas vezes, quando não estou em casa, gritar até perder o fôlego. Mas bem sei que é exatamente então que elas se apressam.

Sarah se parece com sua mãe, o que fez com que eu quisesse pô-la num internato. Ela não se parece em nada, infelizmente, com o que sua mãe era na sua idade, quando ficamos noivos, mas sim com aquela em quem a trasformaram as preocupações da vida, e eu ia dizer o cultivo das preocupações da vida (pois certamente Amélie as cultiva). Sem dúvida me é bem difícil reconhecer nela hoje o anjo que sorria outrora a cada nobre impulso de meu coração, a quem eu sonhava associar incondicionalmente à minha vida, e que me parecia preceder-me e guiar-me em direção à luz ― ou naquele tempo o amor me iludia?... Pois não descubro em Sarah outras preocupações que não as vulgares; a exemplo de sua mãe, ela se deixa afetar unicamente por preocupações mesquinhas; os próprios traços de seu rosto, que nenhuma chama interior espiritualiza, são inexpressivos e como que endurecidos. Nenhum gosto pela poesia, nem pela literatura em geral; nunca surpreendo, entre ela e sua mãe, conversas nas quais possa sentir vontade de tomar parte, e sinto meu isolamento ainda mais doloroso junto a elas do que quando me retiro para o escritório, como estou me habituando a fazer cada vez mais frequentemente.

Acostumei-me também, desde o Outono e encorajado pelo rápido cair da noite, a ir, sempre que as rondas de visitas me permitem, isto é, quando posso voltar cedo o bastante, tomar o chá em casa da Mlle de la M...

Ainda não disse que, desde Novembro último, Louise de la M... hospeda, além de Gertrude, três pequenas cegas que Martins lhe confiou, a quem Gertrude por sua vez ensina a ler e a executar diversos pequenos trabalhos, nos quais as meninazinhas demonstram bastante habilidade.

Que descanso, que reconforto para mim, sempre que entro na cálida atmosfera de La Grange, e de quanto me privo se às vezes devo passar dois ou três dias sem ir até lá. A Mlle de la M... tem meios suficientes, é claro, para hospedar Gertrude e suas três pequenas pensionistas, sem ter que se aborrecer ou se atormentar com sua manutenção; três criadas a auxiliam com grande dedicação e lhe poupam qualquer cansaço. Mas poder-se-ia dizer que nunca fortuna e tempo livre foram mais merecidos? Desde sempre, Louise de la M... se ocupou dos pobres, é uma alma profundamente religiosa, que parece apenas emprestar-se a esta terra e nela só viver para amar; apesar de seus cabelos já quase inteiramente prateados, emoldurados por uma touca de renda, nada mais infantil que seu sorriso, nada mais harmonioso que seus gestos, mais musical que sua voz. Gertrude adquiriu suas maneiras, seu modo de falar, uma espécie de entonação não somente da voz, mas do pensamento, de todo o ser ― semelhança sobre a qual gracejo com ambas, mas que nenhuma das duas aceita admitir. Como me é agradável, se tenho tempo para me retardar junto a elas, vê-las, sentadas uma junto à outra, e ter Gertrude, seja apoiando a cabeça no ombro de sua amiga, seja abandonando uma das mãos entre as dela, a me ouvir ler alguns versos de Lamartine ou de Hugo; como me é doce contemplar em suas duas almas límpidas o reflexo dessa poesia! Nem mesmo as pequenas alunas permanecem insensíveis... Crianças, naquela atmosfera de paz e de amor, desenvolvem-se curiosamente e fazem progressos notáveis.

Sorri, a princípio, quando a Mlle Louise falou em ensiná-las a dançar, por higiene tanto quanto por prazer, mas admiro hoje a graça ritmada dos movimentos que conseguem fazer e que não são, infelizmente, capazes de apreciar. Entretanto Louise de la M... me persuade de que, destes movimentos que não podem ver, elas sentem muscularmente a harmonia. Gertrude se associa a essas danças com graça e elegância encantadoras, e aliás diverte-se muito ao fazê-lo. Ou às vezes é Louise de la M... quem se junta à brincadeira das meninas, e Gertrude se senta então ao piano. Seus progressos em música foram surpreendentes, toca agora o órgão da capela todos os domingos, e precede os cânticos de rápidas improvisações.

Todos os domingos ela vem almoçar em nossa casa; meus filhos a revêem com prazer, apesar de seus interesses e os dela diferirem cada vez mais. Amélie não demonstra excessivo nervosismo e a refeição chega ao fim sem problemas. Toda a família acompanha então Gertrude e toma o lanche em La Grange. É uma festa para meus filhos, a quem Gertrude gosta de mimar e cumula de guloseimas. A própria Amélie, que não deixa de ser sensível às gentilezas, se descontrai enfim e parece rejuvenescida. Creio que ela dificilmente dispensaria a partir de agora esta parada no trem fastidioso de sua vida.


18 de Maio.

AGORA que os dias bonitos estão de volta, pude novamente sair com Gertrude, o que não me acontecia havia muito tempo (pois ainda ultimamente houve novas quedas de neve e as estradas ficaram, até os últimos dias, num estado lastimável), assim como não me acontecia há muito tempo ficar a sós com ela.

Caminhávamos depressa, o ar puro coloria suas faces e jogava sem cessar sobre seu rosto os cabelos louros.

Como passávamos por uma turfeira, colhi alguns juncos em flor, cujas hastes passei sob sua touca e trancei com seus cabelos para prendê-los.

Quase não nos havíamos falado ainda, espantados por nos vermos novamente a sós, quando Gertrude, voltando para mim seu rosto sem olhares, me perguntou bruscamente:

― O senhor acha que Jacques ainda me ama?

― Ele decidiu renunciar a você ― respondi-lhe de imediato.

― Mas o senhor acredita que ele saiba que o senhor me ama? ― disse ela.

Desde a conversa do último verão que já reproduzi, mais de seis meses se haviam escoado sem que (e isto me surpreende) a mínima palavra de amor tenha sido pronunciada novamente entre nós. Nunca estávamos a sós, como disse, e era melhor que assim fosse... A pergunta de Gertrude me fez bater tão forte o coração que precisei diminuir um pouco o passo.

― Mas todos, Gertrude, sabem que amo você ― exclamei.

Ela não se deixou enganar:

― Não, não, o senhor não está respondendo à minha pergunta.

E, depois de um momento em silêncio, recomeçou, de cabeça baixa:

― Minha tia Amélie sabe, e eu sei que isso a deixa triste.

― Ela seria triste sem isso ― protestei com voz insegura. ― É do temperamento dela ser triste.

― Oh!, o senhor sempre tenta me tranquilizar disse ela com uma espécie de impaciência. ― Há muitas coisas, bem sei, que não me deixa conhecer, por medo de me inquietar ou de me magoar, muitas coisas que não sei, de modo que às vezes....

Sua voz se tornava cada vez mais baixa, ela parou como que sem fôlego. E, repetindo suas últimas palavras, perguntei:

― Que às vezes?

― De modo que às vezes ― recomeçou ela ― toda a felicidade que lhe devo me parece-me assentar sobre a ignorância.

― Mas Gertrude...

― Não, deixe-me explicar: não quero tal felicidade. Compreenda que eu não... não faço questão de ser feliz. Prefiro saber. Há muitas coisas, tristes coisas certamente, que não posso ver, mas que o senhor não tem o direito de me deixar ignorar. Refleti longamente durante estes meses de Inverno; receio, veja, que o mundo todo não seja tão belo quanto me fez crer, pastor, e até mesmo que esteja muito incompleto.

― É verdade que o homem frequentemente desfeou a terra ― argumentei temerosamente, pois a ênfase de seus pensamentos me amedrontava e eu tentava desviá-los desesperançado de consegui-lo. Parecia que ela esperava por aquelas poucas palavras, pois, apoderando-se delas como de um elo graças ao qual se fechasse a corrente.

― Precisamente ― exclamou ― eu queria ter a certeza de não aumentar o mal.

Durante muito tempo continuamos a caminhar rapidamente em silêncio. Tudo o que eu lhe teria podido dizer se chocava de antemão com o que sentia que ela pensava; eu receava provocar alguma frase da qual todo o nosso destino dependeria. E pensando no que me havia dito Martins, que talvez se pudesse fazê-la ver, uma grande angústia me oprimia o coração.

― Eu queria perguntar-lhe ― falou ela afinal mas não sei como dizer...

Ela sem dúvida recorria a toda a sua coragem, como eu recorria à minha para escutá-la. Mas como poderia eu prever a pergunta que a atormentava:

― Os filhos de uma cega nascem necessariamente cegos?

Não sei a quem de nós dois aquela conversa afligia mais, mas agora era preciso continuar.

― Não, Gertrude ― disse-lhe ― a não ser em casos muito especiais. Não há realmente nenhuma razão para que o sejam.

Ela pareceu extremamente tranquilizada. Eu teria querido perguntar-lhe, por minha vez, por que me perguntava aquilo, mas não tive coragem e continuei inabilmente:

― Mas, Gertrude, para ter filhos é preciso estar casada.

― Não me diga isto, pastor. Sei que não é verdade.

― Eu disse o que era decente dizer a você ― protestei. ― Mas realmente as leis da natureza permitem o que proíbem as leis dos homens e de Deus.

― O senhor mais de uma vez me disse que as leis de Deus eram as mesmas do amor.

― O amor que se manifesta aí não é mais aquele ao qual também chamamos caridade.

― É por caridade que me ama?

― Sabe bem que não, minha Gertrude.

― Mas então reconhece que nosso amor escapa às leis de Deus?

― Que quer dizer?

― Oh! O senhor sabe muito bem, e não deveria ser eu a dizê-lo.

Em vão eu procurava usar de subterfúgios; meu coração batia a retirada de meus argumentos derrotados.

Desesperadamente, exclamei:

― Gertrude, você acha que seu amor é culposo?

Ela retificou:

― O nosso amor... Digo-me que deveria achá-lo.

― E então?

Surpreendi como que uma súplica em minha voz, enquanto, sem recuperar o fôlego, ela concluía:

― Mas que não posso deixar amá-lo.

Tudo isto aconteceu ontem. Hesitei em escrevê-lo, a princípio... Não sei mais como terminou o passeio. Caminhávamos precipitadamente, como que para fugir, e eu mantinha seu braço estreitamente apertado contra mim. Minha alma a esta altura abandonara meu corpo ― parecia-me que o menor cascalho na estrada nos teria feito cair por terra.


19 de Maio.

MARTINS voltou hoje pela manhã. Gertrude é operável. Roux o afirma e pede que ela lhe seja confiada por algum tempo. Não posso me opor a isto e, no entanto, covardemente, pedi para refletir. Pedi que me deixassem prepara-la suavemente... Meu coração deveria saltar de alegria, mas sinto-o pesar em mim, preso de uma angústia inexprimível. À ideia de precisar comunicar a Gertrude que a visão lhe poderá ser dada, o coração me falha.


Tarde de 19 de Maio.

REVI Gertrude e não lhe disse nada. Em La Grange, esta tarde, como não havia ninguém no salão, subi até seu quarto. Estávamos sozinhos.

Segurei-a longamente de encontro a mim. Ela não fazia um só movimento para se defender e, como erguia o rosto para mim, nossos lábios se encontraram...


21 de Maio.

FOI para nós, Senhor, que fizestes a noite tão profunda e bela? Foi para mim? O ar está cálido e pela minha janela aberta entra a lua e ouço o silêncio imenso dos céus. Ó confusa adoração de toda a criação, em que meu coração se funde num êxtase sem palavras.

Não posso mais orar senão desesperadamente. Se há uma limitação no amor, ela não vem de Vós, meu Deus, mas dos homens. Por mais culpado que meu amor pareça aos olhos dos homens, oh! dizei-me que aos vossos ele é santo.

Esforço-me para me elevar acima da ideia de pecado. Mas o pecado me parece intolerável, e não quero abandonar Cristo. Não, não aceito pecar, amando Gertrude. Não posso arrancar este amor de meu coração senão arrancando meu próprio coração, e por quê? Ainda que eu já não a amasse, deveria amá-la por piedade dela; não mais a amar seria traí-la: ela precisa de meu amor... Senhor, não sei mais... Não sei mais do que Vós. Guiai-me. Às vezes sinto, como se submergisse nas trevas e que a visão que lhe será dada me está sendo tirada.

Gertrude deu entrada ontem na clínica de Lausanne, de onde só deverá sair dentro de vinte dias. Aguardo sua volta com extrema apreensão. Martins deverá trazê-la de volta. Ela me fez prometer que não tentaria vê-la até então.


22 de Maio.

CARTA de Martins: a operação foi bem-sucedida. Deus seja louvado.


24 de Maio.

A IDEIA de dever ser visto por ela, que até agora me amava sem me ver ― está ideia me provoca um mal-estar intolerável. Irá reconhecer-me? Pela primeira vez na minha vida interrogo ansiosamente os espelhos.

Se sentir seu olhar menos indulgente do que era seu coração, e menos amoroso, o que será de mim? Senhor, parece-me às vezes que necessito de seu amor para vos amar.


27 de Maio.

UMA sobrecarga de trabalho permitiu-me atravessar estes últimos dias sem demasiada impaciência.

Cada ocupação que consegue arrancar-me de mim mesmo é abençoada; mas durante todo o dia, em meio a tudo, sua imagem me segue. Amanhã ela deve voltar. Amélie, que durante esta semana só me mostrou as melhores facetas de seu humor e que parece dedicar-se a fazer-me esquecer a ausente, prepara-se, com as crianças, para festejar sua volta.


28 de Maio.

GASPARD e Charlotte foram colher o que conseguiram encontrar de flores nos bosques e nas campinas. A velha Rosalie confecciona um bolo monumental, que Sarah ornamenta com não sei que enfeites de papel dourado. Nós a esperamos ao meio-dia.

Escrevo para fazer passar esta espera. São onze horas. A todo momento ergo a cabeça e olho em direção à estrada por onde deverá chegar o cabriolé de Martins.

Controlo-me para não ir ao seu encontro: é melhor, e em consideração a Amélie, não separar minha acolhida.

Meu coração dá um salto... Ah! Ei-los!


Tarde de 28.

EM que abomináveis trevas mergulho! Piedade, Senhor, piedade! Renuncio a amá-la, mas não permitais que ela morra como eu tinha razão em temer. O que fez ela? O que quis ela fazer? Amélie e Sarah disseram-me tê-la acompanhado até a porta de La Grange, onde a Mlle de la M... a esperava. Ela quis então sair novamente... O que aconteceu?

Tento pôr um pouco de ordem em meus pensamentos. As narrativas que me fazem são incompreensíveis, ou contraditórias. Tudo é caos em minha cabeça... O jardineiro da Mlle de la M... acaba de trazê-la inconsciente a La Grange; ele diz tê-la visto caminhar ao longo do rio, depois transpor a ponte do jardim, depois debruçar-se, depois desaparecer; mas não tendo a princípio compreendido que ela caía, não acorreu como deveria ter feito; encontrou-a junto à pequena comporta, até onde a corrente a havia levado. Quando a revi, pouco depois, ela ainda não recobrara os sentidos, ou então os perdera novamente, pois por um instante havia voltado a si, graças aos cuidados prestados de imediato. Martins, que graças a Deus ainda não havia partido, não compreende bem essa espécie de estupor e de indolência em que ela está mergulhada; em vão a interrogou; dir-se-ia que ela nada ouvia ou que se decidira a não falar. Sua respiração continua entrecortada e Martins receia uma congestão pulmonar; ele colocou cataplasmas e ventosas e prometeu voltar amanhã. O erro foi terem-na deixado tempo demais com as roupas encharcadas, enquanto se ocupavam em reanimá-la; a água do rio estava gelada; a Mlle de la M..., a única a conseguir dela algumas palavras, garante que ela quis colher os miosotis que crescem em abundância naquele lado do rio e que, inábil ainda para calcular as distâncias ou tomando por terra firme o tapete flutuante de flores, se desequilibrou bruscamente... Se eu pudesse acreditar, convencer-me de que não houve mais que um acidente, que peso terrível seria tirado de minha alma. Durante toda a refeição, tão alegre no entanto, o estranho sorriso, que não a deixava, inquietava-me; um sorriso constrangido que não conhecia nela, mas que me esforçava por crer o de seu novo olhar; um sorriso que parecia jorrar de seus olhos como lágrimas, e junto ao qual a alegria vulgar dos outros me ofendia. Ela não se misturava à alegria Dir-se-ia que descobrira um segredo que sem dúvida me teria confiado se estivéssemos a sós. Ela quase não falava, mas ninguém se surpreendia, pois, junto aos outros, e quanto mais exuberantes eles estão, ela é habitualmente silenciosa.

Senhor, eu vos imploro: permiti-me falar com ela.

Preciso saber, senão como poderei continuar a viver? E entretanto, se é verdade que ela desejou não mais viver, terá sido precisamente por ter sabido? Sabido o quê?

Minha amiga, o que você viu de horrível? O que lhe escondi de mortal, que subitamente você pôde ver?

Passei mais de duas horas à sua cabeceira, não tirando os olhos de seu rosto, de suas faces pálidas, de suas pálpebras delicadas cerradas sobre uma indizível tristeza, de seus cabelos ainda molhados e semelhantes a algas, espalhados ao seu redor sobre o travesseiro ― ouvindo sua respiração desigual e penosa.


29 de Maio.

A Mlle Louise mandou-me chamar esta manhã, no momento em que eu ia para La Grange. Depois de uma noite mais ou menos tranquila, Gertrude saiu afinal de seu torpor. Ela me sorriu quando entrei em seu quarto e me acenou para que fosse sentar-me à sua cabeceira. Eu não ousava interrogá-la e ela sem dúvida receava minhas perguntas, pois disse-me imediatamente, como que para prevenir qualquer efusão:

― Como é mesmo que o senhor chama ^`aquelas florezinhas azuis, que eu quis colher no rio ― que são da cor do céu? Mais hábil do que eu, quer fazer-me um ramo delas? Eu o porei ali, junto à minha cama...

O contentamento artificial de sua voz me fazia mal e certamente ela o compreendeu, pois acrescentou mais gravemente:

― Não posso falar-lhe esta manhã; estou fraca de mais. Vá colher as flores para mim, está bem? Não demore.

E quando, uma hora mais tarde, trouxe para ela um ramo de miosótis, a Mlle Louise disse-me que Gertrude repousava novamente e que não me poderia receber antes da tarde.

Esta tarde, eu a revi. Almofadas empilhadas sobre a cama a sustentavam e mantinham-na quase sentada. Seus cabelos, agora penteados e trançados ao alto de sua cabeça, misturavam-se aos miosótis que eu lhe havia trazido.

Ela estava certamente febril e parecia muito atormentada. Segurou em sua mão escaldante a mão que eu lhe estendia; fiquei de pé a seu lado:

― É preciso que eu lhe faça uma confissão, pastor, pois esta tarde tenho medo de morrer ― disse ela. ― Menti-lhe hoje pela manhã... Não era para colher flores. O senhor me perdoará se eu lhe disser que quis me matar?

Caí de joelhos junto ao seu leito, conservando sua frágil mão na minha, mas ela, soltando-se, começou a acariciar minha cabeça, enquanto eu afundava o rosto entre os lençóis, para esconder-lhe minhas lágrimas e abafar meus soluços.

― O senhor acha que fiz muito mal? ― recomeçou então ternamente, e, como eu nada respondesse:

― Meu amigo, meu amigo, bem vê que ocupo lugar demais em seu coração e em sua vida. Quando voltei para junto do senhor, foi o que percebi de imediato; ou pelo menos que o lugar que eu ocupava era o de outra, que se entristecia com isso. Meu crime foi não tê-lo sentido mais cedo, ou ao menos ― pois eu já o sabia ― tê-lo deixado me amar assim mesmo. Mas quando repentinamente o rosto dela me apareceu, quando vi naquele pobre rosto tanta tristeza, não pude mais suportar a ideia de que aquela tristeza fosse obra minha... Não, não, não se censure por nada; mas deixe-me partir e devolva a ela sua alegria.

A mão parou de acariciar minha cabeça; segurei-a e cobri-a de beijos e lágrimas. Mas ela a retirou impacientemente e uma nova angústia começou a agitá-la.

― Não era isto o que eu lhe queria dizer; não, não é isto o que quero dizer ― repetia ela, e eu via o suor molhar sua testa. Então ela baixou as pálpebras e ficou de olhos fechados por algum tempo, como que para concentrar seu pensamento, ou para reencontrar seu estado original de cegueira, e, numa voz a principio hesitante e desolada, mas que logo se elevou enquanto ela reabria os olhos e em breve se animou até a veemência:

― Quando o senhor me deu a visão, meus olhos se abriram para um mundo mais belo do que eu jamais havia sonhado; sim, realmente, eu não imaginava o dia tão claro, o ar tão brilhante, o céu tão amplo. Mas eu também não imaginava tão ossuda a testa dos homens; e, quando entrei em sua casa, sabe o que me apareceu inicialmente... Ah! É mesmo preciso que eu lhe diga: o que vi inicialmente foi nosso erro, nosso pecado. Não, não proteste. Lembre-se das palavras de Cristo: "Se fosseis cego, não teríeis pecado algum." Mas, agora, eu o vejo... Levante-se, pastor. Sente-se aqui, junto a mim. Escute-me sem me interromper. Durante o tempo que passei na clínica eu li, ou melhor, fiz com que lessem para mim, uma passagem da bíblia que ainda não conhecia, que o senhor nunca me havia lido. Lembro-me de um versículo de São Paulo, que me repeti por um dia inteiro: "Para mim, estando outrora sem lei, eu vivia; mas quando veio o mandamento, o pecado reviveu, e eu morri."

Ela falava num estado de exaltação extrema, em voz muito alta, e quase gritou estas últimas palavras, de modo que fiquei embaraçado com a ideia de que a pudessem ouvir do lado de fora; então fechou os olhos e repetiu, como para si mesma, aquelas últimas palavras, num murmúrio:

― "O pecado reviveu ― e eu morri."

Estremeci, o coração enregelado numa espécie de terror. Quis desviar-lhe o pensamento.

― Quem leu para você esses versículos? ― perguntei.

― Ah! Ao lhe falar assim, eu esperava ficar mais aliviada. Deixe-me. Deixemo-nos. Não suporto mais vê-lo.

Deixei-a. Chamei a Mlle de la M... para me substituir junto a ela; sua extrema agitação me fazia tudo temer, mas era preciso convencer-me de que minha presença agravava seu estado. Supliquei que me viessem avisar se piorasse.

― Foi Jacques ― disse ela reabrindo os olhos e me encarando fixamente. ― O senhor sabia que ele se converteu?

Era demais; eu ia suplicar-lhe que se calasse, mas ela já continuava:

― Meu amigo, vou causar-lhe uma grande dor, mas é preciso que não reste nenhuma mentira entre nós. Quando vi Jacques, compreendi de repente que não era o senhor que eu amava, era ele. Ele tinha exatamente o seu rosto, quero dizer, o que eu imaginava que o senhor tivesse... Ah! Por que me fez repeli-lo? Eu teria podido desposá-lo...

― Mas, Gertrude, você ainda pode ― exclamei com desespero...

― Ele toma o hábito ― disse ela impetuosamente. E foi então sacudida por soluços: ― Ah! Eu queria me confessar com ele... ― gemia ela numa espécie de êxtase, ― o senhor vê que só me resta morrer. Tenho sede. Chame alguém, eu lhe imploro. Sufoco. Deixe-me só.


30 de Maio.

INFELIZMENTE eu não deveria mais revê-la senão adormecida. Foi nesta manhã, ao nascer do dia, que ela morreu, depois de uma noite de delírio e prostração.

Jacques, a quem, atendendo ao último pedido de Gertrude, a Mlle de la M... mandara um mensageiro prevenir, chegou algumas horas depois do fim. Ele me censurou cruelmente por não ter mandado chamar um padre enquanto ainda havia tempo. Mas como eu poderia tê-lo feito, ignorando ainda que, durante sua estada em Lausanne, instada evidentemente por ele, Gertrude havia abjurado? Ele me anunciou, num só golpe, sua própria conversão e a de Gertrude. Assim me abandonavam ao mesmo tempo aqueles dois seres; era como se, separados por mim em vida, houvessem ambos projetado escapar-me e se unir em Deus. Mas persuado-me de que na conversão de Jacques entra mais raciocínio do que amor.

― Pai ― disse-me ― não fica bem acusá-lo, mas foi o exemplo do seu erro que me guiou.

Depois de ele se ter novamente ido embora, ajoelhei-me junto de Amélie, pedindo-lhe que rezasse por mim, pois precisava de ajuda. Ela recitou simplesmente o Pai-nosso, mas com longos silêncios entre os versículos, silêncios preenchidos pela nossa imploração.

Teria desejado chorar, mas sentia o meu coração mais árido que o deserto.

Fim

 

 
La Symphonie Pastorale - filme de 1946 realizado por Jean Delannoy

 

ϟ

Na extensa obra de André Gide, mais de cinquenta títulos, 'A Sinfonia Pastoral' pode talvez não ocupar lugar de primeiro plano, mas há um irrecusável espaço para ela quando se procura compreender a psicologia de seu criador. A acentuada significação desse texto decorre da circunstância de revelar-se nele com transparência absoluta o conflito religioso de que a mente de Gide foi palco, sobretudo na primeira metade de sua existência.
Nascido em Paris a 22 de novembro de 1869, descendente de famílias de confissão protestante, oriundas da burguesia e com raízes camponesas, tanto do lado paterno quanto do materno, essas origens genéticas como que decidiram em larga medida a complexidade inquietante desse ser, a agudeza ou a impermeabilidade de sua inteligência ante os fatos, o clima peculiarmente atormentado de sua criação. A um só tempo sensual e puritano, aspirando à liberdade total, mas ao mesmo tempo proibitário de um inexplicável conformismo, oscilando perpetuamente entre o forte apelo religioso e a não menos forte solicitação dos "alimentos terrestres", sempre inquieto, nunca apaziguado, encarna ele uma das personalidades mais contraditórias e fascinantes da literatura francesa, ou afins, europeia, na primeira metade do século 20. O próprio escritor, superiormente inteligente, tinha, é claro, plena consciência de constituir como que o desaguadouro, a confluência de tendências tão opostas e tão poderosas. Seu pai era do Languedoc, a mãe, da Normandia, peculiaridade que a seus olhos já constituía motivo para um entrechoque, como afirma logo nas primeiras páginas de Si le grain ne meurt (1919). "Nada mais diferente do que essas duas famílias, nada mais diferente do que essas duas províncias da França, que conjugam em mim suas contraditórias influências. Frequentemente tenho me persuadido que fui forçado a criar obras de arte, pois só através delas poderia conciliar elementos tão diversos..."
Seu primeiro grande livro, Les nourritures terrestres, é datado de 1897, isto é, apareceu um ano após a publicação de La soirée avec M. Teste, de Paul Valéry. Amigos ambos, discípulos de Mallarmé, cujas "terças-feiras" frequentavam assiduamente na mocidade, de certa forma pode-se afirmar que Gide e Valéry, a partir dessa época, iniciaram o exercício de verdadeiro consulado não só na literatura francesa, mas também no tocante às tendências literárias em nível continental. Ao contrário de Valéry, porém, que se dedicou, sobretudo, ao cultivo da lucidez, à idolatria da inteligência, criando ao longo de toda a carreira artística uma prosa cristalina, isenta dos cacoetes e modismos do tempo, cristalizada numa forma imtemporal e clássica, Gide nunca deixou de ser um apaixonado, um fascinado pelas virtudes e pelos vícios humanos, podendo talvez melhor do que qualquer outro criador de nossa época repetir como seu o dito de Terêncio: Valéry será o "pater aestheticus", Gide é antes de tudo um homem ávido por apropriar-se, por degustar toda a gama de sabores do humano.
Pode-se, certamente, perguntar, a partir dessa constatação, se existe uma moral gideana. A pergunta, é claro, não só foi feita, como provocou ainda em sua vida controvérsias e polémicas, devendo lembrar-se a esse respeito a inimizade que se criou entre ele e outro filho da mesma geração mallarmaica, o católico Paul Claudel. A resposta mais isenta, menos parcial a essa questão talvez seja a de que Gide sempre foi fiel ao próprio pensamento, indeclinavelmente obediente a uma ordem interior com a qual nunca rompeu a coerência. Essa postura levou-o a tornar-se o mais seguro herdeiro de Montaigne no século 20, verdadeiro apóstolo da posição clássica do Humanismo: limitada aos horizontes terrestres, a vida humana esgota seu significado em si mesma: 'Rien que la terre". o homem é feito para a felicidade temporal, tudo se compõe e se conjuga para transformar-se em suas mãos em instrumento de gozo: sensualidade e inteligência, corpo e espírito, egoísmo e altruísmo, afirmação e negação. E a lição definitiva dele quiçá possa cifrar-se numa única sentença: o homem deve tornar-se homem sem socorro algum da graça, utilizando apenas seus meios de homem.
Todavia, deve-se conceder que para chegar a essa espécie de serenidade desesperada, de lucidez diabólica, o caminho foi longo e difícil. As sementes da rígida formação protestante, desde cedo depositadas em sua inteligência, germinaram com extraordinária fecundidade, ampliada por uma delicada sensibilidade ao espiritual.
É no quadro delineado por essas perspectivas que sua obra deve ser compreendida e fruída, só tal chave é capaz de facultar-nos o acesso à galeria fascinante e demoníaca composta por Les caves du Vatican e L'immoraliste, por Les faux-monnayeurs e Thésée.
 
A Sinfonia Pastoral pertence a outro tipo de obras. Faz parte dos textos em que o escritor ainda se mostra preso à placenta protestante, da qual nunca se libertará por completo, mas que em livros como esse se revela com mais agudeza. Uma das linhas mestras do relato é a oposição entre a palavra do Cristo e a palavra de São Paulo.
Embora não existente, esse contraste de fundo teor luterano e calvinista constituiu um dos espinhos na consciência religiosa de Gide. Alguns críticos pretenderam fazer da Sinfonia, de L'immoraliste e de La porte étroite uma espécie de tríplico, representando cada um desses livros uma das etapas do pensamento gideano. Na verdade, tais "écrits" não são simples "contos filosóficos" na produção voltaireana, escritos com ironia e fervor. Ao contrário, o modo de vida, a doutrina que embasa cada uma dessas obras, foram ardentemente vividos e experimentados pelo autor delas. Cada uma representa uma possibilidade, uma tentativa de solução, uma tentação a que o escritor se abandonou. Nessa perspectiva, A Sinfonia Pastoral nos surpreende como uma narrativa cujas páginas são plenas de fervor, impregnadas de descobertas. A poesia e a delicada atmosfera que se respiram em suas páginas banham toda a obra, encantam poderosamente o leitor e só se esvaem no final trágico a que o relato se encaminha.
Tentemos resumi-lo: o Pastor protestante de uma vila do Jura, que aspira ao cumprimento quase literal da palavra do Evangelho, mantém um diário no qual regista os acontecimentos marcantes do seu cotidiano.
Uma noite, voltando da cabeceira de uma moribunda, traz para a própria casa a pequena Gertrude, órfã sem nenhum arrimo, cega de nascença, e que ele compara com a ovelha perdida da parábola. Contra a opinião da mulher, que o incrimina com rudeza, opondo-se ao gesto, a menina é recolhida no lar e o pastor passa a dedicar-se inteiramente à educação dela, tentando guiá-la no caminho da espiritualidade. Na realidade, porém, à medida que a criança cresce e desabrocha, o amor que lhe vota o pai adotivo perde toda a pureza e paulatinamente se torna puramente amor à mulher que ele, novo Pigmalião, criara. Tão incapaz de reconhecer o mal nos outros, quanto em si mesmo, o pastor não chega a tornar consciência de um sentimento que fora logo pressentido e adivinhado por sua mulher e por Jacques, o filho mais velho do casal. Sucede que Jacques também se apaixona por Gertrude. Ele, porém, retrai-se, após haver provocado a cólera paterna. Mesmo assim, a tensão entre ambos subsiste, acrescendo-se ainda em decorrência de divergência de ordem religiosa que cada vez mais acentuadamente os afasta um do outro.
Ao descobrir que o próprio filho o condena, o pastor, desconcertado, começa a ver claro o tipo de afeição que o liga a Gertrude. Não sabe, porém, como reagir, sobretudo porque é também objeto da ternura da ceguinha. Ao concretizar-se a possibilidade de uma operação que pode restituir-lhe a visão, o pastor vê aumentar ainda mais a confusão em que está imerso. Realizada com total êxito a intervenção cirúrgica do oculista, Gertrude, agora vidente, torna à casa dos pais adotivos. Antes, porém, de atingi-la, atira-se ao rio, próximo ao moinho.
Só sobrevive à tentativa de suicídio para confessar ao pastor que Jacques a visitara no hospital e a convertera ao catolicismo. No momento em que a vista lhe foi devolvida, verificou que existia um mundo ao mesmo tempo muito mais belo e muito mais pervertido do que aquele que seu mestre lhe havia descrito. Tomara então consciência do Sentimento que este lhe dotava, descobrindo, porém, que, de fato, amava Jacques. O diário finda com a morte de Gertrude e a notícia de que Jacques decidira abandonar o mundo e fazer-se monge.
Breve, melancólico, pejado de poesia delicadamente dramática, reflexo irrecusável das contradições interiores de Gide, A Sinfonia Pastoral é um dos relatos mais sensíveis e ternos do implacável demolidor de almas que ele foi. O cinema não deixou de perceber as virtualidades plásticas desse curto drama de amor banhado em tragédia: um filme célebre, antológico, rodado ainda em vida de Gide, levou à tela o "récit", tendo Micbele Morgan no papel de Gertrude e Pierre Blanchar como o pastor. Pouco antes, no Japão, o relato também fora transposto à linguagem cinematográfica.
É possível acompanhar no Journal de Gide os momentos mais importantes da génese e da elaboração da obra. Em 1910, tinha então 41 anos, o romancista pela primeira vez fala sobre A Sinfonia Pastoral, que ainda não tinha esse nome: o escritor projetara sua narrativa com o título de L'aveugle (A cega). Anota então a 10 de Maio daquele ano: "Serei sem dúvida obrigado a escrever um prefácio à minha Cega. Nele direi: se ser protestante é que é ser cristão sem ser católico, sou protestante. Mas não posso reconhecer outra ortodoxia além da ortodoxia romana, e se o protestantismo, calvinista ou luterano, pretendesse impor-me a sua, imediatamente aceitaria a romana, como única. 'Ortodoxia protestante', essas palavras não têm sentido algum para mim. [...] Se o protestantismo tivesse logo sabido rejeitar São Paulo! Mas é precisamente de São Paulo, não do Cristo, que Calvino está próximo."
Gide não chegou nunca a elaborar esse prefácio por assim dizer "teológico", e que iria sem dúvida demonstrar com clareza o profundo sentido religioso que constitui o cerne mesmo de A Sinfonia Pastoral. Ele é tão evidente e essencial que, por vezes, à leitura do texto, tem-se a nítida impressão de que o enredo não passa de mero pretexto para que Gide possa pôr face a face, em confronto, as duas mentalidades, a calvinista e a católica.
Uma outra anotação do Journal, em 29 de julho de 1930 - reveladora uma vez mais da profunda simpatia dele pelo humano em todas as suas misérias e grandezas - demonstra que o tema da cegueira, aflorado na Sinfonia, é capaz ainda de suscitar-lhe observações de extrema finura e interesse:
"O afinador veio enfim ontem de Fécamp. É um bravo pobre homem, cego como convém, acompanhado por aquela que se tornou sua mulher. Sinto que tem grande prazer em conversar. [...] Os cegos que não são músicos merecem muita piedade; mas ele vive nesse mundo dos sons, que lembra o mundo eterno, com essa espécie de serenidade quase mística dos cegos ― que faz pensar que Deus se deixa aproximar mais pelo ouvido do que pela vista, e que as formas têm menos transparência do que os sons. Abrigados do espetáculo de tantas enormidades e misérias, evadem-se eles mais facilmente em sua harmonia imaginária, mais facilmente obtida. Não fiz ver isso bastante bem em minha Sinfonia Pastoral."
Essa afinidade dos cegos com o universo da música é efetivamente responsável por um dos mais comovedores trechos da novela. Ainda privada da visão, Gertrude é levada pelo pastor a Neuchâtel a fim de ouvir um concerto, no qual vai executar-se exatamente a 6.ª Sinfonia de Beethoven, A Sinfonia Pastoral, que empresta o nome ao livro. A audição da peça propicia ao mestre oportunidade para dar mais uma de suas lições à discípula sempre dócil, sempre atenta. Procura ele então fazer com que a menina descubra a natureza das cores, através dos diferentes sons. É uma página comovedora: "O papel de cada instrumento na sinfonia permitem-me voltar à questão das cores. Fiz com que Gertrude observasse as sonoridades diferentes dos metais, dos instrumentos de corda e dos de sopro, e que cada um deles, à sua maneira, é suscetível de oferecer, com maior ou menor intensidade, toda a escala de sons, dos mais graves aos mais agudos. Convidei-a a imaginar igualmente, na natureza, as colorações vermelhas e alaranjadas..." 
Esta passagem não deixa de trazer-nos à lembrança a observação feita por Diderot na Lettre sur les Aveugles, a propósito de uma cega famosa no século XVIII, Mlle. Mélaine de Salignac, que quando ouvia cantar era capaz de distinguir entre vozes "morenas" e vozes "loiras". [...]
Um verso célebre de Carlos Drumond de Andrade: "Os delicados preferem morrer" pode, muito adequadamente, servir como timbre ao desenlace desta pequena novela gideana. Excessivamente pura, dotada dessa delicadeza de sentimentos que impede certos seres de ferir o semelhante, que os impede de escolher, porque a preferência inevitavelmente vai abrir feridas no coração do preterido, Gertrude escolhe a saída da morte, como a menos dolorosa, a menos indelicada. Não podendo eleger entre Jacques e o pastor, ou antes, não desejando golpear de morte aquele que fora seu pai, seu mestre, seu protetor e salvador, opta pelo suicídio, prefere morrer.
Resta saber em que medida Gide se revela, se compromete pessoalmente na redação desse escrito em que, como em outros de sua obra, fala na primeira pessoa. [...] É ele o pastor de A Sinfonia Pastoral? O pastor, sem dúvida, é uma das "possibilidades" de André Gide, teria sido um dos destinos "viáveis" para esse homem cuja moral profunda foi nunca escolher, porque toda escolha implica a recusa das inumeráveis possibilidades que deixamos de viver.   por Nogueira Moutinho

 

 

 

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texto integral de:

A Sinfonia Pastoral
ANDRÉ GIDE
Livraria Francisco Alves Editora, 1985
título original:
La Symphonie Pastorale
Éditions Gallimard, 1919

 


 

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[27.Jun.2012]
Publicado por MJA